4 RECONHECIMENTO DA VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA NO ORDENAMENTO
4.4 PROJETOS DE LEI Nº 7.633/14, Nº 7.867/17 E Nº 8.219/17
Atualmente o Brasil conta com três Projetos de Lei em tramitação com regime de prioridade na Câmara dos Deputados, que tratam essencialmente sobre a violência obstétrica.
O primeiro a ser apresentado foi o PL nº 7.633/2014, seguido de mais dois, o PL n.º 7.867/2017 e o PL n° 8.219/2017.
Projeto de Lei nº 7.633/14: Dispõe sobre a assistência humanizada à mulher e ao recém-nascido durante o período gravídico-puerperal e dá outras providências, entre elas a condenação civil e criminal dos profissionais de saúde que pratiquem atos de violência obstétrica, com notificação aos Conselhos Regionais de Medicina e de Enfermagem, para os devidos encaminhamentos e aplicações de penalidades administrativas aos profissionais envolvidos. (SILVA; SERRA, 2017).
O artigo 13 do Projeto supracitado define a violência obstétrica, nos termos das legislações estrangeiras, como segue:
Artigo 13 - Caracteriza-se a violência obstétrica como a apropriação do corpo e dos processos reprodutivos das mulheres pelos(as) profissionais de saúde, através do tratamento desumanizado, abuso da medicalização e patologização dos processos naturais, que cause a perda da autonomia e capacidade das mulheres de decidir livremente sobre seus corpos e sua sexualidade, impactando negativamente na qualidade de vida das mulheres. Parágrafo único. Para efeitos da presente Lei, considera-se violência obstétrica todo ato praticado pelo(a) profissional da equipe de saúde que ofenda, de forma verbal ou física, as mulheres gestantes em trabalho de parto, em situação de abortamento e no pós-parto/puerpério (BRASIL, 2014).
Os artigos 3º e 4º e seus respectivos incisos contemplam a assistência humanizada no parto e nascimento, além dos direitos da mulher em relação à gestação, trabalho de parto, parto, abortamento e puerpério. A base do texto adota práticas de combate à violência obstétrica através da mínima intervenção; a garantia do direito a informação dos procedimentos a serem utilizados e de ser informada sobe o estado de saúde do bebê. O art. 4º prevê o direito de a mulher ser protagonista do próprio parto e o direito à intimidade. (BRASIL, 2014).
Os artigos 5º e 6º determinam o direito à elaboração de um plano individual de parto, podendo a gestante manifestar sua vontade sobre a forma de sua realização. Destaca-se que qualquer alteração nesse plano pode ocorrer somente com o consentimento da mulher, apenas se for comprovada a necessidade de intervenção para assegurar a saúde da mãe e do bebê em casos emergenciais, devendo as modificações ser registradas no prontuário da gestante pelo médico responsável, com a devida justificativa clínica do procedimento adotado (arts. 8º e 9º). (BRASIL, 2014).
O artigo 14 trata das condutas consideradas ilícitas dos profissionais em face da gestante, dentre elas, destacam-se: tratar a mulher de forma agressiva, não empática, fazer
comentários constrangedores, ironizar ou censurar a mulher por comportamentos que externem sua dor (chorar, gritar, ter medo, dúvidas), ignorar suas queixas, impedir seu direito a acompanhante, recusar ou retardar atendimento (artigo 14). Por sua vez, o artigo 15 estabelece que as disposições do projeto de lei se aplicam igualmente nas situações de abortamento. Já o artigo 16, prevê os direitos ao recém-nascido. (BRASIL, 2014). Essas medidas visam combater a violência obstétrica, visto que os procedimentos apresentados são usados, rotineiramente, em vários hospitais brasileiros, ainda que contraindicados ou indicados apenas em situações muito específicas.
Ademais, o artigo 29 estabelece que os casos de violência obstétrica devem ser relatados à ouvidoria dos serviços de saúde, ficando sujeitos à responsabilização civil e criminal dos profissionais de saúde que praticarem atos de violência obstétrica. No que tange ao âmbito de aplicação da proposta de lei, ela se aplicaria ao Sistema Único de Saúde (SUS) e a toda a rede de saúde suplementar e filantrópica do país, assim como também aos serviços de saúde da rede privada. (BRASIL, 2014).
Projeto de Lei 7.867/17/2017: Dispõe sobre a adoção de medidas de proteção contra a violência obstétrica e de propagação de boas práticas de atenção a mulher no ciclo-gravídico, parto, abortamento e puerpério. O artigo 3º define a violência obstétrica como sendo ―todo ato praticado por membro da equipe de saúde, do hospital ou por terceiros, em desacordo com as normas regulamentadoras ou que ofenda verbal ou fisicamente as mulheres gestantes, parturientes ou puérperas‖. (BRASIL, 2017a).
Prevê a obrigatoriedade da elaboração do plano de parto; expõe um rol de condutas proibidas em face da gestante, que configuram ofensa verbal e física, assemelhando-se ao PL nº 7.633/2014. Entre as práticas estão tratar a gestante de modo agressivo, grosseiro e zombeteiro; ironizar ou recriminar a parturiente por seu comportamento (chorar, gritar, ter medo, vergonha ou dúvidas), por característica ou ato físico; não responder as suas queixas e dúvidas; tratá-la de forma inferior, utilizando nomes infantilizados e diminutivos; induzi-la a optar por parto cirúrgico sem indicação baseada em evidências e sem esclarecimento dos riscos para a mãe e o bebê. (BRASIL, 2017a).
Projeto de Lei n° 8.219/2017: Dispõe sobre a violência obstétrica praticada pelos profissionais de saúde contra mulheres em trabalho de parto ou puerpério. A proposta conta com quatro artigos e se assemelha aos demais Projetos, quanto à definição e o estabelecimento de condutas que constituem violência obstétrica. De acordo com o artigo 2º,
constitui violência obstétrica ―a imposição de intervenç es danosas à integridade física e psicológica das mulheres nas instituições e por profissionais em que são atendidas, bem como o desrespeito a sua autonomia‖ (BRASIL, 2017b).
Todavia, diferencia-se dos outros Projetos, por ser o único a tipificar essas condutas como prática delituosa, cominando pena de detenção e multa. Observou-se que o parlamentar compreendeu a realidade e a gravidade da obstetrícia hodierna, tipificando em seu bojo sanções para o descumprimento das condutas elencadas por ela. No caso das explicitadas, estabelece pena de detenção de seis meses a dois anos e multa. (BRASIL, 2017b).
Quanto ao procedimento de episiotomia, prevê em seu artigo 3º como inadequado e violento, devendo ser praticado exclusivamente nos casos de sofrimento do bebê ou complicação no parto e em casos de risco de morte à criança e ao bebê, devendo estar apresentada no plano de parto. Nesse caso, culminando pena de detenção de um a dois anos e multa. (BRASIL, 2017b).
4.5 TRATAMENTO DA VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA NO ESTADO DE SANTA