CAPÍTULO 3 – O ENSINO MÉDIO E AS POLÍTICAS EDUCACIONAIS (1991 a 2003)
3.1. Programas e ações governamentais
3.1.1. Projeto Escola Padrão
No período entre 1991 e 1994 o estado de São Paulo foi governado por Luiz Antonio Fleury Filho, do PMDB, tendo o jornalista Fernando Morais à frente da Secretaria da Educação. O início da legislatura foi marcado pelo debate e elaboração do “Programa de reforma do ensino público do estado de São Paulo”. Os principais eixos deste Programa, divulgados nos documentos institucionais, eram a autonomia pedagógica e administrativa da escola; organização da escola e capacitação do quadro funcional da Secretaria da Educação.
Na implementação do Programa ganhou destaque a criação do Projeto Escola Padrão, instituído pelo Decreto 34.035, de 22 de outubro de 1991, e que acabou se constituindo como a “marca” da política educacional no governo Fleury. Após décadas de forte expansão das matrículas no 1º e 2º graus, sem um equacionamento adequado das condições físicas e financeiras, a questão da qualidade era evocada como a principal finalidade da iniciativa, conforme enunciado no artigo 1º, inciso I do Decreto: “Artigo 1.º - Fica instituído, na rede estadual de ensino, abrangendo o ensino fundamental e médio, o Projeto Educacional ´Escola Padrão´com a finalidade de: I - recuperar o padrão de qualidade do ensino ministrado nas escolas públicas” (SÃO PAULO, 1991).
O projeto previa uma implantação gradual, com o objetivo de universalizar o modelo a toda a rede estadual até o final do mandato. Em 1992, primeiro ano de implementação, foram incorporadas 306 escolas. No ano seguinte, ingressaram mais 1.052 unidades escolares e, em 1994, outras 866, totalizando 2.224 escolas (SARMENTO; ARRUDA, 2011), o que representava 33% da rede estadual, responsável em 1994 por um total de 6.699 unidades escolares. Sendo assim, a promessa de universalização do projeto para toda a rede não foi cumprida.
Matéria do jornal Folha de S. Paulo de 19 de agosto de 1994 registrou declaração do então governador Fleury afirmando que, ao término do seu governo, estariam criadas as condições para que seu sucessor expandisse o Projeto Escola Padrão para toda a rede. O ocupante da pasta educacional na época, Carlos Estevam Martins, negou conhecimento sobre essa perspectiva, criando uma situação de mal-estar. Um ano antes, em 1993, o então secretário estadual da Educação Fernando Morais havia se demitido do cargo declarando que não haveria recursos financeiros para a prometida ampliação do Projeto na rede estadual (PINTO, 1994).
As mudanças mais significativas trazidas pelo Projeto Escola Padrão incidiam sobre a carga horária do professor, com uma parte das horas fora da sala de aula distribuídas em: dedicação ao HTP (Hora de Trabalho Pedagógico), atividades de planejamento e atendimento ao aluno.27 Também houve aumento da jornada escolar, introduzindo seis aulas no período diurno e aulas aos sábados para o período noturno.28
Nos documentos relativos ao Projeto é muito mencionada a autonomia administrativa e pedagógica da escola e, nesse sentido, ele prevê a criação de projetos especiais pelas próprias unidades, financiados com a caixa de custeio, mecanismo criado para que as APMs manejassem recursos próprios. Outras duas medidas nessa direção foram a obrigatoriedade da escola elaborar um plano diretor, baseado num diagnóstico e com metas particularizadas, pois, segundo o documento governamental, “o planejamento é um processo fundamental em uma organização autônoma” (SÃO PAULO, 1992, p. 29). Por fim, foi previsto um número de horas semanais para a coordenação, planejamento e controle das atividades por parte dos gestores, o que era calculado tomando como base 5% do tempo do total de aulas atribuídas na escola.
No primeiro ano de implementação do Projeto Escola Padrão foi criado um Programa de Avaliação29 a ser realizado em todas as unidades escolares integradas ao Projeto, na sua fase inicial. Participaram 306 unidades, com todos os alunos das 8as séries do ensino fundamental. Além disso, foram incorporadas turmas de 1º ano do 2º grau nas escolas exclusivas desta etapa e alunos de 7ª série do 1º grau nas escolas em que não havia turmas de 8ª série.
