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Promiscuidade e fecundidade

No documento UMA POÉTICA DO DESLIMITE (páginas 73-78)

3. O mundo dos seres

3.4. Promiscuidade e fecundidade

Uma poética da infância nos foi proposta logo no primeiro livro do

autor. O olhar fascinado e fascinante do menino serve como estratégia para

que se possa assumir uma certa posição diante da palavra e do mundo.

Tal posição é, desde o início, marcada por um recuo em relação ao modo

racional e prático do olhar adulto. Há um certo descompromisso que não se

deixa prender em determinadas categorias. Cabeludinho, pode-se dizer, é

um ser que desde o princípio se vê colocado para aquém do sublime: “bem

diferente de Iracema / desandando pouquíssima poesia”. Está, assim, livre

para falar do espaço onde vive. Na série “Postais da cidade”, articulam-se

imagens da paisagem urbana, e vemos aparecer alguns personagens cuja

característica é exercerem um certo encanto sobre o olhar interessado e

irreverente do menino. A multiplicidade de formas e nomes, numa sucessão

inesgotável, oferece a garantia de que algo de poético habita o seu mundo.

A água, por exemplo, faz pensar num elemento mágico, sobre cuja fluidez

transcorre o próprio ritmo de surgimento das coisas:

Porém a cidade era em cima de uma pedra branca enorme

E o rio passava lá em baixo com piranhas camalotes pescadores e lanchas carregadas de couros vacuns fedidos. (p. 43)

As personagens que aí surgem são também, à sua maneira, “postais

da cidade”. Pelo modo como se misturam à paisagem, fazem lembrar figuras

camaleônicas, mimetizando o espaço que as envolve. Algumas, porém, vão

além do mimetismo e parecem querer romper os limites que as separam

das coisas. Uma atitude promíscua em relação ao mundo é a marca desse

comportamento. Em “Na draga”, por exemplo, aparece Mário-pega-sapo,

que tinha o hábito de carregar os bolsos cheios de jias e esfregar no rosto

“as suas barriguinhas frias / geleia de sapos”, no dizer do autor. Depois

de morto, tal personagem teve de vestir um nome diferente, dado por um

político. Já o desejo de Dona Maria, de se sentar na calçada e ficar tocando

gaita, fornece o ensejo para a imaginação de um ser ambíguo, mistura de

mulher e planta, terroso, sobre cujas formas indefinidas passeiam insetos

e pequenos animais:

Sua boca vai cair no chão

Uma lagarta torva pode ir roendo seus lábios superiores pelo lado de fora Um moleque pode passar e esfregar terra em seu olho

Ligeiro visgo começará a crescer de seus pés

Alguns dias depois sua gaita estará cheia de formiga e areia A senhora estará cheia de lacraias sem anéis

(...) (p. 47)

Para o poeta, é importante que exista entre as coisas uma dinâmica

do contato. A noção de promiscuidade – termo que fazemos derivar de seu

próprio vocabulário – designa, antes de tudo, um sonho de proximidade a

todas as coisas e de todas as coisas entre si. Acreditamos poder descobri-la

naquele ponto onde se interceptam mobilidade e repouso, o ser opaco das

coisas e sua incessante mutabilidade.

Porém a promiscuidade, como esses mesmos termos que a

circun-dam, exige que a pensemos em toda a sua extensão. Não poderemos, por um

lado, negligenciar o fato de que é nela que os seres aparecem na sua máxima

opacidade e de que é nela também que o intransitivo do que eles são se liga

ao espaço exterior. A promiscuidade no espaço do mundo nos faz pensar

não em uma coisa de cada vez, concebida separadamente, mas em duas ou

várias, tomadas no mesmo ato de apreensão, e não nos ocorre outra frase

que melhor defina o que pretendemos exprimir. Por outro lado, sabemos

que, se os seres podem ser vistos e contrastados, é porque a promiscuidade

é uma categoria do múltiplo: ela assegura o contraste necessário para que

as coisas apareçam, unificando-as no espaço da intuição. A experiência das

coisas torna-se, então, experiência do ser promíscuo:

Pedro engole a maçã do caos. Vai trôpego deitar-se nas pedras. Esmeralda tritura-o agora.

