• Nenhum resultado encontrado

Como primeira publicação do Instituto Ciência Hoje (ICH) e marco inicial do projeto Ciência Hoje, a revista Ciência Hoje (CH) obteve sucesso imediato em seu lançamento – a tiragem inicial, em 1982, de 15 mil exemplares rapidamente se esgotou. Trata-se de uma iniciativa do ICH em parceria com a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em ano político que é marcado pela realização das primeiras eleições para governadores dos estados, pós-64.

O projeto Ciência Hoje (que a CH integra) surge das reuniões do SBPC na década de 1980. Os participantes, especialistas de diversas áreas, tinham como interesse a popularização da ciência.

O momento era também de desestruturação das instituições, daí a necessidade da criação de canais permanentes e mais ágeis de comunicação com a sociedade. É também no início da década de 80 que o domínio da comunicação de massa se agiganta e se torna onipresente no país, transformando-se em fator determinante para a manutenção das estruturas básicas da sociedade nacional. (...) Nesse contexto, os mecanismos internos de comunicação da comunidade científica, especificamente os da SBPC, parecem se tornar insuficientes para dar vazão às necessidades de divulgação do conhecimento científico, de reafirmar a importância do apoio governamental para as pesquisas de C&T, bem como de fortalecer ainda mais a própria SBPC. Abertura, democratização, massificação, comunicação, consumo são as palavras-ícones naquele início dos anos 80. (DEL VECCHIO DE LIMA, 1992, p.67)

Desse cenário, surge o projeto, elaborado pela secretaria regional da SBPC do Rio de Janeiro, que vai criar uma nova revista para a entidade, Ciência Hoje (CH), destinada a atrair o público universitário e do ensino médio em geral. Também surge o programa de rádio Ciência às Seis e Meia (citado anteriormente).

A revista Ciência Hoje é o primeiro periódico brasileiro a dedicar-se exclusivamente à publicação de conteúdos de Ciência e Tecnologia. Os pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Lent e Alberto Passos, foram os mentores intelectuais da revista. O documento inicial Ciência Hoje – uma revista de difusão científica apresenta as características e

diretrizes que nortearam todas as futuras publicações da revista. Destaca-se a busca por um veículo de qualidade, produzido por pesquisadores e que divulgue pesquisas científicas realizadas no Brasil. Têm-se como objetivos a promoção de debate político em torno de temas da área, assim como a democratização do conhecimento. (Del Vecchio de Lima, 1992)

A revista foi o pontapé inicial para o surgimento de outros projetos do Instituto, como o boletim sobre pesquisa científica Informe (1985), que mais tarde evolui para o Jornal de Ciência Hoje (1990); a revista Ciência Hoje das Crianças (1986); os portais Ciência Hoje Online (1996) e Ciência Hoje das Crianças Online (1996) e a série de livros Ciência Hoje na Escola (1996).

A partir desse conjunto de mídias de comunicação científica, são os veículos de comunicação da SBPC que pautam a ciência, tornando-a disponível em bancas de jornais e revistas de todo o país, por meio de assinaturas ou pelo acesso online.

A revista original Ciência Hoje possui uma diretriz editorial que se diferencia bastante de outras revistas do gênero que divulgam conteúdos sobre ciência. Em CH, cientistas e pesquisadores são os autores das matérias publicadas, com acompanhamento e edição realizada por jornalistas. A revista Ciência Hoje das Crianças também segue essa diretriz. Nota-se que a redação de ambas as revistas é palco de interações entre dois campos bastante discutidos nos capítulos anteriores: o campo comunicacional (e/ou jornalístico) e o campo científico. Para Candotti (2004), a implementação desse modelo foi positiva. “Tivemos sorte de encontrar logo bons editores de texto e a fórmula “cientistas escrevendo e editor reajustando os textos” foi muito bem sucedida”. (CANDOTTI, 2004, on-line) Para o autor, o objetivo da proposta era fazer os cientistas brasileiros escreverem sobre suas pesquisas e sobre temas científicos para a revista. Candotti (2004) aponta que, desde o início da CH, aproximadamente 2.500 cientistas já produziram artigos para a revista. (CELINSKI; DEL VECCHIO DE LIMA, 2013, p. 7)

