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3. TURISMO E JUVENTUDE RURAL: A DIVERSIFICAÇÃO DOS MEIOS DE VIDA

3.3 PROJETOS DE VIDA: ENTRE O RURAL E O URBANO?

Com base no que expomos até então, reiteramos que, entre os jovens do campo, são várias as contradições com as quais se deparam entre a escolha de um projeto de vida individualizado e um projeto de vida coletivo (CARNEIRO, 2007).

A principal ambivalência se expressa na oposição entre, por um lado, dar continuidade às atividades de que participa na unidade de produção agrícola familiar; e por outro, investir na educação, dentro ou fora da comunidade, para, na sequência, buscar ingressar em melhores condições no mercado de trabalho não agrícola (GAVIRIA; MENASCHE, 2007).

No que se refere à busca pelo conhecimento formal, Brumer (2007) ressalta que, nos casos por ela analisado, a frequência a uma escola de ensino médio requer a ida regular dos jovens às sedes de municípios próximos, onde têm acesso a outros modos de vida e relações sociais.

Dessa forma, de modo geral, a educação se apresentaria como fator que incide sobre a migração de jovens para centros urbanos, tida como provocadora de mudança da atividade agrícola para atividades não agrícolas (GAVIRIA; MENASCHE, 2006). A escola, portanto, seria um elemento valorizado pela juventude, por representar uma possibilidade de transformação de vida, de ascensão social e desenvolvimento econômico. Ao mesmo tempo, porém, essa visão pode acabar se constituindo como uma grande utopia (CUNHA, 2007).

O tempo de permanência do jovem de origem rural na escola chega a ser a metade da do jovem urbano. Além disso, o seu acesso à educação se dá,

frequentemente, descontextualizado de seu modo de vida e práticas cotidianas – o

que, não raro, se coloca como um elemento que alimenta o desejo pela migração, embora não garanta o acesso ao disputado mercado de trabalho na cidade (CUNHA, 2007).

Sabemos, no entanto, que a localidade dos Três Picos configura uma exceção frente ao quadro geral do rural brasileiro, por ser beneficiada por um projeto escolar que busca adaptar-se aos os modos de vida locais, amplamente ligados à agricultura, visando valorizá-los.

Em pesquisa realizada entre os anos de 2001 e 2003, Pereira (2004) analisou os projetos de vida dos alunos do IBELGA como direcionados à permanência no campo, em parte, por residirem em uma região dominada pela agricultura familiar, sendo socializados para ocuparem uma posição no interior da unidade produtiva; mas também devido aos incentivos de uma formação técnica voltada para o mundo rural.

Para o autor, entretanto, esses projetos já demonstravam uma mudança de comportamento em relação às formas tradicionais de produção, por incorporarem noções como ‘orgânicos’ e ‘ecoturismo rural’. Apesar de alguns conflitos geracionais, segundo ele, as novas representações veiculadas pelas escola não teriam levado à formulação de projetos fora do âmbito familiar, já que a família continuaria sendo um espaço fundamental para a elaboração e execução dos projetos de vida das gerações mais jovens – sendo este, inclusive, um dos pressupostos trabalhados pelo próprio IBELGA e pela pedagogia da alternância.

Por isso, mesmo que muitos jovens já estivessem executando atividades não- agrícolas, ao mesmo tempo, continuavam ‘ajudando’ a família na produção e seguiam envolvidos com as atividades escolares (PEREIRA, 2004).

Se em outros contextos a relação com a agricultura e com os modos de vida locais perde força devido à importância de outras atividades, em Três Picos, assim como nas áreas estudadas por Wanderley (2007), não parece ser essa a questão. Segundo a autora, há uma forte vinculação entre os jovens e seus familiares, que se estende para além dela, inscrevendo-se como um comprometimento com a comunidade de interesses que forma a família no campo.

Mesmo que a atividade agrícola venha se apresentando como menos atrativa para as novas gerações, no que tange ao desejo de continuar a tradição familiar, Wanderley (2007) identifica que o encaminhamento para outras profissões encontra, igualmente, limites no restrito dinamismo socioeconômico dos municípios onde geralmente vivem estes jovens.