Tudo que há de noturno está entranhado nas roupas de Pedro. Bebe goles de treva. Liberdade que se evola de ti, no escuro, Pedro ! Não percebe.

Cogumelos brotavam de seu ventre, e ocasos. Calangos vinham lamber os seus pés e mascar suas roupas os bois.

Pedro se aproximara das coisas. Para dormir com elas. Pedro deitou-se entre

objetos. A terra comia seu abdômen. (...) (“Encontro de Pedro com o nojo”, p. 119)

Uma semântica do contato – contato físico entre os seres,

corpo-ralidade, concretude –, construída à base da necessidade que os seres têm

de interagirem uns com os outros, deriva dessas imagens. Contatos

fazem-se necessários, antes, para que os fazem-seres aprendam mais fundamente o que

são. Na promiscuidade, o uno se comunica com o múltiplo, sem perder a

sua especificidade. Colados às coisas do solo, os pequenos seres aprendem

a linguagem da terra e da natureza. Nessa ordem de ideias, o poeta só

poderá dizer que “o chão é um ensino”:

– Como é seu nome? – Polina

Não sabia dizer Paulina Teria 8 anos

Rolava na terra com os bichos Tempo todo o nariz escorrendo (...)

Usava uma algaravia

Herdada de seus avós africanos e diversos assobios para chamar nambu (...) (p. 49)

Numa dimensão que a complementa, a ideia de promiscuidade entre

os seres, em Manoel de Barros, tem uma clara contrapartida. E dizemos

“que a complementa” porque, como entre as noções de gratuidade e

intransitividade, há nesse caso, igualmente, uma polarização, como se

fossem os dois aspectos de uma só problemática. Porém, haveria que se

frisar, no começo, o modo como a promiscuidade se situa em nosso quadro

de referências e as relações que estabelece com os outros elementos.

Pode-se imaginar que a noção de promiscuidade, como já tentamos adiantar,

se situe num ponto qualquer do cruzamento entre mobilidade e repouso

ou que seja deles uma derivação. Ainda assim, para que o quadro esteja

completo, não devemos esquecer o caráter “estático” que ela assume e não

se pode omitir que, se a semântica do contato (aqui, poderíamos pensar,

o nível mais aparente dessa noção) coloca em campo a multiplicidade e a

unidade dos seres (num “contraste”, como foi dito), haverá qualquer coisa

de imóvel no processo, que o que estará em jogo será a própria ideia de

opacidade.

Em suma, a promiscuidade essencial de todas as coisas é, na origem,

categoria do repouso. Mas uma imagem nos persegue (e se torna recorrente

nessa poesia), que é a de uma boca em ruínas de onde brota um pouco de

mato. Brota, pode-se dizer, porque a boca está lá, no abandono, e está em

ruínas, sendo que brotar é inevitável. Noutras palavras, as coisas largadas

à sua própria sorte se tornam fecundas e produtivas:

Bom era entre botinas tronchas, pousar depois... Como um cão

como um garfo esquecido na areia. Ir a terra me recebendo

me agasalhando

me consumindo como um selo um sapato

como um bule sem boca... (...)

Ir criando azinhavre nos artelhos a carne enferrujada

desfeita em flor de ave, vocábulos, ícones. Minhas roupas como um reino de traças. (...) (p. 149-50)

Portanto, se é possível situar a noção de promiscuidade numa

dimensão de estatismo, diremos então que o que a complementa é uma

noção de fecundidade, numa dimensão de movimento. Primeiramente,

isto nos surge a representar um aspecto da realidade ligado a qualquer

coisa de incomensurável que há nos seres. Todas as coisas em contato

(promiscuidade) são produtivas e dinâmicas. Estar em proximidade

“produz”, e esse produzir só se manifesta porque é instância de uma

fecundidade essencial das coisas, oculta na sua mais funda intimidade.

