PRANCHAS REFERENTES AO CAPÍTULO
OS PRINCÍPIOS DO NOVO URBANISMO
9. Promover uma nova qualidade urbana: das funcionalidades simples a
um urbanismo multisensorial.
10. Adaptar a democracia à terceira revolução urbana: O governo das cidades deverá ser efetivado a partir do ideal de governança urbana, definido como um sistema de dispositivos e de modos de ação que congregue as instituições de representantes da sociedade civil com o objetivo de elaborar e realizar as políticas e as decisões públicas.
Dentro desse contexto, consideramos oportuno inserir nas discussões aqui travadas, uma análise a partir do exposto no livro Projets Urbanis em France (2002), idealizado e produzido pelo Ministére de l’Équipement, des Transports, du Logement, du Tourisme et de la Mer . Esta obra é apresentada como importante publicação que objetiva a difusão do ideário urbanístico francês, a partir da lógica da gestão urbana empresarial, com uma ênfase atribuída aos Grandes Projetos Urbanos. Na referida obra, o discurso apresentado aponta para uma política que objetiva a descentralização das ações, de forma a contemplar, a partir de um mesmo ideário, regiões que se situam em áreas fora do domínio da região parisiense. Esta obra utiliza, além de um quadro discursivo, preponderantemente legitimador das práticas estabelecidas, um aparato imagético – mapas, desenhos e
fotografias –, com o intuito de atestar a “veracidade” desse ideário. (VER PRANCHA 9, p. 182)
Sob o ponto de vista dos discursos apresentados na primeira parte da referida obra58 – proferidos por acadêmicos, arquitetos, urbanistas, economistas, jornalistas, e gestores urbanos –, o urbanismo francês é reconhecido não apenas pelo que já foi feito, com relação às obras de caráter monumental. Na contemporaneidade, testemunha-se uma grande diversidade de conceitos, de formas urbanas, de programas, que partem da necessidade do estabelecimento de novos paradigmas, a partir da atestação de uma crise da cidade, visto que os problemas urbanos crescem de maneira cancerosa em torno das pré-existências. Neste âmbito o ideário do Projeto Urbano surge como uma mensagem de esperança, em busca da defesa dos valores urbanos, sem nostalgia nem passadismo, posto sobre a dinâmica da época.
Estas questões estão presentes no urbanismo francês contemporâneo, que tem a descentralização das ações, a valorização da escala local e a alquimia entre patrimônio e modernidade como pontos fundamentais dentro do ideário da regeneração/requalificação das cidades.
Neste âmbito, percebe-se a perspectiva da constituição de novas centralidades gerada, a partir dos anos 1980, com a descentralização dos poderes, onde as decisões sobre urbanismo e gestão urbana passam a ser atribuições articuladas entre estado e coletividades locais: são criados, pelo estado, estabelecimentos públicos de organização, a serviço dos grandes interesses nacionais. Entretanto, notifica-se que são raros os casos em que a condução do projeto é de cunho estritamente municipal. A negociação aparece como
58 Constam desta parte, o prefácio, escrito pelo engenheiro François Delarue; a introdução, e o artigo “Le
projet urbain à la française”, pela arquiteta urbanista Ariella Masboungi; os artigos “Jalons pour une histoire de lúrbanisme en France”, pelo filósofo e editor , Thierry Paquot; “Les perspectives de l’aménagement”, pelo engenheiro Francis Ampe; “Le projet urbain et ses régles d’aujourd’hui”, pelo
arquiteto urbanista François Grether; “La maîtrise d’ouvrage à La française”, pelo inspecteur general de
l’équipement, Guy Faure; “Le renouveau des politiques foncières”, pelo economista Vincent Renard; “Trois lois fondatrices d’un renouveau des démarches territoriales”, pelo gestor urbano Jean Frébaut; e, “Les silences des agneaux”, pelo jornalista Fréderic Edelman. Dentre estes artigos, a pena o de Edelman traz uma
postura crítica frente ao ideário requalificador exposto pela política de planejamento urbano-territorial apresentada.
palavra-chave, dentro da idéia de sociedade de economia mista, que prima pelo princípio da facilitação.
