3 SOB O OLHAR DA LINGUÍSTICA DA ENUNCIAÇÃO: CONCEITOS
3.1 PRONOMES E VERBOS: AS MARCAS DO SUJEITO NA LÍNGUA
Apresentaremos, neste momento, com base na Gramática Normativa (CUNHA;
CINTRA, 2008) e na Gramática de Usos (MOURA NEVES, 2011), a classificação e a exemplificação das duas classes gramaticais que serão identificadas, descritas e categorizadas em nosso corpus de análise: os pronomes e os verbos. Esse procedimento será necessário para
66 A versão que utilizamos neste estudo é a de 2008.
esclarecer como realizamos a etapa metodológica de descrição, ou seja, como foram construídas as tabelas com os dados quantitativos observados no corpus, que serão apresentados no capítulo 5.
Considerando que o objetivo que norteia esta pesquisa, como reforçamos anteriormente, é esboçar um perfil de ethos que emerge de um discurso feminista, em dois manifestos de divulgação, a partir do emprego de pronomes e verbos que auxiliam a articulação da noção de ser mulher, discutiremos, com base na LE, as classes gramaticais, pronomes e verbos. Para isso, trazemos a ideia central de Benveniste, presente no artigo Da subjetividade na linguagem (1958), publicado em Problemas de Linguística Geral I ([1966] 1995), em que o autor questiona o fato de a linguagem ser considerada um instrumento de comunicação, já que transmite algo e provoca no outro um determinado comportamento. Entretanto, compará-la a outros instrumentos (flecha, roda, picareta) pode nos tornar um pouco desconfiosos, pois, ao consideramos a linguagem como instrumento, estaríamos pondo em oposição o homem e a natureza.
Nesse viés, o autor chega à conclusão de que a linguagem não pode ser considerada um instrumento porque está na natureza do homem e, os outros instrumentos, como os citados anteriormente, não estão na natureza pois são fabricações. Em suma, a linguagem não pode ser vista como um instrumento porque é essência, visto que é “na linguagem e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito” (BENVENISTE, [1958] 1995, p. 286, grifo do autor).
Nossa pesquisa encontra, pois, embasamento nesse pressuposto, considerando que os mecanismos linguísticos (pronomes e verbos) que serão mobilizados na categoria metodológica, a nosso ver, não são instrumentos de comunicação. São, na verdade, essências – pois estão inseridos na linguagem por meio de um homem (sujeito) que se apropria da língua e a coloca em funcionamento por um ato individual de utilização – que emergem dos textos manifestos de divulgação, parte corpora deste estudo.
No que se refere aos pronomes pessoais, Cunha e Cintra (2008) postulam que os mesmos se caracterizam por denotarem as três pessoas gramaticais, no singular e no plural: quem fala (eu, nós), com quem se fala (tu, vós) e de quem se fala (ele/ela, eles/elas). Além disso, eles podem variar de forma segundo a função que desempenham na oração ou a acentuação que nela recebem. Desse modo, quanto à função, eles podem ser retos, quando desempenham o papel de sujeito, ou oblíquos, quando são empregados como objeto direto ou indireto67. Nesse último
67 Doravante OD e OI.
caso, quando o OD ou o OI representam a mesma pessoa ou coisa que o sujeito do verbo, o pronome é reflexivo. O quadro a seguir ilustra a correspondência entre essas formas.
Quadro 1 – Formas dos pronomes pessoais Fonte Adaptada de (CUNHA; CINTRA, 2008, p. 221).
Entretanto, Benveniste ([1956] 1995)68, no texto intitulado A natureza dos pronomes, realiza uma sistematização não estrutural dessa classe, ou seja, como um fato de linguagem, tendo em vista que as diferenças não são apenas formais, impostas pela natureza morfológica e sintática das línguas, mas, eu e tu estão presentes na realidade do discurso e não têm valor a não ser na instância em que são produzidos. O enunciado que contém eu é pragmático e essa forma só tem existência linguística no ato de palavras que a profere; eu é o indivíduo que enuncia a presente instância de discurso que contém a instância linguística eu (BENVENISTE, [1956]
1995). No que se refere a ele (considerada a não pessoa), difere de eu e tu por sua função e natureza, já que é substituto abreviativo, tem a possibilidade de combinar com qualquer referência de objeto, não é reflexivo da instância de discurso, admite plural, entre outras especificidades. Ainda, no texto Estrutura das relações de pessoa no verbo, Benveniste ([1946]
1995)69 discute, de forma distinta do que nos é tradicionalmente apresentado, que nós não é plural de eu, assim como vós não é plural de tu. Isso porque a unicidade e a subjetividade inerentes a eu impossibilitam uma pluralização, assim, nós não pode ser a multiplicação de eu, que é sempre único e singular. Nesse sentido, compreendemos que o eu constitui o nós, uma vez que há em nós um eu que predomina.