Os instrumentos da avaliação foram elaborados pela Fundação Carlos Chagas, abarcando questões de Língua Portuguesa, Matemática e conhecimentos gerais. Participaram ao todo 26.556 alunos, sendo 58% matriculados no período diurno e 42% no período noturno. Chama a atenção o enorme percentual de alunos estudando no último ano do ensino fundamental (8ª série) à noite, em 1992: 41,8%. Nas turmas de 1º ano do 2º grau este percentual é ainda maior: 49,6%. E mesmo dentre os alunos mais novos do universo pesquisado, os que estudavam na 7ª série, com idade ideal de treze anos, o percentual de matrículas à noite é alto, perfazendo 34,7%. Tendo em vista que os participantes da avaliação
27 Segundo o Decreto n. 34.036 de 22/10/1991, as jornadas podiam ser: Integral - 44 horas semanais sendo 30 em
sala de aula, 5 em atividades pedagógicas na escola e 9 horas em atividades em local de livre escolha, e jornada de 40 horas - 26 horas-aula em sala, e o restante distribuídos entre atividades na escola e fora dela, nesse caso sendo de livre escolha.
28Devido à resistência de alunos e professores, essa medida foi abandonada em 1993.
foram alunos de um grupo seleto de escolas que integraram o Projeto Escola Padrão no seu primeiro ano de existência, este perfil, em termos do período estudado, indica a importância e a centralidade do ensino noturno nas últimas séries do ensino fundamental e no ensino médio, no início da década de 1990.
Tabela 12 - Número de estudantes participantes da avaliação do Projeto Escola Padrão, 1992
Séries Diurno Noturno Total
7ª série 244 130 374
8ª série 14.656 10.542 25.198
1º ano 2º grau 496 488 984
Total 15.396 11.160 26.556
Fonte: SÃO PAULO. Secretaria de Estado da Educação. Programa de Avaliação Educacional das Escolas Padrão. Avaliação diagnóstica das 8as séries, 1992.
Tendo em vista o escopo amplo da pesquisa, envolvendo mais de 26 mil alunos, vamos destacar alguns dados que são sugestivos do perfil do alunado da rede estadual.
Em termos da distribuição dos estudantes por sexo, há predomínio de meninas no período diurno (61,5%) e dos meninos no período noturno (51,4%). O trabalho aparece como uma dimensão central na vida dos estudantes, que são inseridos precocemente nas atividades produtivas. No período noturno, 78,1% dos estudantes já haviam trabalhado, e 66,4% deles começaram a trabalhar antes dos 15 anos de idade. Possuem uma trajetória escolar acidentada, pois em cada 10 estudantes que estudavam à noite, sete haviam sido reprovados alguma vez. Já no período diurno nota-se um cenário diferente, pois a grande maioria dos alunos nunca havia trabalhado (82,5%).
A avaliação compreendeu também questionários para as escolas, com o intuito de levantar dados sobre sua estrutura e funcionamento. Das 306 escolas padrão, 95% funcionavam em três turnos. Em 85% delas havia falta de recursos humanos. Isso pode ser constatado pelo dado alarmante informado pelos diretores de que em 70% das escolas havia estudantes universitários empregados como docentes. Mais da metade dos diretores consultados (55%) afirmaram que as faltas de professores eram um problema crônico e generalizado na sua unidade. Os dados chamam a atenção, considerando que o Projeto foi direcionado às “melhores” escolas da rede estadual, obedecendo a critérios como presença de diretor efetivo, mais de 50% do corpo docente estável, ausência de curso supletivo, dois turnos diurnos e um noturno e boa qualidade de ensino (ALBUQUERQUE, 1997).
Em dissertação de mestrado de 1995, Viriato pesquisou quatro escolas padrão vinculadas à Delegacia de Ensino de Ribeirão Pires, sendo que três delas atendiam ao 1º e 2º graus e uma apenas ao 1º grau. Seu interesse era analisar a capacidade do projeto para democratizar o ensino público, tendo como centro o fortalecimento do diretor. A autora considerava que o diferencial dessa política educacional era apostar na autonomia da escola, já que as unidades teriam que construir seu plano diretor, em vez de seguirem objetivos predeterminados. Mas o balanço da autora, ao verificar as práticas das escolas que integraram o projeto por dois anos, não foi muito animador:
Os membros das escolas não têm estímulo para participar e muito menos conhecem a proposta pedagógica/administrativa da escola e, por conseguinte, a direção não possui conhecimentos sobre os reais interesses e aspirações dos membros que compõem a escola. A ausência dessa relação entre direção e membros da escola, parece-nos explicar, em parte, o fracasso de uma gestão mais participativa, proposta pelo “Projeto Educacional Escolas Padrão”. [...]