Sob este aspecto, identifica-se a intenção de trabalhar com a idéia de Mixité Sociale, onde a parceria público-privado tem papel fundamental, apesar do discurso oficial tentar deixar claro que as práticas do urbanismo contemporâneo francês e os Projetos Urbanos decorrentes são coisas eminentemente públicas, mesmo com a forte presença da iniciativa privada.
Diante da comprovação da necessidade de mudança de parâmetros institucionais – porque os modos de vida de hoje não correspondem mais aos territórios anteriormente instituídos – a construção de uma nova legislação sobre a organização e o desenvolvimento dos territórios na França é apresentada como uma verdadeira ruptura.
Neste quadro, são indicadas três leis que irão orientar a recomposição deste território, na intenção de transformar radicalmente as relações entre o Estado Central e as coletividades locais. A Lei Voynet (de 25 de junho de 1999), consta de uma orientação para a busca do desenvolvimento durável do território e dá corpo ao Projeto de Território, preparado à escala das aglomerações e / ou do país; A Lei Chevènement ( de 12 de julho de 1999), reforça e simplifica a cooperação intercomunitária, a partir da instituição de três tipos de agrupamentos: comunidades urbanas, aglomerações e comunas. Promove uma dotação global de funcionamento atrativo, com taxa profissional única, evitando assim a concorrência entre as comunas; e a Lei Solidarité et Renouvellement Urbains (de 13 de dezembro de 2000): institui reformas nos documentos de urbanismo, constando não só de regulamentos, mas também de estratégias. As referidas leis constam de documentos setoriais, associando todos os parceiros na sua elaboração, inclusive, o estado.
Como parâmetro comum entre as leis, consta a obrigatoriedade de diálogos entre as coletividades públicas, considerando que as referidas leis regulam a mobilidade entre as várias escalas do território, incluindo as áreas periurbanas. Assim, busca-se a consagração
de uma nova realidade: o estado-Centro repensado, manifesto na imagem recorrente do banlieue (periferia) nas proximidades.
Torna-se senso comum também uma meta a ser alcançada no que concerne à articulação entre as operações de urbanismo e as operações públicas: dentro do contexto as Zones de Amenagement Concerté (ZAC) – instituídas desde 1967 – constituem-se no quadro jurídico e administrativo para a realização dos processos urbanísticos referentes ao quadro instituído, atuando em consonância com duas grandes famílias de organização: Les Établissements Publics d’Aménagement (EPA) e Les Societés d’Économie Mixte (SEM).
A primeira – (EPA) – funciona sob a tutela do estado, que assegura o risco financeiro final das intervenções. Procura-se sempre contar com o consenso das coletividades locais concernentes. As decisões são tomadas no seio de um Conselho de Administração composto a partir de Administradores do Estado e de Administradores eleitos dentro das coletividades locais.
A segunda – (SEM) – surgida nos anos 1950, se constitui em operações criadas pelas coletividades locais como sociedades de direito privado, cujo capital é constituído majoritariamente por ações de coletividades públicas.
Dentre a prática urbanística, há uma ênfase nas Zones de l’Urbanizatión Prioritées (ZUP), a definir grandes conjuntos urbanos a serem tratados urbanisticamente, e os novos Plans Locaux de l’Urbanisme (PLU), que são amparados na lei Solidarité et Renouvellement Urbains, que toma por prioridade a definição de uma estratégia explícita e não somente a simples definição de um conjunto de regras limitativas.
Tais ações são apresentadas como pontos inovadores, carregados de originalidades, a partir de dois aspectos predominantes: a dupla natureza das ações (entre concepção e operação); e a idéia de que mesmo sendo a ação de caráter público, não deve haver impedimento de que a gestão da referida ação funcione a partir de uma lógica de cunho empresarial.
Os difusores desse novo urbanismo salientam também que a atestação deste caráter de diversidade não exclui a existência de algumas constantes nos projetos urbanos que representam esta forma de produzir o espaço urbano na contemporaneidade, sendo algumas destas constantes:
1. Lugares de intervenção: zonas industriais, portuárias, ferroviárias, em processo de