2 PROCESSOS DE IN/EXCLUSÃO A PARTIR DE UM OLHAR PARA AS
3.2 SOBRE OS DOCUMENTOS
3.2.2 Projeto Educativo Comum
A fim de responder aos desafios de cada tempo de forma crítica, consciente e efetiva, “empreendendo caminhos com coragem para inovar e renovar [...] tendo como principal objetivo rever, posicionar e revitalizar o trabalho apostólico da Companhia de Jesus na área de Educação Básica no Brasil” (PROVÍNCIA DOS JESUÍTAS DO BRASIL, 2016, p. 14), a Província dos Jesuítas do Brasil elaborou, juntamente com as Unidades Educativas da Rede Jesuíta de Educação, o Projeto Educativo Comum (PEC).
Esse projeto passou a ser a oportunidade da busca por uma educação de excelência, sendo capaz de contribuir na construção de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária. O PEC tornou-se o resultado de um percurso iniciado em 2013, sendo, em 2015, instituído um Grupo de Trabalho (GT) com representantes de diversas Unidades da RJE, que promoveu estudos, espaços de diálogo, reflexões, discussões, consultas e discernimento, a fim de trazerem contribuições para a redação do documento. O foco do PEC também foi atualizar e complementar a Pedagogia Inaciana, trazendo em seu corpo quatro dimensões do processo educativo em consonância com o Sistema de Qualidade na Gestão Escolar da Federação Latino Americana dos Colégios da Companhia de Jesus (FLACSI): currículo; organização, estrutura e recursos; clima institucional; família e comunidade local. (PROVÍNCIA DOS JESUÍTAS DO BRASIL, 2016).
Nesse sentido, conforme o documento, afirma-se que:
O PEC não que ser mais do mesmo. Faz-se necessário superar modelos lineares pautados somente no ensino. Nesta perspectiva se busca organizar os espaços e tempos escolares com novas e criativas perspectivas de aprendizagem. É meta para os próximos anos colocarmos o aluno no centro do processo educativo [...] Buscamos até 2020, ser uma rede de ‘Centros de Aprendizagem Integral’, onde a excelência acadêmica seja fruto da construção coletiva do conhecimento [...] que resulte em vidas transformadas para o bem de uma nova sociedade.
Assim, compreende-se que o período de implementação e disseminação do documento é de quatro anos (2016-2020), visando como prioridade efetivar-se na
prática educativa de todas as Unidades da RJE. O documento em si apresenta três capítulos: o primeiro expõe os pressupostos que sustentam as opções feitas dentre os sinais dos tempos, buscando reconhecer e assumir os desafios no campo da missão; o segundo capítulo especifica as dimensões, sua identidade conceitual, mediações e aplicações na vida escolar; e o terceiro capítulo dedica-se aos encaminhamentos e ao cronograma de implementação do PEC. (PROVÍNCIA DOS JESUÍTAS DO BRASIL, 2016).
Dessa forma, para fins deste estudo, iremos direcionar o olhar para o que esse documento aponta em vistas dos processos inclusivos.
Logo em seu primeiro capítulo, no pressuposto nº 22, diante dos sinais dos tempos e dos desafios no campo de missão, encontra-se:
O desafio de articular fé e justiça nos leva a considerar, no espaço escolar, os temas referentes a gênero, diversidade sexual e religiosa, novos modelos de família, questões étnico-raciais, elementos referentes às culturas indígena, africana e afro-brasileira no Brasil e todos os temas similares relacionados a categorias ou grupos sociais que sofrem discriminação, violência e injustiça. São realidade que, iluminadas pela fé e em comunhão com a Igreja, precisam fazer parte, de forma transversal, de um ‘currículo evangelizar’, voltado para uma aprendizagem integral. (PROVÍNCIA DOS JESUÍTAS DO BRASIL, 2016, p. 36).
