A ausência de legislação especifica acerca do tema sobredito no Brasil, traz lacuna afetando a segurança jurídica, deixando as referentes regras à mercê das sociedades empresarias já constituídas.
Assim projetos de leis foram criados para transformar essa realidade, visando atribuir aos herdeiros plenos poderes acerca da transmissão dos ativos digitais. São dois projetos de lei que tramitam no Congresso.
O projeto de Lei 4.099 – A de 2012, de autoria do senador Jorginho Mello foi formulado visando a alteração do artigo 1788 do Código Civil Brasileiro, acrescentando um parágrafo único neste mesmo dispositivo, conforme exposto:
O Congresso Nacional decreta:
Art. 1.º. Esta lei altera o art. 1.788 da Lei n.º 10.406, de 10 de janeiro de 2002, que “institui o Código Civil”, a fim de dispor sobre a sucessão dos bens e contas digitais do autor da herança.
Art. 2.º. O art. 1.788 da Lei n.º 10.406, de 10 de janeiro de 2002, passa a vigorar acrescido do seguinte parágrafo único:
“Art. 1.788 . ...
Parágrafo único. Serão transmitidos aos herdeiros todos os conteúdos de contas ou arquivos digitais de titularidade do autor da herança. (NR)
Art. 3.º. Esta lei entra em vigor na data de sua publicação. O referido projeto guarnece de uma respeitável justificação, vejamos:
JUSTIFICAÇÃO: O Direito Civil precisa ajustar-se às novas realidades
geradas pela tecnologia digital, que agora já é presente em grande parte dos lares. Têm sido levadas aos Tribunais situações em que as famílias de pessoas falecidas desejam obter acesso a arquivos ou contas armazenadas em serviços de internet e as soluções tem sido muito díspares, gerando tratamento diferenciado e muitas vezes injustos em situações assemelhadas. É preciso que a lei civil trate do tema, como medida de prevenção e pacificação de conflitos sociais. O melhor é fazer com que o direito sucessório atinja essas situações, regularizando e uniformizando o tratamento, deixando claro que os herdeiros receberão na herança o acesso e total controle dessas contas e arquivos digitais. Cremos que a medida aperfeiçoa e atualiza a legislação civil, razão pela qual conclamamos os Nobres Pares a aprovarem esta proposição.
Apensado ao projeto de lei anteriormente mencionado, existe vigente em tramitação no Congresso Nacional, o projeto de Lei 4.847/2012 de autoria do deputado Marçal Filho, qual seja 4.099 – A/2012, sobre o tema de nosso estudo. Tal
projeto pretende acrescentar o capítulo 11–A e artigos 1797–A a 1797–C a Lei 10.406, o Código Civil Brasileiro, abaixo transcrito:
O Congresso Nacional decreta:
Art. 1º - Esta Lei estabelece normas a respeito da herança digital.
Art. 2º Fica acrescido o Capítulo II-A e os arts. 1.797-A a 1.797-C à Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002, com a seguinte redação: Capítulo II-A Da Herança Digital
“Art. 1.797-A. A herança digital defere-se como o conteúdo intangível do falecido, tudo o que é possível guardar ou acumular em espaço virtual, nas condições seguintes:
I – senhas; II – redes sociais; III – contas da Internet;
IV – qualquer bem e serviço virtual e digital de titularidade do falecido. Art. 1.797-B. Se o falecido, tendo capacidade para testar, não o tiver feito, a herança será transmitida aos herdeiros legítimos.
Art. 1.797-C. Cabe ao herdeiro:
I - definir o destino das contas do falecido;
a) - transformá-las em memorial, deixando o acesso restrito a amigos confirmados e mantendo apenas o conteúdo principal ou;
b) - apagar todos os dados do usuário ou; c) - remover a conta do antigo usuário.”
Art. 3°- Esta lei entrará em vigor na data da sua publicação.
Não diferente, o projeto de lei traz a justificava e a importância da sua aprovação, segue abaixo:
JUSTIFICAÇÃO: “Tudo que é possível guardar em um espaço virtual – como músicas e fotos, passa a fazer parte do patrimônio das pessoas e, consequentemente, da chamada “Herança Digital”.