Pelos dados coletados, vimos que as ações desencadeadas na escola, tanto do ponto de vista pedagógico quanto administrativo, não convergem para o mesmo fim. Medidas como a jornada reduzida de trabalho e regime de dedicação exclusiva não se constituem em suporte para a autonomia da escola, na medida em que estes recursos não são adequadamente explorados e utilizados como meios para que se alcancem os objetivos do processo educacional (VIRIATO, 1995, p. 145-146).
Em 1994, último ano do governo Fleury, o CEE-SP criou uma Comissão Especial com o objetivo de elaborar um documento a ser entregue ao novo governo, contendo recomendações acerca das políticas educacionais. A primeira afirmação que traz o relatório diz respeito à educação básica e à necessidade de consolidar e estender as iniciativas de melhoria do ensino implementadas pelo último governo: o ciclo básico30 e a Escola Padrão.
Considerando que a melhoria qualitativa do ensino pressupõe uma melhoria efetiva das condições de trabalho dos profissionais que atuam diretamente na escola, o projeto educacional "Escola Padrão", que se propõe promover maior participação da comunidade nas escolas e descentralização dos procedimentos administrativos, é um programa de reforma do ensino que, sem dúvida, deve ser incrementado, consolidado e estendido a toda rede estadual de ensino. Trata-se de uma expectativa da rede que não deve ser desconsiderada (CEE, 1994, p. 5-6).
30 O ciclo básico foi implantado em São Paulo na gestão do governador Franco Montoro, em 1983, e consistiu na
eliminação da reprovação entre a 1ª e 2ª séries, que passaram a formar uma única etapa. Foi a primeira política de ciclos implantada no estado.
Recomenda-se, principalmente, a continuidade e ampliação de três medidas presentes no Projeto Escola Padrão e que são mencionadas como impulsionadoras da construção da autonomia da escola: o Plano Diretor, que deve ser elaborado por cada unidade, a caixa de custeio, voltada ao suprimento dos recursos necessários à execução do Plano Diretor, e a Hora de Trabalho Pedagógico (HTP), voltada ao trabalho coletivo necessário para a implementação do projeto pedagógico da escola. Assim, o relatório incorpora uma reivindicação do movimento sindical docente, que já havia sido publicizada durante a longa greve de 1993.31
No ano de 1993 a crise da educação paulista veio ao conhecimento público através de uma longa greve dos profissionais da educação, principalmente professores, greve esta que durou aproximadamente 3 meses. Durante a greve, o sindicato dos professores denunciava os mais baixos salários já pagos para a categoria no estado de São Paulo, e reivindicava a extensão do projeto de escola padrão para toda a rede estadual de ensino (NERY, 2000, p. 31-32).
Apesar da expansão da Escola Padrão ter sido indicada no relatório do CEE-SP e se constituir numa demanda da rede escolar e do movimento sindical docente, o Projeto foi interrompido na gestão posterior. Os primeiros documentos da política educacional do governo Covas são omissos quanto ao Projeto Escola Padrão, que foi sendo abandonado.
A partir de 1995, com o novo governador, Mário Covas, foi encerrando, aos poucos, o Projeto Educacional Escola Padrão, reforçando o que sempre ocorreu ao processo educativo brasileiro: um constante recomeçar, sem continuidade. Ver o trabalho coletivo tão bem desenvolvido ser abandonado gradativamente, terá sido o pior resultado que a escola obteve no novo governo que, aos poucos, foi implantado novas diretrizes (como o Comunicado da Secretaria da Educação de 22 de março de 1995), sem mencionar a Escola Padrão, como se ela nunca tivesse existido (SARMENTO, ARRUDA, 2011, p. 3).
31 É preciso mencionar que, por ocasião da divulgação do Projeto Escola Padrão pelo governo Fleury, a Apeoesp
posicionou-se de forma crítica. No histórico da entidade publicado em seu sítio eletrônico lê-se: “1991 - Ano de lançamento da Escola-Padrão. Com o slogan ´Pouca Modernização para Poucos´, a APEOESP iniciou a
discussão do projeto de Escola-Padrão, apresentando suas contraposições ao projeto”. Disponível em: