4.3 PROJETOS DE LEI
4.3.2 Projeto de Lei nº 1.676/2015 e apensos
O Senador Veneziano Vital do Rêgo, por meio do PL no 1.676/2015 (BRASIL, 2015), tipifica o crime “de fotografar, filmar ou captar a voz de pessoa, sem autorização ou sem fins lícitos” (artigo 1º). (BRASIL, 2015)
O termo direito ao esquecimento se encontra no artigo 3º, e tenta expandir o princípio da dignidade da pessoa humana: “é expressão da dignidade da pessoa humana, representando a garantia de desvinculação do nome, da imagem e demais aspectos da personalidade relativamente a fatos que, ainda que verídicos, não possuem, ou não possuem mais, interesse público”. (BRASIL, 2015)
Silva (2016) pede cautela ao alargar demais o conteúdo a ser protegido pelo direito ao esquecimento:
Entendemos que a consideração do direito ao esquecimento como “expressão da dignidade humana” é algo perigoso de ser previsto, pois qualquer fundamento que puder se referir a uma pretensa proteção desta pode vir a ser objeto de um pedido de desvinculação, o que pode comprometer o funcionamento dos mecanismos de busca da forma como é conhecida hoje.
[...]
Em razão da abertura do conceito do direito ao esquecimento na era digital conferido por este Projeto de Lei, existe uma probabilidade grande de virem a ser cometidos abusos quanto número de pedidos de desvinculação de URLs perante os índices dos buscadores, comprometendo o acesso à informação em sua forma mais facilitada.
Também cria a obrigação para os provedores de conteúdo e sites de buscas de criar um canal de comunicação onde será discutido o direito ao esquecimento em seu artigo 4º. Os prazos são pequenos e faltam estratégias concretas para gerar eficiência no projeto. (BRASIL, 2015)
Os últimos pareceres Conselho de Comunicação Social (CCS) do Congresso pedem pela rejeição do Projeto de Lei nº. 1676/2015. Na fundamentação do parecer do Relator Deputado Arolde de Oliveira (BRASIL, 2018):
é de nosso parecer que a matéria precisa ser bem mais discutida e aprofundada, uma vez que pode ferir de morte o direito de expressão, previsto
na Constituição Federal. Além disso, é muito difícil precisar se determinada veiculação ou tema deixou de possuir os atributos de interesse público. A simples adoção do “direito ao esquecimento”, na forma proposta, pode ocultar fatos relevantes e cuja memória seja de suma importância para a sociedade brasileira. Entendemos que este tema deva merecer um amplo debate antes de sua inserção na ordem jurídica brasileira.
Acioli e Ehrardt Júnior (2017, p.393) alertam problemas na redação do artigo 3 e 4º do projeto:
Primeiramente, cumpre ressaltara inviabilidade prática do caput do artigo 4º em determinar que “os meios de comunicação social, os provedores de conteúdo e os sítios de busca da rede mundial de computadores” criem departamentos específicos que constem endereços físicos e, até mesmo, número de telefone. Fora, também, a grande dificuldade de submeter uma determinação de difícil cumprimento para um número genérico de meios de comunicação social ou de provedores de conteúdo, tendo em vista a grande virtude da rede em ser plural nas mais diversas fontes de informação, desde o jornalismo independente até o sem número de sites de conteúdo administrados por uma só pessoa, como hobbie ou como atividade de pequeno ou de quase nenhum lucro. É tecnicamente inviável que pequenas empresas ou jornalistas independentes cumpram os requisitos previstos nesse projeto, ante os custos operacionais para se montar todo o aparato exigido.
O parágrafo terceiro também se mostra bastante questionável ao submeter os meios de comunicação e os atores da rede a penalidades por meio de ação civil pública caso, simplesmente, seus “departamentos encarregados do respeito ao direito ao esquecimento” apresentem mau funcionamento. Em resumo, o projeto de Lei n. 1676/2015 apresenta dispositivos temerários que enfraquecem valores de uma internet aberta, plural e democrática, sejam esses valores presentes como direitos e princípios no Marco Civil na Internet, sejam, de modo geral, os princípios e direitos fundamentais que alicerçam a liberdade de expressão e a livre iniciativa, consagrados na Constituição Federal brasileira.
