Estudo de caso da trajetória do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA)
PROJETOS EM TORNO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE SEGURANÇA ALIMENTAR
Pode-se afirmar que, a partir da obra de Josué de Castro, nos idos do ano 1946, a fome começou a ser compreendida como um problema central e so-cialmente criado, pois neste momento ela passou a ser tratada para além de mero resultado de intempéries ou de fatores naturais alheios à atuação
A obra de Josué de Castro, com o levantamento da realidade brasileira, fez clara a existência de uma fome coletiva, endêmica, observando-a em sua for-ma total, pela ausência completa de alimentação, e também em sua forfor-ma par-cial (ou oculta), dada pela insuficiência nutritiva (CASTRO, 1946, p. 36). Mais que isso, o trabalho do autor densificou a discussão sobre as origens deste pro-blema, localizando como ponto marcante o passado colonial brasileiro e o seu elemento colonizador1, que deu início a um processo posteriormente mantido pelo capital estrangeiro (CASTRO, 1946, p. 280-281).
Neste sentido, é justamente na década de 1940, no governo de Getúlio Vargas e com suporte nos trabalhos de Castro, que tem início a elaboração de políticas estatais direcionadas aos trabalhadores e à alimentação destes, com a criação de Serviço de Alimentação da Previdência Social (CASTRO, 2010, p. 20).
Sem a pretensão de traçar o histórico das políticas alimentares brasileiras, mas enfocando apenas a história recente do país, apropria-se da conclusão de Silva (2014), segundo o qual, no período anterior aos anos 2000: “a temática da segurança ali-mentar sempre esteve inserida de maneira precária na agenda governamental, liga-da a estruturas e programas, muitas vezes clientelistas, sem critérios claros de acesso, sem autonomia orçamentária e sujeita a descontinuidades” (SILVA, 2014, p. 30).
Noutra visão, as políticas públicas para o campo, em tempos recentes, po-dem ser compreendidas por três gerações e por três formas de elaboração – no que concerne à interação da sociedade com o Estado. Essas políticas passaram, do final dos anos 70, de um enfoque agrário e agrícola, buscados de forma rei-vindicatória especialmente pelos movimentos sociais sindicais2, para, a partir
1 Consoante refere o autor aludindo à obra “Raízes do Brasil” de Sérgio Buarque de Holanda: “A fome no Brasil, que perdura, apesar dos enormes progressos alcançados em vários setores de nossas atividades, é consequência, antes de tudo, de seu passado histórico, com os seus grupos humanos, sempre em luta e quase nunca em harmonia com os quadros naturais. Luta, em certos casos, provocada e por culpa, portan-to, da agressividade do meio, que iniciou abertamente as hostilidades, mas, quase sempre, por inabilidade do elemento colonizador, indiferente a tudo que não significasse vantagem direta e imediata para os seus planos de aventura mercantil. Aventura desdobrada, em ciclos sucessivos de economia destrutiva ou, pelo menos, desequilibrante da saúde econômica da nação: o do pau-brasil, o da cana-de-açúcar, o da caça ao índio, o da mineração, o da ‘lavoura nômade’, o do café, o da extração da borracha e, finalmente, o de certo tipo de industrialização artificial, baseada rio ficcionismo das barreiras alfandengárias e no regime de inflação. É sempre o mesmo espírito aventureiro se insinuando, impulsionando, mas logo a seguir corrompendo os processos de criação de riqueza no país” (CASTRO, 1946, p. 280).
2 Com alusão ao posicionamento da Contag tido no II e no III Congresso Nacional de Trabalhadores Rurais, realizados em 1973 e 1979, bem como à publicação de boletim periódico da Contag de 1979, com conteúdo reivindicatório evidente (GRISA; SCHNEIDER, 2015, p. 129). De outra banda, anota-se que
dos anos 80, uma interação marcada pela proposição da sociedade civil, origi-nando políticas públicas, que tomariam adiante caráter social e assistencial nos governos neoliberais brasileiros (GRISA; SCHNEIDER, 2015).
Ao fim, dada a virada do século, após a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, aponta-se um terceiro momento, em que houve uma abertura do diálo-go popular com as esferas de poder político, com uma interação participativa da sociedade, concedendo-se especial atenção às políticas voltadas à segurança alimentar e nutricional e de sustentabilidade ambiental (GRISA; SCHNEI-DER, 2015, p. 138).