De fato, ainda que muitos jovens tenham afirmado querer trabalhar “como

empregado” em “lojas de produtos”54, um de nossos informantes explicou que essa

possibilidade é concretizada por poucos, sendo, inclusive tomada como referencial para distinção social entre as novas gerações. Segundo ele:

Quando se forma na escola, muita gente quer trabalhar em loja, por causa do conforto de ter um salário todo mês, de ter mais estabilidade [...] Quem trabalha assim tem alguns ‘benefícios’55 (vale-refeição, comissão, férias). Aí, todo mundo quer, né?! Tem uns que começam a trabalhar e logo conseguem financiar um carro, uma moto, porque têm um dinheirinho certo. Aí, o pessoal acha que a pessoa está bem de vida! [risos]. Mas nem todo mundo acostuma a ficar trabalhando assim [...] Tem gente que começa e, daí a pouco, larga – porque tem que trabalhar domingo, que é o dia ir no mercado divulgar os produtos [...] Tem gente que também não se adapta a ter patrão mandando. Aí acaba voltando para a agricultura [...] E tem também a questão de ficar doente por causa dos produtos [...] A minha irmã trabalhou um tempo em loja, mas não aguentou. Ela passava muito mal. Teve que pedir demissão (P.P, 30 anos. Março/2018).

Além disso, embora haja a preferência pela contratação de egressos do IBELGA para esse tipo de trabalho, devido à formação técnica oferecida pela instituição, não há lojas suficientes para absorver a todos. Assim, a agricultura, mesmo quando não formulada como projeto inicial, acabada sendo o que é efetivado na prática – além de configurar uma opção de trabalho para qual se pode retornar, no caso de outros projetos não darem certo.

Para Wanderley (2007), a escolha de viver no rural, por outro lado, não se restringe a razões profissionais, mas se fundamenta, igualmente, em uma avalição

positiva sobre o próprio modo de vida e sobre os atributos da vida no campo –

especialmente no que se refere aos vínculos pessoais com o ‘lugar’, no sentido de pertencimento, à qualidade da vida local e às relações sociais.

54 Lojas que comercializam insumos agropecuários.

55 Em uma das aulas no IBELGA, com a turma do “terceiro ano agro”, uma professora propôs o debate sobre a questão do trabalho em loja de produtos, orientando os alunos a refletirem sobre o que seria ‘benefício’ e o que seria ‘direito trabalhista’ – já que muitos ‘direitos’ são vendidos pelos empregadores como benefícios dados pela empresa.

Além disso, de acordo com a autora, destacam-se as justificativas que consideram que a produção agrícola favorece o ‘sustento’ da família, ao contrário da cidade, que exige o acesso a recursos monetários para a sobrevivência. Assim, apesar das dificuldades, a vida no campo é positivamente valorizada por uma grande parcela dos jovens.

Os aspectos positivos, portanto, dizem respeito às raízes pessoais, aos laços familiares e de amizade, à proximidade da natureza e à qualidade da vida no campo. Já os aspectos negativos apontam para as carências da vida local e para a falta de alternativas que garantam, no ‘lugar’, oportunidade de emprego e renda, na agricultura ou fora dela (WANDERLEY, 2007).

Em Três Picos, ouvimos alguns relatos nessa direção:

Eu gosto daqui, porque é um lugar tranquilo, onde não tem violência, onde conheço todo mundo, posso circular com tranquilidade. Nunca pensei em me mudar [...] Algumas coisas ainda são difíceis. Por exemplo: tem um monte de cursos que eu gostaria de fazer, mas que só têm na cidade – e a noite. Aí, eu que trabalho do dia todo lá em Conquista, não consigo, né?! Eu faço faculdade de administração, mas é a distância. Só vou uma vez por semana lá no polo em Friburgo. É bem cansativo, chego tarde em casa [...] Aqui não também não tem muita opção de lazer. Mas eu sou caseira, bicho do mato [risos]. Nos fins de semanas fico mais em casa mesmo, não sinto muita falta disso. (M.C. 29 anos. Abril/2018).

