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4 ANÁLISE DOS DADOS, RESULTADOS E DISCUSSÕES

4.2 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

4.2.2 Projetos de vida: estudar, trabalhar, ter uma vida própria

de frequentar locais de encontro na cidade, a necessidade de fazer as tarefas da escola a distância e sozinhos.

Seguiremos apresentação dos resultados considerando as subcategorias 2.1, 2.2 e 2.3 do Quadro 2, relacionadas aos projetos de vida dos estudantes.

Procuramos na elaboração dos roteiros de entrevista, garantir que as indagações que envolvessem os projetos de vida não sugerissem que grau de organização e detalhamento eles deveriam ter, por isso evitamos atrelar a condução da entrevista, nesse ponto, a datas ou períodos de tempo muito específicos no futuro, de maneira a reduzir a possibilidade de interferência do pesquisador sobre as respostas ou de dar a entender que eles deveriam possuir um planejamento detalhado. Quando necessário, utilizamos a idade de 18 anos ou o momento de conclusão do EM como referência temporal para obtermos dados relacionados a planos, vontades ou desejos que consideramos de médio (até os 18 anos ou fim do EM) e longo prazo (após os 18 anos ou fim do EM). Esse procedimento, acreditamos, contribui para que o conceito de projeto de vida se diferencie da ideia de um o cronograma detalhado, o que nem sempre coincide, considerando-se que ideações feitas pelos jovens sobre seu próprio futuro ocorrem independentemente da necessidade de maior sistematização, mas em diferentes graus de complexidade.

Essas noções encontraram-se expressas nos dados por afirmações como:

Meu plano sempre foi, depois que eu fizesse a faculdade, que eu tentasse fazer um intercâmbio em outro país, mas acho que eu comecei a fazer inglês porque meu pai e minha irmã fazem inglês (E4);

Meu maior sonho, até agora, que eu tenho em mente em fazer quando eu tiver um emprego fixo, é ir pros Estados Unidos (E1).

Os estudantes também expressaram (Quadro 9) o desejo de independência, por exemplo, quando falaram sobre a intenção de tomar seu próprio rumo e ter uma vida própria (E2) ou eu tenho algumas vontades, assim, de comprar alguma coisa,

‘né’, de sair às vezes com os amigos e comprar um sorvete, indo, por exemplo no ‘Mc’

(McDonalds), que abriu um ‘Mc’ aqui (E5). Eles também se referiram a planos de viagens que desejam realizar (E1, E2, E4) e aprendizagens que gostariam de ter, como tocar instrumentos (E1), obter habilitação para dirigir (E2) e aprender inglês (E1, E4).

Quadro 9 – Projetos de vida: subcategoria 2.1 - Planos / Desejos / Sonhos / Vontades.

E1 - Banda na igreja, cantava, mas não toca instrumento (queria aprender); A igreja não oferece nenhum curso; “Cada um deveria aprender por si só”; ir para EUA, fazer passaporte, conhecer (por isso precisa do inglês). Quer conhecer as belezas e cultura de lá, “acho bonito”. Primeiro precisa trabalho para ter dinheiro para viabilizar o sonho (inglês, trabalho, dinheiro para alcançar sonho).

E2 - Maior vontade é ter a própria vida, independência, tomar o seu próprio rumo, viajar para o exterior, conhecer outros olhares; o que fazer até os 18: não pensou muito no assunto, obter mais experiência de vida, passar de ano; Sonho: a vida própria, uma vida independente (precisa ter um emprego, carteira de motorista, um apartamento, entrar na marinha, uma rotina).