O caderno TEC da folha de S. Paulo trouxe uma reportagem sobre herança digital a partir de dados de uma pesquisa recente do Centro para Tecnologias Criativas e Sociais, do Goldsmiths College (Universidade de Londres). O estudo mostra que 30% dos britânicos consideram suas posses on-line sua “Herança Digital” e 5% deles já estão incluindo em testamentos quem herdará seu legado virtual, ou seja, vídeos, livros, músicas, fotos e e- mails.
No Brasil, esse conceito de herança digital ainda é pouco difundido. Mas é preciso uma legislação apropriada para que as pessoas ao morrerem possam ter seus direitos resguardados a começar pela simples decisão de a quem deixar a senha de suas contas virtuais e também o seu legado digital. Quando não há nada determinado em testamento, o Código Civil prioriza familiares da pessoa que morreu para definir herdeiros. Dessa forma, o presente Projeto de Lei pretende assegurar o direito dos familiares em gerir o legado digital daqueles que já se foram.
Ante o exposto, esperamos contar com o apoio de nossos ilustres pares para a aprovação deste projeto de lei”.
O mais recente projeto de Lei nº 8.562 de 2017 de autoria do deputado federal Elizeu Dionísio, propõe a inserção de três artigos do código civil vigente, copiando o texto do projeto de lei anteriormente mencionado, se preocupando em inserir o conceito de herança digital no ordenamento jurídico e apresentando um rol
33
exemplificativo dos bens que podem compor o acervo, oferecendo três opções para o eventual herdeiro do material. Senão vejamos;
“O Congresso Nacional decreta:
Art. 1º - Esta Lei estabelece normas a respeito da herança digital.
Art. 2º Fica acrescido o Capítulo II-A e os arts. 1.797-A a 1.797-C à Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002, com a seguinte redação:
Capítulo II-A Da Herança Digital “Art. 1.797-A. A herança digital defere-se como o conteúdo intangível do falecido, tudo o que é possível guardar ou acumular em espaço virtual, nas condições seguintes:
I – senhas; II – redes sociais; III – contas da Internet;
IV – qualquer bem e serviço virtual e digital de titularidade do falecido. Art. 1.797-B. Se o falecido, tendo capacidade para testar, não o tiver feito, a herança será transmitida aos herdeiros legítimos.
Art. 1.797-C. Cabe ao herdeiro:
I - definir o destino das contas do falecido;
a) - transformá-las em memorial, deixando o acesso restrito a amigos confirmados e mantendo apenas o conteúdo principal ou;
b) - apagar todos os dados do usuário ou; c) - remover a conta do antigo usuário.”
Art. 3°- Esta lei entrará em vigor na data da sua publicação.”
No mais, tem ainda o projeto de Lei n.º 7.742, de 2017 de autoria do deputado Alfredo Nascimento, que acrescentaria o art. 10-A da Lei nº 12.965/2006, de 23 de abril de 2014 (Marco Civil da Internet), a fim de dispor sobre a destinação das contas de aplicações de internet após a morte de seu titular, vejamos:
O CONGRESSO NACIONAL decreta:
Art. 1º A Lei nº 12.965, de 23 de abril de 2014, passa a vigorar acrescida do seguinte art. 10-A:
Art. 10-A. Os provedores de aplicações de internet devem excluir as respectivas contas de usuários brasileiros mortos imediatamente após a comprovação do óbito.
§ 1º A exclusão dependerá de requerimento aos provedores de aplicações de internet, em formulário próprio, do cônjuge, companheiro ou parente, maior de idade, obedecida a linha sucessória, reta ou colateral, até o segundo grau inclusive.
§ 2º Mesmo após a exclusão das contas, devem os provedores de aplicações de internet manter armazenados os dados e registros dessas contas pelo prazo de 1 (um) ano, a partir da data do óbito, ressalvado requerimento cautelar da autoridade policial ou do Ministério Público de prorrogação, por igual período, da guarda de tais dados e registros.
§ 3º As contas em aplicações de internet poderão ser mantidas mesmo após a comprovação do óbito do seu titular, sempre que essa opção for possibilitada pelo respectivo provedor e caso o cônjuge, companheiro ou parente do morto indicados no caput deste artigo formule requerimento nesse sentido, no prazo de um ano a partir do óbito, devendo ser bloqueado o seu gerenciamento por qualquer pessoa, exceto se o usuário morto tiver deixado autorização expressa indicando quem deva gerenciá-la.