Embora o primeiro parecer feito pelo Conselho teria aprovado o projeto de lei, o voto foi alterado, pedindo por sua rejeição diante de uma redação simplista para caracterizar o direito ao esquecimento. (BRASIL, 2016)
O projeto ainda está em trâmite. Foram apensados outros projetos: o PL nº. 2.712/2015, pelo deputado Jefferson Campos; PL nº. 10.860/2018, apresentado pelo deputado Augusto Carvalho; PL nº. 346/2019, proposto pelo deputado Danilo Cabral; PL 5.776/2019 feito por Afonso Motta; PL nº. 283/2020, apresentado pelo deputado Cássio Andrade; e o PL nº. 475/2020, por Capitão Alberto Neto. (BRASIL, 2020)
No primeiro PL, nº. 2.712/2015 (BRASIL, 2015), o deputado acrescenta ao artigo 7 do MCI o inciso XIV, visando garantir a remoção, mediante solicitação da pessoa interessada:
de referências a registros sobre sua pessoa em sítios de busca, redes sociais ou outras fontes de informação na internet, desde que não haja interesse público atual na divulgação da informação e que a informação não se refira a fatos genuinamente históricos.
Este projeto pretende de garantir parâmetros de julgamento para casos que envolvam o pedido de direito ao esquecimento. Os critérios sugeridos seriam a exigência de que a informação que se deseja remover não desperte interesse público atual ou não se refira a fatos genuinamente históricos, visando proteger a memória e a verdade histórica da sociedade, conforme o incisivo XIV, do art. 7 da Lei nº. 12.695/2014. (2015)
Frajhof critica este tipo de projeto (2019, p. 147):
há um erro conceitual sobre o que foi decidido na União Europeia (caso Gonzalez usado na justificação do voto). O TJUE foi taxativo ao determinar que o “direito ao esquecimento” seria apenas a possibilidade de desindexação, rejeitando expressamente a possibilidade de remoção do conteúdo diretamente da página responsável por sua publicação. Além disso, foi absolutamente negligenciado o fato de o TJUE ter fundamentado sua decisão em uma regulamentação sobre a proteção de dados pessoais, enquanto no Brasil o “direito ao esquecimento” encontraria resguardo, de acordo com as proposições ora vistas, no âmbito dos direitos da personalidade.
Os PL nº. 10.860/2018 (BRASIL, 2018) e 5779/2019 (BRASIL, 2019), acrescentam normas no Código Civil, reconhecendo o direito ao esquecimento a tutela da dignidade da pessoa humana. No entanto, não trazem conceito, critério ou delimitações acerca do tema.
O próximo projeto, PL nº. 346/2019 (BRASIL, 2019), pretende alterar o Marco Civil da Internet, acrescentando os arts. 10-A, 10-B e 10-C. O artigo 10-A prevê a coleta e armazenamento de dados de forma lícita, com consentimento livre e explícito. O artigo seguinte prevê a “retirada de reprodução de conteúdo público que inclua imagens ou dados a seu respeito, nos casos em que se caracterize veiculação de informação inverídica ou incorreta”.
Neste projeto, apenas as informações que não fossem verdadeiras poderiam ser retiradas da internet. (BRASIL, 2019)
O PL nº. 283/2020 (BRASIL, 2020), também quer alterar o Marco Civil da Internet, propondo um rito sumário para a retirada de conteúdos ilegais de redes sociais.
O prazo para a remoção é de 24 horas a contar do recebimento da reclamação, conforme prevê ao artigo 21-A, §2. A demandaria seria alta demais para conseguir cumprir com os prazos desse projeto e do projeto anterior que possui o mesmo problema. (BRASIL, 2020)
O último projeto é voltado para o âmbito criminal. Altera o Marco Civil da Internet, para excluir resultados, pelos provedores de aplicação de busca na Internet, de nomes de policiais absolvidos em processos criminais.