E3 - Maior vontade – abrir uma rede de agropecuárias; Fazer curso de veterinária ou biologia;

desde pequeno gosta de entrar em agropecuárias para ver os bichos; Não tem mais passarinhos pois acha errado; Gostaria de ter a experiência de servir ao exército (pelo menos 1 ano);

E4 - Pretende viajar com toda a família. Pensam em ir pra Europa visitar vários países (França, Inglaterra, Irlanda, Alemanha, etc.); Medicina na UFRGS ou na UFCSPA (plano A). Jornalismo ou arquitetura na UFRGS (plano B). “Quero mostrar coisas que as pessoas não prestam atenção”;

Segue a página São Paulo invisível que fala sobre moradores de rua. Arquitetura porque viu seu pai construindo sua casa que é “a casa dos sonhos”. Gostava de mudar os móveis do quarto, mas também sempre quis ser médica; Até os 18 anos, já preparou tudo: vais estar no fim do ensino médio, vai ter feito tudo que planejou, vai ter terminado o inglês, vai estar terminando o pré-vestibular, quer ter tirado uma nota boa no ENEM, ter estudado bastante. Depois dos 18, vai tentar entrar na faculdade que quer.

E5 - “Comprar suas coisas, sair com os amigos, comprar um sorvete no Mcdonalds que abriu recentemente, ter seu próprio dinheiro”. Fazer uma festa com os amigos do grupo de jovens, matar a saudade, ter um notebook para jogar “muito top”. Até os 18: continuar na escola, curso de informática ou algo do tipo; Depois dos 18: “não sei”; “ter minha casinha, acho que seria isso, sabe? Ter um lugar meu, é um sonho de consumo, né, ter o meu próprio lugarzinho”, montar uma família.

Fonte: elaborado pelo autor.

No que diz respeito aos projetos de continuidade dos estudos, referiram a necessidade de passar de ano (E4), dedicar-se aos estudos preparatórios para o ENEM (Exame nacional do Ensino Médio) (E3), curso pré-vestibular (E4), estágio e intercâmbio em outro país. Como nas unidades de sentido do Quadro 10:

Quadro 10 – Projetos de vida: subcategoria 2.2 - Projeto de Continuidade de Estudos / Desejo de Aprender.

E1 - Quer um oportunidade de aprender (inglês para se comunicar melhor e trabalhar ou fazer intercâmbio); estuda através de livros básicos que o pai trouxe; aulas de inglês ajudam bastante;

está sendo uma obrigação, mas pode fazer quando quer; cursos que instrumentalizam para sonhos futuros (fluência/intercâmbio); entender filmes, “o que eles falam”.

E2 – Quer se prepara fazendo cursos que a possam ajudar na carreira militar; Planeja se desenvolver na área da informática.

E3 - Não está pensando em começar a trabalhar, no momento quer começar a se dedicar para o ENEM; Ainda vai decidir mas terá todo o apoio da mãe no que decidir; Áreas: biologia, ciências;

Está procurando se informar sobre as novas matérias que terá no EM - Biologia, Física e Química;

Tem vontade de fazer cursos (atirar para todo lado), fazer estágio; Depois dos 18 quer focar no ENEM para fazer uma faculdade; Ainda não conhece muito bem as faculdades (universidades) que há à disposição.

E4 - Sempre quiz aprender inglês, “meu plano sempre foi, depois que eu fizesse a faculdade, que eu tentasse fazer um intercâmbio em outro país, mas acho que eu comecei a fazer inglês por que meu pai e minha irmã fazem inglês”; faz inglês porque antes da pandemia iria ganhar uma viagem de 15 anos, mas veio a pandemia e “estragou tudo”; pretende terminar o inglês no segundo ano do ensino médio para fazer um curso pré-vestibular.

E5 - Viu com o pai alguns cursos para o exército e informática.

Fonte: elaborado pelo autor.

Os entrevistados foram estimulados a fazer previsões sobre possíveis ameaças a seus projetos de vida – reproduzidas no Quadro 11 - referindo-se ao desânimo, preguiça e falta de vontade de estudar, as responsabilidades da vida adulta, problemas financeiros ou a interferência de outras pessoas como possíveis obstáculos.

Quadro 11 – Projetos de vida: subcategoria 2.3 - Obstáculos futuros.

E1 - Desânimo e falta de vontade.

