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DANDO VIDA E VOZ A PINÓQUIO Dialogando com os jovens suas concepções sobre a família

5.3. Analisando o discurso

5.3.4. Projetos de família

Essa questão foi explorada nas entrevistas individuais, tentando investigar como os jovens se percebem constituindo uma família no futuro. Tendo em vista que eles reconhecem que uma das funções da família na sociedade é a reprodução de novas famílias, os participantes puderam discutir os seus sonhos, projetos de família que planejam para o futuro.

Existe uma diferença acentuada no conceito de família projetada entre os jovens do sexo masculino e feminino. Os rapazes tendem a ver-se tendo uma família tradicional, nuclear, baseada no casamento, com filhos. A mulher pode trabalhar por decisão dela, mas eles vêem-na como cuidando da casa e dos filhos. É interessante notar que os jovens esperam ter uma família com uma configuração bastante parecida com a que têm hoje.

Eu gosto de criança, quero logo um monte de filhos. (...) Acho difícil, mas vamos tentar ser uma família perfeita, unida, criar os meus filhos, tá ensinando, tá se dando bem com a minha esposa, meus filhos... (...) Eu espero me casar com uma pessoa que eu goste mesmo, bastante mesmo, que é pra ser pro resto da vida. Então, eu tenho que tá pra ela, tem que tá bem com ela, procurar não brigar muito, essas coisas. Eu espero ela tá em

casa, assim, cuidando da casa, mas trabalhar se ela puder trabalhar, tiver como ela cuidar dos filhos e trabalhar ao mesmo tempo, pra mim tá tudo bem. Não tenho preconceito com isso não. (Périsson: E você?) Trabalhar e cuidar dos filhos também, não viver só de trabalho, viver com a família também. (Leonardo, entrevista individual). Uma mulher, um casal, e mais nada, né? Que é bom já dois filhos, dá tudo o que eles precisa, né, e passar corpo a corpo. Aí, é bom, família que eu quero ter é essa, poder dar tudo pra meus filhos. (...) Eu trabalhando, minha mulher trabalhando. (Périsson: E os

meninos, com os dois trabalhando?) Fica na creche, quando vier no trabalho, né? Posso

trabalhar a noite, ficar com o menino, ou o dia todinho, termino mais cedo, depois, vou trabalhar. Duro é trabalhar a noite. (Périsson Dantas: Que nem sua casa?) Hum, hum, que nem minha casa. (Hudson, entrevista individual).

Penso o seguinte, morar junto, tem de duas formas, tem gente que fala em casar direitinho e tal, mas aí, talvez pra morar junto, você tem assim um tempinho pra decidir se realmente vai dar certo. (Périsson: Aí, no caso, você se vê trabalhando? E a

mulher?) Aí, vai depender dela, da capacidade dela, do estudo dela, da vontade dela.

Porque, hoje em dia, não quer, assim, como o mundo tá mudando, as mulheres, hoje em dia, não querem tá dependendo do homem. Muitas pessoas que trabalho tem a sua renda própria. Então, no caso, depende dela. Se ela quiser trabalhar, não vou fazer questão. (Luís, entrevista individual).

São as participantes que propõem novas formas familiares. Chama a atenção como elas não se referem ao casamento como projeto para o futuro. Vale ressaltar, como abordamos anteriormente, que todas possuem mães que já passaram por processo de separação e recasamentos. Elas ressaltam a importância de conquistar espaços e realizações de ordem pessoal e profissional, vendo-se independentes financeiramente, trabalhando. As jovens cedem mais aos apelos contemporâneos do individualismo do que os rapazes, fruto de todo um contexto histórico de redimensionamento dos papéis e funções de gênero. Elas pouco se referem às expectativas de cuidar de casa, marido e filhos, tão comuns às mulheres; pelo contrário, parecem querer libertar-se dessa condição imposta.

Quero morar sozinha, quero ter a minha liberdade. (...) Eu penso assim: como eu tenho pessoas que já provaram que são realmente meus amigos, de repente podem morar comigo. (Périsson: Você sente vontade de casar?) Não. (Périsson: E ter filho?) Filho? Filho, eu ainda penso, quer dizer, casar... Eu não digo que eu não pense em casar, eu penso assim terminar meus estudos, arrumar um emprego e se eu conhecer alguém assim que dê certo, eu ainda posso me juntar com essa pessoa, mas no momento casar não tá nos meus sonhos não. (Carol, entrevista individual).

Me imagino com um homem bom, que não perturbem você. Eu me imagino trabalhando, meu esposo também, né? (Périsson: E como vai ser: você trabalhar e

cuidar de casa?) Sei lá, vai ter que dar... (Risos) Mas queria ter experiência assim e

tempo mas não me vejo só assim em casa, só cuidando de menino. (Périsson: E o seu

marido?) Ah, espero que ele seja bom, espero que seja atencioso, se for esse que eu tô

agora, acho que ele vai ser. (Tarciana, entrevista individual).

Eu tenho vontade de ter uma família , mas agora não. Claro, como eu falei, né, eu tenho uma vontade de ser mãe que é uma vontade muito grande assim que eu tenho. (...) Que eu acho muito bonito, mas eu não sei se eu teria capacidade agora, porque eu sou muito nova, tenho muito o que fazer, me formar, curtir um pouco. (Périsson: Como você

imagina que vai ser a sua família?) Eu quero que eu trabalhe, que meu marido trabalhe

também, chega a noite, pronto, ou à tarde, uma coisa assim, sabe? Eu já saí de casa, pra não ficar dependendo da família, da vó, da mãe? Aí, eu vou pra me casar pra depender do marido? Eu quero ter minha vida, meu dinheiro sim. (Tâmara, entrevista individual).

Uma impressão clara nas falas dos sujeitos reafirma a dificuldade deles de se imaginarem constituindo uma família, assumindo as responsabilidades e transformações que esta acarreta. Esses jovens revelam o desejo de aproveitar a vida, ter liberdade de experimentar e lutar por suas realizações individuais. Tornarem-se pais e mães é uma condição vista com medo e insegurança, é mais cômodo desfrutar das facilidades do papel de filho, ainda que tenha o preço dos conflitos decorrentes do controle dos pais.

Tendo em vista que traçamos um perfil expositivo e analítico dos discursos produzidos pelos participantes de nossa pesquisa, abordaremos algumas considerações finais que apontam para novas questões de pesquisa e direcionamentos de intervenção social.