O desafio era fazer com que gente da área acadêmica escrevesse para o grande público. Os textos deveriam ser assinados por cientistas para que eles pudessem se responsabilizar por aquilo que dissessem. E essas informações deveriam servir para enriquecer a bagagem de informações de um estudante, de especialistas de áreas próximas e de outras áreas e de jornalistas. (CANDOTTI, 2004, on-line)

Candotti (2004), que foi presidente da SBPC por duas gestões, ressalta que existe espaço tanto para textos escritos por jornalistas/comunicadores, como para artigos produzidos por cientistas. Cada autor valoriza as informações a partir da perspectiva de seu campo profissional. Por exemplo, nos textos produzidos por cientistas, nota-se uma preocupação em apresentar pormenores do processo de pesquisa, como o percurso metodológico utilizado, os objetivos a serem alcançados e as incertezas dos resultados a serem obtidos. (CELINSKI; DEL VECCHIO DE LIMA, 2013, p. 7)

Atualmente esse modelo de produção persiste: há matérias escritas tanto por jornalistas, como por cientistas nas revistas CH e CHC. Para Lent (2009), existem pontos positivos e negativos nessa proposta. Um exemplo de desvantagem seria o hermetismo dos artigos escritos por pesquisadores. (CELINSKI; DEL VECCHIO DE LIMA, 2013, p. 7) “O pesquisador acha que o conceito de vento solar, por exemplo, é algo conhecido por qualquer leigo e não se permite decodificar adequadamente os termos científicos”. (LENT, 2009, on-line) Logo, nota-se a importância do comunicador no processo, pois assume o papel do “anjo mensageiro”, proposto por Serres, como “aquele que leva a mensagem”. Nesse caso, o jornalista age como um tradutor da linguagem complicada do campo científico.

E no processo da tradução na revista Ciência Hoje das Crianças, na qual o público-leitor é segmentado e possui características específicas? Como acontece o processo de “tradução” da linguagem científica? De acordo com as autoras, o papel do comunicador é intensificado. “Não se trata apenas de repassar conteúdos de um campo específico – o científico – ao público leigo. A transmissão de informações técnicas de forma simples, que se aproxime do cotidiano, precisa ser retrabalhada”.

(CELINSKI; DEL VECCHIO DE LIMA, 2013, p. 7) Nesse contexto, o jornalista precisa “traduzir” novamente os conteúdos para uma nova linguagem, que se aproxime do cotidiano das crianças.

Luppi (20˗˗˗), no texto “O gênero divulgação científica para crianças:

alternativas para o ensino”, após ter analisado textos da revista Ciência Hoje das Crianças constatou que o gênero textual divulgação científica para crianças mantém similaridades com o gênero divulgação científica, “por também se constituir como um interdiscurso efetivado a partir dos textos jornalístico e científico, incorporando suas características de objetividade e, ao mesmo tempo, de subjetividade”. (LUPPI,

[20˗˗˗], p. 4) Entretanto, a divulgação científica infantil constitui-se como gênero discursivo com especificidades próprias:

Dentre elas, podemos constatar uma preocupação muito maior com os elementos didatizantes e a ausência do depoimento de autoridade, não sendo este, aparentemente, considerado relevante para o convencimento do leitor. Além disso, percebe-se que o texto é informal, leve, estabelecendo uma interlocução muito mais próxima com o leitor. Porém, tal como no gênero de divulgação científica destinado a adultos, a coexistência da objetividade e da subjetividade torna o texto para crianças essencialmente argumentativo. (LUPPI, [20˗˗˗], p.4)

Como é um veículo de comunicação destinado a um público segmentado, a revista CHC apresenta características específicas, que serão exploradas a seguir.