6 NOVOS ARES
6.2 Projeto de Lei Complementar nº 37, de 13 de maio de 1999 ― transferência para o Poder Judiciário para a
o Poder Judiciário para a aplicação do regime
Outra mudança significativa sobre o tema é o Projeto de Lei nº 37 de 1999327, de autoria do Deputado Geddel Vieira Lima, que possui como objeto a regulamentação do Sistema Financeiro Nacional. Em sua exposição de motivos, o projeto propõe o seguinte:
(...) que os processos de liquidação extrajudicial sejam transferidos do Banco Central do Brasil para o Poder Judiciário, pondo fim ao sistema de extrajudicial de liquidação de empresas com vista a eliminar os enormes percalços e dificuldades até aqui verificados na condução e solução desses processos.328
Essa tendência de transferência da aplicação do regime para o Judiciário é apontada por alguns autores como uma consequência da fragilidade dos argumentos que sustentavam o regime de liquidação, tais como o da celeridade do regime, mobilidade e especialização, “entendia-se que, realizados fora do âmbito judicial, os atos liquidatários seriam mais ágeis (...)”329, fato que não se mostrou na prática durante todos os quarenta e dois anos de vigência da lei, em que foi possível observar diversos litígios judiciais envolvendo o instituto, o tornando um processo lento e duradouro.
No mesmo sentido, o relatório final da subcomissão temporária da liquidação de instituições financeiras (CAELIF), de autoria do Senador Aelton Freitas, que teve como objetivo acompanhar e analisar a liquidação extrajudicial de instituições financeiras pelo Banco Central do Brasil, sugere que a administração do regime de liquidação extrajudicial
327 Atualmente o projeto de lei está apensado ao PLP nº 47/1991 que pretende regulamentar o disposto no artigo
192 da Constituição Federal, revogando a Lei nº 4.595, de 1964.
328 BRASIL. Projeto de Lei Complementar nº 37, 13 de maio de 1999. Disponível em:
http://www.camara.gov.br. Último acesso em 04.10.16.
seja realizada pelo Poder Judiciário por meio do rito sumário, cabendo somente ao BACEN a decretação do regime de intervenção e, caso necessário em um segundo momento após a análise das circunstâncias do caso concreto, decretar a liquidação extrajudicial e requisitar a falência.330
Recentemente, foi divulgado em notícias jornalísticas que o Banco Central chegou a um consenso com outras áreas do governo sobre um novo marco regulatório que altera o processo de resolução do sistema financeiro. Segundo as notícias, o Planácio do Planalto deve
encaminhar em breve o texto ao Congresso.331 Ainda de acordo com as notícias, o novo marco
permite, em último recurso, a aplicação de recursos do Tesouro Nacional em instituições insolventes ― algo até então vedado pela Lei de Responsabilidade Fiscal, e a criação de um conselho de credores para avaliar as propostas do liquidante, a fim de reduzir questionamentos jurídicos posteriores.
Como indica a matéria jornalística, o novo marco regulatório começou a ser discutido em 2013, fato que ganha força com a realização pelo Banco Central do Seminário Internacional sobre Regimes de Resolução no Sistema Financeiro Brasileiro, realizado nos dias 06 e 07 de maio de 2013 no Edifício Sede do Banco Central em Brasília. Neste sentido, como demonstra a apresentação realizada pelo atual diretor de Administração do Banco
Central, Sr. Maurício Costa de Moura332, a necessidade de um novo marco legal apresenta-se
pela dificuldade para a resolução de bancos de importância sistêmica com base na lei 6.024/74, a necessidade de conferir maior celeridade, a garantia de eficiência aos regimes especiais e a demanda do setor para uma legislação mais moderna.
A apresentação também estipulou algumas diretrizes para o novo marco, dentre elas a: i) preservação do interesse público (manifestado através de uma estabilidade financeira); ii) continuidade dos serviços financeiros críticos; iii) uso de recursos públicos somente após esgotadas outras fontes; iv) celeridade na decretação e condução dos regimes; v) zelo no uso dos recursos e; vi) colaboração com outras jurisdições. Interessante destacar que, segundo a apresentação, o novo marco regulatório irá extinguir o regime especial de intervenção, cabendo ao Banco Central a definição do melhor regime para o caso concreto, entre o Regime Especial de Administração e a Liquidação Extrajudicial, ganhando destaque o Regime Especial de Administração por pemitir a manutenção das atividades normais da instituição,
330Disponível em http://legis.senado.gov.br/comissoes/comissao?5&codcol=38. Último acesso em 01.08.17. 331 http://www.valor.com.br/financas/5149228/bc-fecha-projeto-de-lei-sobre-resolucao-bancaria. Último acesso
em 17.10.17.
332 Disponível em http://www.bcb.gov.br/secre/apres/Mauricio_Costa_de_Moura-Apresentacao_
além de possuir um eficiente conjunto de ferramentas, como, por exemplo, a suspensão temporária das exigibilidades, vedação ao vencimento antecipado de dívidas e absorção de prejuízos e recapitalização compulsórias (bail-in) ― sendo possível o uso de recursos públicos somente após o bail-in. Sobre este ponto, é ncessário esclarecer que, como sustenta o Banco Central, a possibilidade de utilização de recursos públicos é remota, ou seja, somente em último caso e sempre após o bail-in, devendo ainda ser aplicada somente a instituições sistemicamente importantes, após a autorização prévia do Conselho Monetário Nacional.
Sobre as liquidações, foi exposto que o marco regulatório irá conter regras específicas para consórcios e fundos de investimento, mecanismos para a realização imediata dos ativos e pagamento mais célere aos credores, além do já mencionado conselho de credores que, segundo apresentado, configura-se como uma instância de apoio ao liquidante, compartilhando as decisões deste com os credores, conferindo maior celeridade na condução do regime, pois garantiria uma redução da litigiosidade entre credores e o liquidante.
Ainda de acordo com o Seminário, não devem mudar as regras sobre a reorganização da instituição que permanecerá, mediante autorização do Banco Central, a indicação do administrador ou liquidante pelo Banco Central e os efeitos da medida com a aplicação do regime especial, como o afastamento dos administradores, indisponibilidade de bens, inquérito administrativo, os papéis do Ministério Público e o Poder Judiciário, além da possibilidade de extensão do regime especial para outras entidades (financeiras ou não), que possuam integração de atividade ou vínculo de interesse, a fim de preservar os interesses da poupança popular e a integridade do acervo da entidade.
Por fim, vale observar que as alterações propostas pelo novo marco legal são frutos das recomendações internacionais do Financial Stability Board (FSB) para regimes de resolução eficientes, com foco nas entidades que possam acarretar problemas sistêmicos. Trata-se, portanto, do Key Attributes of Effective Resolution Regimes (Key Attributes), que constituem a base para as reformas dos arcabouços legais de resolução, publicados pelo Financial Stability Board (FSB), do G20, em novembro de 2011.333