E2 - Pessoas podem incomodar de forma negativa, problemas financeiros, nada que possa realmente interromper os objetivos.

E3 - As responsabilidades da vida adulta, às vezes consomem a pessoa, talvez não consiga realizar o que realmente quer.

E4 - Preguiça de estudar.

E5 - Não sabe o que poderia atrapalhá-lo. Dificuldade: reprovar de ano. “Seria bem ruim”.

Fonte: elaborado pelo autor.

A categoria projetos de vida permitiu que identificássemos uma forte relação entre os estudos e o trabalho para a concretização de um desejo de independência dos pais, o qual apareceu concretamente em falas que apontaram para a necessidade de uma renda que viabilizasse tal aspiração. Independência nesse contexto parece significar autonomia financeira, revelando uma vinculação entre a capacidade de consumo de bens, como comprar suas coisas, sair com os amigos, comprar um sorvete no Mc, e as decisões sobre trabalho e profissões desejadas. Nem sempre, no entanto, os estudantes associaram a vontade de continuar os estudos a alguma finalidade prática, mas, da maneira como a interpretamos, esta se colocou como uma necessidade indiscutível de sua condição juvenil, ou seja, não encontramos afirmações que questionassem a relevância de sua formação para a concretização de

objetivos.

Seus contextos familiares e sua condição juvenil, como vimos anteriormente, podem explicar em parte essa relação com a escola e estudos, tendo-se em mente que seus pais e familiares próximos possuem escolaridade básica e, na maioria dos casos, os estudantes disseram que se envolvem em sua vida escolar:

As motivações e sentidos em relação à escola parecem resultar da conjugação entre o quadro mais amplo das relações sociais em que eles se inserem e aspectos ligados à trajetória individual e familiar. Dependendo dos suportes a que têm acesso via apoio familiar, redes sociais e institucionais, os jovens podem tecer diferentes modos de ser estudante. (LEÃO, 2011, p.

107-108)

Em relação à complexidade dos projetos de vida apresentados podemos dizer que variam em complexidade e grau de certeza sobre o processo, mas que mesmo nas elaborações mais simples em que os participantes não souberam definir objetivamente as próximas ações de sua trajetória, a continuidade dos estudos e a necessidade de trabalhar para adquirir independência foram fatores relevantes.

Quando perguntados sobre o que consideravam seus sonhos, houve respostas com um caráter prático e de médio prazo, a ser realizada até os 18 anos, como tirar uma boa nota no ENEM ou fazer curso pré-vestibular, assim como aquelas que revelaram idealizações de futuro incertas e de longo prazo, sem a definição de quando ou de que forma ocorreriam, como viajar para os Estados Unidos e fazer um intercâmbio em outro país (E1 e E4) ou fazer uma faculdade (E3 e E4).

Supomos que esses jovens sonhem com uma posição social e econômica em que possam ter a segurança de não depender financeiramente dos pais e de acessar padrões de consumo ou status prestigiados socialmente, mesmo que nem todos tenham mencionado o desejo de comprar itens específicos entre suas vontades, mas porque dizem almejar profissões e ingressar em cursos de graduação que em suas visões permitiriam uma estabilidade que eles já vivenciam através de suas famílias.

Nesse ponto, entendemos que o desejo por independência que eles expressam revele uma antecipação de um momento futuro de mais responsabilidades e mais afazeres ligados ao mundo do trabalho, vivenciado indiretamente através da observação e influência de seus familiares próximos, que em muito contrasta com o aparente estado de espera e suspensão da normalidade atuais, provocado tanto pela pandemia, quanto pelas incertezas sobre a transição ao EM. Os estudantes, entretanto, elaboram

desde planos bem organizados, com etapas e alternativas (plano A, plano B, etc.), a expressões de objetivos amplos para cujo atingimento ainda não delinearam um caminho (como ir para os Estados Unidos, ter uma casa própria, etc.).

4.2.3 Mundo do trabalho e EPT: ajudar em casa, fazer tarefas da escola, me preparar