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Projetos de EHIS voltados para o usuário: valor e sustentabilidade

2.2 Habitação de Interesse Social

2.2.3 Projetos de EHIS voltados para o usuário: valor e sustentabilidade

O conceito de valor já vem sendo discutido por muito tempo. Há 2300 anos atrás, Platão e depois Aristóteles já debatiam sobre o significado do valor real. Para Aristóteles, o valor real está intrínseco ao fim natural ao qual serve o item

3 Tradução literal 4 Tradução livre

(HANEMANN, 2006 apud TILLMANN et al., 2013). Esse valor real advém da sua utilidade e da habilidade em satisfazer o homem, de acordo com as regras da razão.

O valor do produto está geralmente associado à qualidade dele. Para Van der Voordt e Van Wegen (2013), qualidade significa até que ponto um produto atende às exigências que lhe são feitas.

Van der Voordt e Van Wegen (2013) colocam que na Arquitetura/ Construção Civil, a qualidade pode ser distinguida em qualidade funcional e qualidade arquitetônica. A qualidade funcional de uma edificação é a sua capacidade de exercer as funções previstas para ela, ou seja, até que ponto a edificação e os meios de construção aplicados permitem o nível adequado de apoio à função de utilidade ou às atividades previstas. Contudo, a funcionalidade está relacionada também na capacidade que a edificação possui em sustentar outras qualidades: climáticas, culturais e econômicas. Em resumo, a qualidade funcional se refere primariamente à eficiência, à usabilidade prática ou ao valor de utilidade da edificação, levando em conta os meios financeiros disponíveis. Exige também boa acessibilidade, espaços suficientes, disposição eficiente e compreensível, suficientemente flexível e condições físicas e espaciais que garantam um ambiente seguro, salubre e agradável.

A qualidade arquitetônica de uma edificação não é determinada pelo profissionalismo com que foi construída, mas pelo papel que desempenha na discussão da arquitetura. A edificação só se torna arquitetura quando discutida, isto é, quando exerce um papel na discussão cultural. Neste sentido, a qualidade arquitetônica em resumo depende do atendimento a uma série de fatores: necessidades dos usuários, eficiência no uso de materiais e técnicas disponíveis, relação com o contexto urbano, estética empolgante e atraente, relevância histórica, expressão, estilos variados e mutáveis etc. (VAN DER VOORDT; VAN WEGEN, 2013).

O Ministério da Cultura e o Ministério de Habitação, Planejamento Espacial e Meio Ambiente da Holanda usam no artigo intitulado "Espaço para a arquitetura" as expressões valor cultural, valor de utilidade e valor futuro para definir a qualidade arquitetônica. Sendo que o valor de utilidade se refere a até que ponto a edificação ou o espaço atendem aos usos potenciais desejados. O valor cultural refere-se a critérios como originalidade, expressividade, relação com o ambiente, valor histórico-cultural, qualidade de projeto e qualidade vivencial. Já o valor futuro diz respeito à sustentabilidade da edificação do seu entorno e também a questões como a adequação a

outros propósitos (flexibilidade) e valor no decorrer do tempo (valor como história cultural) (VAN DER VOORDT; VAN WEGEN, 2013).

Na construção civil, a geração de valor ainda é um conceito insuficientemente disseminado e entendido. Essa geração ocorre no desenvolvimento das relações cliente- fornecedor quando valor é gerado pelo fornecedor ao atender os requisitos do cliente (KOSKELA, 2000).

Nas fases iniciais do processo da construção, durante a fase de pré-projeto, o levantamento de dados para a elaboração do programa de necessidade consiste também na busca pela descrição das necessidades as quais o projeto deve responder, correspondendo na identificação dos valores do usuário em relação ao espaço construído. Os valores são as qualidades mais importantes em um edifício, segundo a percepção de seu ocupante (MOREIRA; KOWALTOWSKI, 2009).

O usuário do edifício é o elemento ativo do contexto e é nele que as atenções devem estar concentradas para que sejam estabelecidas as necessidades que a forma projetada deverá cumprir. As necessidades funcionais são expressas através dos requisitos de conforto ambiental, nos seus aspectos térmicos, acústicos, visuais e de funcionalidade, uma vez que constitui um dos elementos da arquitetura que mais influencia o bem-estar do homem (KOWALTOWSKI et al., 2006).

A Construção Enxuta, segundo Koskela et al. (2010), destaca fluxo e geração de valor como peças fundamentais para uma mudança de paradigma. Na abordagem de geração de valor destacam-se os métodos genéricos desenvolvidos na concepção do produto, de modo a alcançar metas desafiadoras, podendo também serem usados para alcançar metas sustentáveis (LAPINSKI et al., 2006).

Historicamente, tanto a Construção Enxuta quanto a sustentabilidade implicam em mudanças abruptas a uma situação que tem prevalecido por um ou mais séculos (KOSKELA et al., 2010).

Inserir a sustentabilidade na construção civil implica na adoção de requisitos vindos de fora da função imediata do ambiente e do contexto do edifício. Esses requisitos geralmente não são tangíveis, mas abstratos; a percepção dos mesmos não é diretamente observada, mas pode ser avaliada através de medidas e cálculos. A abrangência de tais requisitos é nova e existe pouco entendimento inicial dos meios para torná-los reais (KOSKELA et al., 2010).

Segundo Koskela et al. (2010), os impactos da Construção Enxuta como promotora da sustentabilidade consistem em: alcançar maior eficiência em recursos através da redução de perdas; direcionar a redução de emissões prejudiciais através de maior confiança operacional e do produto; facilitar o cumprimento de metas sustentáveis através da ênfase na geração de valor. Em outro sentido, a sustentabilidade reforça os esforços da Construção Enxuta através do alinhamento parcial existente entre seus métodos e propósitos.

Tendo isso em vista, e entendendo que a sustentabilidade pode ser traduzida em metas para que seja inserida nos projetos e nas construções, cabe aos planejadores incluírem essas metas sustentáveis nos programas de necessidade dos EHIS, assim como as metas e expectativas dos usuários e clientes. Para tanto, o programa de necessidades deve constar essas metas como diretrizes a serem seguidas pelos projetos.