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2. A CENTRALIZAÇÃO DA POLÍTICA DE EPT PELO PRONATEC

2.1. O PRONATEC COMO PARTE DO PLANO BRASIL SEM MISÉRIA

Segundo Campello e Mello (2014), o Pronatec foi concebido e criado praticamente ao mesmo tempo do Brasil sem Miséria - BSM, ou seja, nos primeiros meses do governo 2011- 2014. Assim, partindo das mesmas premissas do Plano, considerou desde o princípio a necessidade de atingir públicos específicos, especialmente os extremamente pobres, e de possuir capacidade de escala e perspectiva nacional, aliada ao respeito à diversidade regional. Também estava presente a necessidade de adotar ferramentas de execução capazes de garantir a tempestividade e a efetividade da execução das metas e, por sua vez, de possuir metas e resultados passíveis de acompanhamento e monitoramento, como no restante do BSM.

Do ponto de vista da intersetorialidade, os mecanismos de coordenação entre os atores se colocavam desde o processo de formulação, prezando pelo aproveitamento de “sinergias que não seriam exploradas caso atuassem isoladamente. Trabalhando juntos, os parceiros potencializam sua atuação para proporcionar a toda a população, inclusive às pessoas mais pobres e mais difíceis de alcançar, o acesso aos serviços de caráter universal” (COSTA e FALCÃO, 2014, p. 14).

A clara prioridade que o BSM tinha para o governo ficava patente em todos os pronunciamentos ministeriais, da Presidência da República e nos documentos institucionais. Havia envolvimento direto da presidente, de 22 ministérios e de uma série de atores estaduais, municipais, da sociedade civil e mesmo do setor produtivo. O Pronatec, nesse cenário do Plano, era uma política agregadora que atendia diversos atores e se relacionava com várias outras políticas. Ao elencar os atores do BSM, os já citado autores listam os órgãos e entidades da administração direta e indireta, mas também incluem órgãos do setor privado e do terceiro setor, “empresas privadas da área de construção civil e de vários outros setores que vêm contratando egressos do Pronatec Brasil sem Miséria e empresas do setor varejista de alimentos que vêm comprando produtos da agricultura familiar” (idem, p. 5). Percebe-se, nesse sentido, que o Pronatec era compreendido como uma rede que se envolvia na questão mais ampla da inclusão produtiva.

47 Em geral, planos dessa monta e intersetoriais, com a participação de tantos atores, são coordenados por órgãos centrais da administração federal, como Ministério do Planejamento ou Casa Civil. Diferentemente, no caso do BSM a coordenação foi delegada a um ministério setorial, o MDS, e no caso do Pronatec, ao MEC. Para Costa e Falcão (2014, p. 19), esta foi uma grande inovação no arranjo do governo federal, que inicialmente gerou surpresa, mas posteriormente mostrou suas vantagens. Os autores destacam que esta configuração foi possível, no caso do MDS, em função de três fatores. Pode-se dizer que eles também se aplicam ao caso do Pronatec: a liderança política que estabeleceu indubitável prioridade de governo, a clara designação do órgão coordenador e contato direto entre o ministro da pasta e a presidente. Os recursos e a operacionalização dos programas se mantinham em cada ministério, mas a centralidade do MDS se dava em função do apoio aos demais órgãos, do ponto de vista da prioridade política atribuída ao Plano, do orçamento viabilizado e mesmo dos aprendizados institucionais decorrentes da inserção dos programas no BSM. A qualificação das equipes gestoras do BSM e a existência de uma Secretaria Extraordinária para geri-lo também foram aspectos marcantes para a construção desse desenho e, posteriormente, para a manutenção da figura de coordenação.

O monitoramento e a avaliação das ações do Plano se davam em salas de situação temáticas, com reuniões periódicas, no modelo então já adotado pelo Plano de Aceleração do Crescimento – PAC. Costa e Falcão (2014, p. 23) detalham que, inicialmente, havia uma sala de situação para cada área. Elas eram compostas por equipes intersetoriais diferentes e “configuraram-se como instâncias de caráter gerencial e informacional que permitiram o acompanhamento detalhado das ações, com levantamento de restrições, atrasos, possíveis riscos e resultados atingidos”. As reuniões eram mensais ou bimestrais, dependendo da ação, e as informações coletadas subsidiavam as decisões tomadas.

No âmbito do Pronatec, rotina similar era desenvolvida sob coordenação da Secretaria Executiva do Ministério da Educação, com a realização periódica de pontos de controle com todos os atores do MEC envolvidos com o programa, em especial SETEC e Diretoria de Tecnologia da Informação – DTI. Com o caminhar do BSM, as salas de situação da área educacional deixaram de ser realizadas, muito provavelmente porque já estava instalada no próprio Ministério a rotina de monitoramento periódico das ações, utilizando como ferramenta

48 o Sistema Integrado de Monitoramento Execução e Controle – SIMEC8, ao qual tinham acesso outros órgãos do governo, entre eles o Ministério do Planejamento e a Presidência da República Como um dos diagnósticos do BSM era de que a oferta de cursos de EPT era desarticulada das demandas do setor produtivo e dos seus públicos prioritários, mais um ponto se somava à necessidade de transformação do modelo vigente. Com isso, outros ministérios, das áreas sociais e econômicas, passaram a compor o programa. Para o MEC, foi o modelo adotado que

permitiu um avanço na direção do alinhamento entre a demanda e a oferta, possibilitando ainda a identificação e atendimento às áreas que não estavam sendo assistidas devidamente. O modelo anteriormente aplicado induzia que os ministérios, que tinham demandas por formação profissional, buscassem atendê-las a partir de necessidades específicas de cada um, levando a possível sobreposição de ações e tornando difícil a mensuração dos resultados alcançados, uma vez que não havia uma gestão centralizada dos cursos ofertados (BRASIL, 2014c, p. 32).

2.2. A TRANSFERÊNCIA DA COORDENAÇÃO DA POLÍTICA DE EPT PARA O