Art. 2º Esta Lei entra em vigor na da data de sua publicação.
Os três primeiros projetos de lei referem-se na inclusão de ativos digitais no patrimônio do espólio do de cujus, possibilitando a sucessão aos herdeiros,
mediante provocação e instrumento legal e se preocuparam em buscar esse direito ao judiciário. Já o ultimo projeto de lei apresentado, que alteraria a Lei do Marco Civil da Internet, se preocupou na exclusão da conta usado pelo antigo usuário, mas sendo tal ato de exclusão a depender de requerimento dos sucessores, trazendo ainda a possibilidade de se manter a conta, se foi essa a opção desejada anteriormente pelo falecido deixado como autorização expressa indicando quem deve gerenciá-la. A continuidade podendo ser justificada, por exemplo, no valor econômico que carregava aquela conta, ou um trabalho interminado com possível renda valorativa.
A finalidade desses projetos de lei consiste na necessidade de inclusão no espólio do falecido como qualquer outro bem a partilhar, estes ativos digitais, de forma em que as sociedades empresárias, tenham obrigatoriedade em seu termo de uso, o possível acesso pelos herdeiros legais à conta do de cujus, para os fins destinados. A importância de integrar o direito da família a esse acesso, é de se dizer que os bens digitais não sejam propriedade da sociedade empresarial, mas sim do cidadão. A preocupação então surge na demora de que estes projetos sejam sancionados, para que o direito a herança digital mereça segurança jurídica como mecanismo integrativo do direito. E se faz mister, que caso os projetos de lei venham a serem aprovados, ocorra uma melhor regulamentação pelo legislador, pois o conteúdo das contas é de direito dos herdeiros.
35
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A internet foi um marco na história da humanidade haja vista as inúmeras mudanças provocadas. Com a inserção de novas tecnologias e com uma sociedade ultraconectada, é visível que cada vez mais as pessoas vêm armazenando uma infinidade de bens em meio digital, assim, o Direito deve estar sempre atento para que se adapte as essa mudanças.
Em um passado recente, era comum a existência em meio físico de fotografias, músicas (CD´s), vídeos (vídeo cassete, DVD’s), escritos (livros, revistas) entre outros, que facilmente eram transmitidos aos sucessores de um falecido, compondo esses bens na partilha. Porém grande parte desses bens, hoje, são armazenados em esfera virtual, seja em redes sócias, privado por login e senha, em computadores ou em um dispositivo de armazenagem como um HD externo, tornado-se uma lacuna em matéria de transmissão desses bens em um evento pós mortem.
O problema principal analisado é quanto a validade jurídica dessa nova forma de transmissão hereditária de bens, procurando estabelecer de que modo a atual legislação civil brasileira pode tutelá-la ou se é necessário incluir dispositivos legais específicos, como os projetos de leis existentes sobre a temática no Código Civil pátrio.
Na primeira hipótese a herança digital seguirá a ordem de vocação legítima prevista no artigo 1.829 do Código Civil descendentes em concorrência com o cônjuge; os ascendentes em concorrência com o cônjuge; o cônjuge e os colaterais até 4º grau, como foi mostrado no presente trabalho.
No caso do autor da herança desejar deixar seus bens e contas digitais por meio de testamento, nada o impede mesmo seguindo as regras atuais, pois não há lei em sentido contrário que o impeça. Em que pese o testamento não ser uma prática comum no Brasil por ser considerado complexo e burocratizado ele é o mais recomendado para aquele que quer deixar um patrimônio digital nos dias de hoje. Uma lacuna que ainda permanece diz respeito à tutela jurídica dos dados em caso de falecimento de um usuário.
Leis importantes passaram a fazer parte dessa temática, destaca-se o Marco Civil da internet que regulamenta desde os princípios, com garantidas e deveres aos
usuários da internet, bem como da determinação de diretrizes para a atuação do Estado.