Não existe estagnação no mundo promíscuo das formas: as coisas, quando

próximas, revelam-se fecundas e “transbordam” de seus limites. Um livre

surgir derivante coloca-as em contato como o exterior:

Aqui: ardo e maduro. Compreendo as azinheiras.

Compreendo a terra podre e fermentada De raízes mortas.

Compreendo a presciência do fruto Na carne intocada.

E assisto crescerem

Frescos, nessa carne, os seus dedos. Compreendo esse garfo na terra A germinar ferrugens

Sob laranjais...

E o grão que semearam na pedra. E mais: os troncos rugosos

Pendendo suas bocas para as águas. (p. 83)

Porém o rótulo “fecundidade” pode ter algo de traiçoeiro, se não

o recortarmos adequadamente, determinando de alguma forma sua

extensão e sua semântica. Tomando-o desavisadamente, seria fácil pensar

que a fecundidade é categoria marcada onde se lê o traço de um sentido

qualquer utilitarista. Nessa perspectiva, caberia a pergunta: não seria a

fecundidade um modo de ver a natureza como algo de produtivo, uma fonte

inesgotável de onde se extraem todos os bens? Não seria ela uma forma de

domínio sobre as forças geradoras da natureza? Nos poemas do autor, o

movimento que a fecundidade descreve não autoriza essa forma de pensar.

A natureza, as forças que agem nos seres (e não sobre eles), libera-se não

só pelo que tem de gratuita e opaca (ao caráter ordenador do discurso), mas

pela promiscuidade impermeável do múltiplo. A fecundidade também é

opaca, diríamos, em Manoel de Barros. O que a partir dela se produz não

são as formas utilitárias de um mundo categorizado, mas uma dinâmica

que se diria do capricho, onde o prazer está mesmo no produzir. O Livro

de pré-coisas não é, assim, uma excursão turística ao Pantanal, mas uma

excursão poética. A fecundidade presente no “Agroval” não tem o caráter

do esplêndido e nada produz a não ser uma química de brejo:

Ali, por debaixo da arraia, se instaura uma química de brejo. Um útero vegetal, insetal, natural. A troca de linfas, de reima, de rumem que ali se instaura, é como um grande tumor que lateja.

Faz-se debaixo da arraia a miniatura de um brejo. A vida que germinava no brejo, transfere-se para o grande ventre preparado pela matrona arraia. É o próprio gromel dos cascudos! (...) (p. 233)

Esse texto contém as dimensões do intransitivo. A produtividade dos

seres é uma produtividade que escapa às pretensões utilitaristas do uso.

Noutro lugar, escreveu o poeta que alguém “por meio de ser árvore podia

adivinhar se a terra era fêmea e dava sapos” e que “antes de ser preso

fora atacado por uma depressão mui peculiar que o fizera invadir-se pela

indigência”. A mesma depressão, no caso, que nada acrescentara ao homem

a não ser a sua própria indigência, crescia-lhe por dentro “como a ervinha

rasteira que num terreno baldio cresce por cima de canecos enferrujados

pedaços de portas arcos de barril” (p. 157-8). A semântica da fecundidade,

como tudo o mais na poética do “traste”, tem algo de negativo, que a situa

numa periferia da palavra utilitária. Os fragmentos citados revelam essa

negatividade: as coisas aqui só se desenvolvem para o menos, e é esse

menos que institui a plenitude. Serão plenas na medida em que forem

compreendidas nessa outra lógica. Há que ver o mundo dos seres numa

dimensão de novidade, de quebra das barreiras do já-dado, em direção ao

jorro, ao que vai mais longe que o costumeiro.

No documento UMA POÉTICA DO DESLIMITE (páginas 73-78)