Neste espaço temporal, desde os anos de 1970, há uma série de mobiliza-ções e de inversões das compreensões do campo. Uma delas pode ser indicada pelo percurso da dominante ideologia da modernização e tecnificação agrícola, sob o que foi a Revolução Verde, até sua crítica e a ambientalização dos estudos e das questões do desenvolvimento rural, acompanhando a tendência global so-bre a discussão acerca da natureza (SCHNEIDER, 2010, p. 517).
Além disso, houve, já na década de 1990, a consolidação da categoria da “agricultura familiar”3, esta que de acordo com seu potencial como modelo so-cial, político e produtivo, é de tal maneira legítima, que foi capaz de constituir referência de oposição a outra noção poderosa, que é a do “agronegócio” (SCH-NEIDER, 2010, p. 515).
De todo modo, a análise da participação popular na elaboração de políti-cas públipolíti-cas para o campo, realizada por Grisa e Schneider (2015), correspon-de efetivamente aos avanços e retrocessos nas formas correspon-de lidar com a agricultura e a produção de alimentos no Brasil.
Sobre isso, sabe-se que, já no Brasil democrático, o primeiro presidente eleito diretamente, Fernando Collor de Mello, extinguiu uma série de progra-mas setorizados de alimentação, além de reduzir o alcance de outros, como o
prevaleceu no início deste período os interesses da agricultura patronal, mesmo após a redemocratização e a abertura de novos canais de interação popular com o Estado. No entanto, já sob a década de 1990, o PRONAF surge como a primeira política agrícola nacional direcionada à agricultura familiar, fruto de uma estratégia propositiva (GRISA; SCHNEIDER, 2015, p. 130-131).
3 Sobre o aparecimento desta categoria, Pereira e Alentejano definem que ela foi consagrada pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) e que: “la difusión de esa categoría recon-figuró los términos del debate sobre las políticas públicas para el agro relativas a la producción, comercialización, crédito, agroindustrialización y cooperativismo, además de la misma reforma agraria – que pierde centralidad en
Programa de Merenda Escolar, o atual Programa Nacional de Alimentação Es-colar (PNAE) (PELIANO, 2010, p. 32).
No governo de Itamar Franco há mobilização governamental na tentativa de combater a fome, com o lançamento de Plano de Combate à Fome e à Mi-séria, bem como com a criação do Conselho de Segurança Alimentar (Consea) em 1993 (PELIANO, 2010, p. 32-33; SILVA, 2014, p. 24). No entanto, o go-verno seguinte, de Fernando Henrique Cardoso, após extinguir o Consea, op-tou por transferir ao Programa Comunidade Solidária suas funções, adotando medidas emergenciais e fragmentadas, cuja execução e gestão foram comparti-lhadas com os setores privados (SILVA, 2014, p. 27).
Nota-se, pela breve descrição, a possibilidade de identificar o espaço ocu-pado pelas questões da produção de alimentos e do combate à fome nas agen-das políticas dos governos brasileiros.
Assim, somente em 2003 surgiria um programa de combate à fome e po-breza de alcance estrutural. O Programa Fome Zero foi formulado sob três ei-xos de atuação, sendo um deles o de implantação de políticas públicas em níveis nacional, estadual e local, além dos outros dois eixos, compostos pela consoli-dação de uma Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional e pela realização de atividades e mobilizações da sociedade civil em combate à fome (TAKAGI, 2010, p. 61).
O PAA surge como demanda dos movimentos populares, para o fortale-cimento da agricultura familiar, configurando-se política estrutural, razão pela qual ganhou atenção e logrou significativo orçamento inicial, na casa de 400 milhões de reais (TAKAGI, 2010, p. 54). Ademais, ao PAA pode ser relacio-nado a uma série de questões de grande importância. Como exemplo disso, há o leque vasto de beneficiários, composto por agricultores familiares que pode-riam ser indígenas, quilombolas, pescadores artesanais e outras comunidades tradicionais, além de assentados da reforma agrária4, sem mencionar os aspec-tos correspondentes ao fortalecimento desses grupos pelo escoamento de suas produções, em circuitos locais e regionais de comercialização.
4 Importante destacar que a redação original do decreto que regulamenta o PAA (Decreto nº 7.775/2012) previa de forma expressa cada um destes grupos de beneficiários. No entanto, no ano de 2017, foram verificadas alterações no texto legal, dadas pelo Decreto nº 9.214/2017, que retirou os povos tradicionais e assentados da reforma agrária da redação legislativa do rol de beneficiários e inseriu a expressão “ empre-endedores familiares rurais”, em nítida opção ideológica.
A ESTRUTURA E O MÚLTIPLO ALCANCE DO PROGRAMA