Foi de importância mencionar quanto uma questão bastante polêmica acerca do tema, do direito da personalidade civil, que se uma pessoa vem a falecer e deixar bens digitais, se os mesmo poderiam ser transferidos para os sucessores do de cujus, portanto, embora a morte determine a extinção da personalidade civil da pessoa, foi destacado que deverá se considerar os atos praticados em vida. E evitar da empresa jurídica prestadora de serviço, simplesmente de tomar decisões do futuro da conta de seus usuários, colidindo muitas das vezes com o interesse dos sucessores.
Nesse patamar, ainda, sobre a relevância da temática, é necessário para que uma sociedade cada vez mais informatizada tenham garantido seus direitos de herança digital, a importante atenção com a posterior aprovação dos projetos de Lei 4.099-A/2012 e 4.847/2012 e os mais recentes projetos de Lei nº 8.562 de 2017 e 7.742, de 2017.
A pretensão neste trabalho não foi de esgotar o assunto, mas sim de suscitar uma reflexão crítica sobre a importância do tema proposto para toda sociedade, por se tratar de bens digitais que rendem de grande valorização econômica, mas ainda, se faz importante mesmo que existam aqueles bens digitais não valorativos economicamente, mas como cunho subjetivo de seu titular e de seus familiares.
Vale destacar, ainda, que a regulamentação do tema proposto trará ao ordenamento jurídico brasileiro maior segurança jurídica, assegurando assim o direito de herança, que é considerado por nossa Constituição Federal em seu artigo 5º, XXX, um direito fundamental.
37
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 05 de outubro de
1988. Constituição (1988). Brasília: Senado, 1988.
______, Lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. São Paulo: Saraiva, 2017.
______, Lei nº. 12.965 de 23 de abril de 2014. Estabelece princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da Internet no Brasil. Brasília: Congresso Nacional, 2014. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-
2014/2014/lei/l12965.htm. Acesso em: 05 de Janeiro de 2018.
______, Projeto de Lei n.º 4.099, de 2012. Altera o art. O art. 1788 da Lei 10.406, de Janeiro de 2002, que “institui o Código Civil. Disponível em
:<https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=5486 78>. Acesso em: 06 de jan. de 2018.
______, Projeto de Lei n.º 4.847, de 2012. Acrescenta o capítulo 11-A e artigos 1797-A e 1797-C a Lei 10.406, de Janeiro de 2002, que “institui o Código Civil. Disponível em:
<https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=56339 6>. Acesso em: 06 de jan. de 2018.
______, Projeto de Lei n.º 7.742, de 2017. Acrescentaria “o art. 10-A da Lei nº 12.965, de 23 de abril de 2014 “Marco Civil da Internet”. Disponível em:
<https://www.camara.leg.br/sileg/integras/1614971.pdf. Acesso em: 06 de jan. de 2018>.
DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro, volume 6 – Direito das Sucessões. 2014.
GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito das sucessões. 7º ed. São Paulo: Saraiva, 2018.
LARA, Moisés Fagundes. Herança Digital. Porto Alegre, RS: s.c.p, 2016. MATA, Lander. Herança Digital. Disponível em:
https://landermatta.jusbrasil.com.br/artigos/643959240/heranca-digital-uma-breve- analise-de-bens-digitais-sucessao-e-direitos-da-personalidade. Acesso em: 05 de Janeiro de 2018.
MERCADO BITCOIN. Comece a negociar a maior criptomoeda do mundo com o
Mercado Bitcoin. Disponível em: https://www.mercadobitcoin.com.br/o-que-e-
bitcoin. Acesso em: 05 de Janeiro de 2018.
OLIVEIRA, José Lopes de. Sucessões. São Paulo, sugestões literárias, 1972. PINHEIRO, Patrícia Peck. Direito Digital. 5º Ed.rev.atual. e ampl. De acordo com as Leis 12.735 e 12.737, de 2012. São Paulo: Saraiva. 2013.
R7 NOTÍCIAS. Alemanha autoriza pais a acessarem conta no Facebook de filha
morta. Disponível em:<https://noticias.r7.com/tecnologia-e-ciencia/alemanha-
autoriza-pais-a-acessarem-conta-no-facebook-de-filha-morta-12072018. Acesso em: 05 de Janeiro de 2018>.