Para mim, a maior dificuldade é o acesso à internet, que dificulta a gente trabalhar, por causa da entrega das cestas. Não tem uma empresa que atenda a todo mundo [...] A parte boa é a tranquilidade, né, o sossego. Não tem tanta gente morando aqui ainda. Está aumentando, tem bastante gente do Rio vindo morar. Mas ainda é bem tranquilo. Não tem roubo, nada disso [...] Mercado a gente também tem nas localidades vizinhas. Só para banco, vestuário que a gente precisa ir até Friburgo. Mas aí a gente vai de carro, de moto [...] A maioria do pessoal vai de ônibus, mas a gente evita, porque aqui nos Três Picos é assim. Tem dia que o ônibus vem, tem dia que não vem [...] Porque chove, porque a estrada é ruim, porque não tem interesse – a população é pequena, então a empresa acha que não vale a pena ficar vindo aqui [...] Isso é muito ruim também (M.M. 23 anos. Abril/2018).

Importa ressaltar que o que configura a comunidade local é o espaço do trabalho, dos grupos de amigos mais próximos – das relações de interconhecimento – e das formas tradicionais de lazer e de vida cotidiana. E essa vida social é complementada pelas relações que têm como lócus o ‘espaço urbano’ mais próximo ou acessível, proporcionando o acesso a bens, serviços e ao lazer, geralmente localizados na sede dos municípios (WANDERLEY, 2007). Então, a proximidade com a cidade pode proporcionar a seguinte situação: o meio rural como lugar de residência e a cidade como lugar de trabalho, lazer, acesso a bens e serviços (MACEDO, 2007).

Nesse sentido, a ideia do jovem do campo como totalmente atraído pela vida urbana e influenciado pela mídia não é exatamente real. A juventude rural sabe a dimensão dos problemas que existem no campo, mas também está informada sobre os problemas urbanos (MACEDO, 2007).

Embora valorizada por constituir um centro de serviços e oferecer possibilidades de progresso e educação, como complemento necessário à vida no meio rural, a cidade também é percebida negativamente como lugar da violência, da miséria e da dificuldade de se estabelecer relações de confiança. Assim, o modo de vida rural é valorizado principalmente pelas relações de amizade, solidariedade e pela maior ‘tranquilidade’ que passou a representar (BRUMER, 2007).

Por isso, o ideal de juventude buscado pelos moradores do meio rural não parece ser a vida juvenil tal como se apresenta nos grandes centros urbanos. Parecem buscar o “melhor dos dois mundos” (CARNEIRO, 2007, p.60) em uma síntese muito difícil de conseguir, constituindo mais uma demanda do que, propriamente uma realidade concreta (ABRAMO, 2007), o que podemos definir como um projeto de vida “rurbano” (CARNEIRO, 1998, p.15).

Essa demanda se apresenta, para uns, como a possibilidade de permanecer

no meio rural e, nele, encontrar um campo de realização pessoal e profissional – na

agricultura ou fora dela. Para outros, a partir do acesso aos meios que permitam a realização de outro projeto de vida, no local ou fora dele – sendo médico, professor, artista, advogado, etc. (WANDERLEY, 2007).

Assim sendo, a discussão que empreendemos até então nos apresenta os projetos de vida dos jovens como intersticiais às influências do mundo ‘rural’ e do ‘urbano’, em função de uma maior aproximação entre esses espaços sociais (CARNEIR0, 2007).

Essa conjuntura é o que tem provocado tantas mudanças nos projetos juvenis – já que a juventude rural se destaca como a faixa demográfica mais afetada pela dinâmica de diluição das fronteiras entre campo e cidade, vivenciando com maior intensidade as ambiguidades presentes em um contexto de ‘ruralidades contemporâneas’ (CARNEIRO, 2007; GAVIRIA; MENASCHE, 2007; WANDERLEY, 2000).

Dessa forma, o protagonismo dos mais jovens, dentre as famílias agricultoras que buscam no turismo uma nova forma de pluriatividade, está ligado não apenas a

um projeto escolar, ou às influências neorruais. Esse fenômeno é, sobretudo, resultado das próprias características do ‘jovem rural’ na contemporaneidade – um ator multifacetado, que constrói seus projetos no limiar entre demandas e representações ‘de dentro’ e ‘de fora’, utilizando-as, em muitos casos, como recursos disponíveis para a sua inserção profissional na dinâmica local.

3.4 TURISMO: PROJETO INDIVIDUAL OU UM CAMPO DE POSSIBILIDADES PARA