A partir da leitura do texto sobre os pronomes, Flores (2013, p. 94, grifo do autor) assevera que a “linguagem impõe às línguas que ‘reservem’ lugares de pessoa e não pessoa,
68 Referimo-nos à obra Problemas de Linguística Geral I (1966). O texto A natureza dos pronomes é de 1956.
69 Referimo-nos à obra Problemas de Linguística Geral I (1966). O texto Estrutura das relações de pessoa no
verbo é de 1946.
sem o que não seria possível falar”. É nessa perspectiva que optamos por analisar a classe dos pronomes pessoais do caso reto, nas primeiras pessoas do singular – por manifestarem como o locutor se marca na materialidade linguística, revelando o processo de apropriação da língua e a subjetividade na linguagem, no caso das pessoas eu-tu – e nas terceiras pessoas, as quais
“substituem um ou outro dos elementos materiais do enunciado ou revezam com eles”
(FLORES et al, 2013, p. 78).
De acordo com Benveniste ([1956], 1995, p. 282, grifo do autor), “há enunciados de discurso, que a despeito da sua natureza individual, escapam à condição de pessoa, isto é, remetem não a eles mesmos, mas a uma situação ‘objetiva’”. Com isso, ao analisar a não pessoa (terceira pessoa) será possível observar como o locutor, ao tornar-se sujeito, tende a objetivar seu texto e ao abordar a noção de ser mulher deixa emergir a imagem de um ser que se distancia da posição mulher, afastando-se da luta. Porém, de maneira concomitante, acaba difundindo as ideias feministas como ferramentas democráticas, confirmando uma das características principais do gênero manifesto de divulgação.
É importante salientarmos que a análise na qual nos propomos a fazer não desconsidera outros tipos de pronomes ou classes de palavras, tendo em vista que detalhes ou indícios, que em um primeiro momento são aparentemente negligenciáveis, também podem contribuir para esboçar um fenômeno mais geral, como o ethos. Essa noção ficará mais clara na seção correspondente à metodologia, na qual explicitaremos nosso método de análise pautado na transversalidade enunciativa, de Flores (2010), e no paradigma indiciário, de Ginzburg (1989).
No que concerne aos verbos, segunda classe gramatical que observamos no corpus, “em geral, constituem os predicados das orações” (MOURA NEVES, 2011, p. 25). Tal classe pode ser caracterizada como uma palavra variável que exprime um acontecimento representado no tempo e exerce função obrigatória de predicado (CUNHA; CINTRA, 2008). O verbo possui três pessoas relacionadas com a pessoa gramatical que lhe serve de sujeito, podendo estar no singular ou no plural. Essa classe de palavras apresenta variações de número (singular/plural), pessoa (1ª, 2ª e 3ª), modo (indicativo, subjuntivo e imperativo), tempo (presente, passado e futuro), aspecto e voz (ativa, passiva e reflexiva). Quanto à flexão, o verbo pode ser regular, irregular, defectivo e abundante, além de apresentar três formas nominais: infinitivo, gerúndio e particípio. O quadro a seguir mostra a relação entre pessoa e número, exemplificando o verbo de primeira conjugação “andar”, no tempo presente do modo indicativo.
Quadro 2 - Variações de pessoa e número dos verbos
No texto Estrutura das relações de pessoa no verbo, Benveniste ([1946] 1995, p. 247) afirma que “o verbo é, com o pronome, a única espécie de palavras submetidas à categoria de pessoa”. Declara, ainda, que “não parece que se conheça uma língua dotada de um verbo na qual as distinções de pessoa não se marquem de uma ou de outra maneira nas formas verbais (BENVENISTE [1946] 1995, p. 250).
A fim de comprovar tal tese, o autor apresenta a análise da conjugação verbal de línguas descritas tradicionalmente como comportando verbo indiferenciado para as pessoas do discurso. Pontua, então, que a partir da gramática grega, a maioria das línguas considera três pessoas verbais, entretanto, a partir dos gramáticos árabes, a primeira pessoa é “aquele que fala”, a segunda “aquele a quem nos dirigimos” e a terceira “aquele que está ausente”. Nesse texto, a distinção entre eu-tu, pessoas, e ele, não pessoa, como já mencionamos anteriormente, é mais desenvolvida teoricamente. O que cabe pontuar, nesse momento, é que a análise do autor no que diz respeito aos verbos considera a língua em uso, ou seja, a expressão na instância de discurso que o contém. Ademais, observa-se a maneira como o tempo é controlado por essa classe de palavra e como a categoria de pessoa se marca no verbo. É em função dessa última observação que, nesta pesquisa, nosso foco recai nas variações de pessoa e número dos verbos, em função de como o locutor se marca na materialidade linguística. Novamente, cabe destacar que isso não significa desconsiderar, na análise, as outras variações dessa classe morfológica, como o tempo e o modo, por exemplo, uma vez que elas também podem revelar o processo de apropriação da língua pelo locutor.
A seguir, no capítulo 4, apresentaremos as escolhas metodológicas, na qual abordamos o método analítico, o corpus e as etapas de desenvolvimento dessa pesquisa.