Em seu segundo capítulo, localiza-se, na Dimensão Curricular, o pressuposto nº 31, que aborda a importância da construção de um currículo que considere a concepção de mundo, de sociedade, de homem e de pessoa que se deseja formar. Contempla aspectos da formação integral, tendo fundamentação na natureza epistemológica, pedagógica e psicológica. Esse primeiro indaga sobre limites e possibilidades do conhecimento e as relações que se estabelecem entre conhecimento, sujeitos e meio; o segundo busca melhores caminhos e percursos para que a aprendizagem integral ocorra e, por fim, o terceiro, considera os diferentes estágios do desenvolvimento do educando e sua capacidade de pôr-se em atividade, em consonância com os desafios próprios a cada etapa. No pressuposto nº 33, reafirma que a educação jesuítica educa na justiça, no respeito, na solidariedade, na contemplação e na compaixão. (PROVÍNCIA DOS JESUÍTAS DO BRASIL, 2016).
De acordo com o pressuposto nº 36, o aluno é o centro do processo de aprendizagem, sendo que o currículo visa a oferecer oportunidades para a constituição do conhecimento a partir de ”diversas formas, individual e
coletivamente, garantindo acompanhamento sistemático do aluno, do processo de ensino e aprendizagem [...]”. (PROVÍNCIA DOS JESUÍTAS DO BRASIL, 2016, p. 46). A meta, nesse caso, é garantir a avaliação constante, evitando assim, que o não aprender seja entendido como responsabilidade dos educandos.
Esse pressuposto corrobora o que apontam as políticas, quando destacam a educação para todos e o aluno como centro do processo de ensino-aprendizagem, tendo como perspectiva uma educação emancipatória, influenciada pela lógica neoliberal.
Ainda destacam a consideração da diversidade de estilos e ritmos de aprendizagem, como guia aos professores na preparação das aulas e na seleção e organização de recursos para a aprendizagem dos alunos. Destaca ainda a importância da promoção da aprendizagem integral em vista de compreender que o contexto mudou, que a aprendizagem se dá em formas e tempos, espaços distintos, exigindo respostas individualizadas, modos de fazer e de mediar a construção do saber, oportunizando vivências a fim de atender as diferentes necessidades. (PROVÍNCIA DOS JESUÍTAS DO BRASIL, 2016).
Mais especificamente nos pressupostos que visam à Educação Inclusiva, o PEC compreende a diversidade como um fator essencial para a transformação da escola (nº 48), visando à prática de um novo conceito, que tem como base tornar a “educação acessível às pessoas, atendendo às exigências de uma sociedade que vem combatendo preconceitos, discriminações, barreiras entre indivíduos, povos e culturas”. (PROVÍNCIA DOS JESUÍTAS DO BRASIL, 2016, nº 49, p. 52). Ainda esse mesmo pressuposto caracteriza:
Uma escola inclusiva oferece não apenas recursos especializados, mas também um espaço que valoriza a diversidade, no qual se experimentam as vantagens de um ensino e de uma aprendizagem cooperativos, em que todos ajudam e são ajudados. (PROVÍNCIA DOS JESUÍTAS DO BRASIL, 2016, p. 52).
Dessa forma, o pressuposto nº 50 (PROVÍNCIA DOS JESUÍTAS DO BRASIL, 2016) afirma que a Companhia de Jesus comunga com a perspectiva da educação inclusiva, por ter como finalidade uma educação integral para todos os alunos, entendendo a educação inclusiva como garantia de aprendizagem para todos, independente de suas condições.
Ainda no pressuposto nº 51, são estabelecidas ações como diretrizes, visando que os colégios da RJE as adotem como propulsoras do aperfeiçoamento de seus projetos pedagógicos, objetivando à oferta de uma educação de qualidade, sendo elas:
(1) Definir, nos programas de capacitação continuada, temas relacionados à educação inclusiva e às necessidades educacionais especiais; (2) considerar que ‘aprender a viver juntos’ é um dos pilares da educação contemporânea, já que supõe participar e cooperar com os demais; (3) garantir acessibilidade física; (4) desenvolver campanhas de sensibilização para a promoção de acessibilidade pedagógica e atitudinal; (5) implantar atendimento educacional especializado, em espaços e tempos distintos, como meio de suporte ao processo de ensino e de aprendizagem; (6) definir, a partir das orientações legais, os procedimentos internos para o atendimento dos alunos com necessidades educacionais especiais. (PROVÍNCIA DOS JESUÍTAS DO BRASIL, 2016, p. 53).
Assim, constata-se que o PEC apresenta pressupostos que visam a colaborar na definição e implementação de políticas de educação inclusiva às unidades da RJE.