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2 SOBRE A CONSTRUÇÃO DA PESQUISA: EVIDENCIANDO PONTOS DE

3.3 PROPOSIÇÕES SOBRE O DISPOSITIVO DA FAMÍLIA

Considerando as abordagens anteriormente destacadas sobre família na articulação com alguns dispositivos, buscamos neste tópico apresentar o dispositivo da família a partir de algumas proposições. Não temos por objetivo traçar um conceito acerca desse dispositivo, mas evidenciar alguns dos modos pelos quais ele vai sendo construído, atualizado, de forma a operar na produção de sujeitos e subjetividades.

Assim sendo, com base em Foucault (2015b), compreendemos que cada dispositivo está relacionado a um objetivo estratégico que diz respeito a sua capacidade de responder a uma determinada urgência histórica. O que significa que os dispositivos são produzidos e se atualizam, conforme as condições dadas historicamente, resultado de lutas de poder-saber-verdade. O autor argumenta que “é isto o dispositivo: estratégias de relações de força sustentando tipos de saber e sendo sustentadas por eles” (FOUCAULT, 2015b, p. 367).

O dispositivo da família, nessa acepção, tem uma história ligada a situações contingentes. Ao longo dos séculos, ela foi sendo produzida de diferentes maneiras e exercendo diferentes funções sociais, conforme saberes específicos que a produziam e imbricada à sexualidade, à aliança e à segurança.

Apoiando-nos em Foucault (2002, 2006, 2015a, 2015b), visibilizamos assim a urgência histórica da família heterossexual moderna, baseada nos princípios do casamento monogâmico entre um homem e uma mulher, no afeto, no cuidado com a saúde das crianças, na filiação biológica e na preocupação com o patrimônio. Nesta família, ao homem é reservado o espaço social e o provimento do lar, já o espaço doméstico é reservado à mulher, bem como o cuidado com os/as filhos/as e o exercício da maternagem.

O dispositivo da família opera com as discursividades de distintos elementos que se voltam a produzi-la e legitimá-la como instância de cuidado e de afeto, em que há um imbricamento de normas, leis, proposições médicas, jurídicas, morais, bem como uma preocupação com a disposição arquitetônica do lar, isto é, a divisão dos cômodos da casa. Há uma produção discursiva que fala sobre seus membros, que estabelece normas para a construção das relações de conjugalidade e parentalidade. Este dispositivo, no entanto, se viabiliza, pois, articulado a outros dispositivos que lhe dão sustentação, como a aliança, a segurança e a sexualidade, bem como pode se articular a outros ainda que aqui não consideramos, como o de maternidade, de infantilidade, de gênero.

Tal dispositivo é produzido por linhas que lhe dão condição de existência, de visibilidade, enunciabilidade, as quais possibilitam produzir os sujeitos. Assim, no dispositivo

da família podemos identificar a operação das curvas de visibilidade (as formas pelas quais as famílias se tornam visíveis, como ela é produzida em imagens, ilustrações, propagandas) juntamente aos regimes de enunciação (o que torna possível ser dito sobre elas, seus conceitos, funções, normas). Conforme Marcello (2003, p. 81),

Tais unidades (visível e enunciável) só podem ter existência a partir da combinação meticulosa entre palavras, frases e proposições; a partir de um entrecruzar específico que, então, lhe confere condição de existência.

As curvas de visibilidade e os regimes de enunciação são encontrados, pois, no conjunto de discursos jurídicos, religiosos, pedagógicos, midiáticos, etc., que tornam possível visibilizar e falar em famílias ou família, em sua pluralidade de configurações ou a partir de um modelo único. Formas de ver e falar que não ficam circunscritas no interior do discurso do Direito, da Igreja, da Pedagogia ou demais instâncias, mas que se propagam pela sociedade, constituindo o discurso da Família, ou das Famílias, e sendo enveredado por outras visibilidades e enunciabilidades.

Nos regimes e curvas, observamos a operação das linhas de forças, pois estas delimitam e traçam os percursos que ambos irão percorrer (MARCELLO, 2003). Apoiada em Foucault, Marcello (2003, p. 87) afirma que elas

[...] fixam os jogos de poder e as configurações de saber que nascem do dispositivo, mas que também o condicionam, ou seja, estabelecem estratégicas relações de força, sustentando tipos de saber ao mesmo tempo em que são sustentadas por ele.

As linhas de força operam no dispositivo da família, perpassando-o de um ponto a outro e em toda a rede que o articula. Tais linhas compõem as relações de saber e poder que constituem o dispositivo e produzem suas diferenças internas. Além disso, no dispositivo da família ainda se encontram as linhas de subjetivação que, nas palavras de Suzana da Conceição de Barros (2014, p. 147), são as que “estão envolvidas com a produção de si dos sujeitos”, mas também que lhes possibilitam escapar ao que é prescrito por um dispositivo. Neste sentido, Deleuze (2005) nos propõe a pensar se as linhas de subjetivação não predispõem as linhas de fratura, na medida em que estas possibilitam a atualização do dispositivo.

Deste modo, estabelecer a família como um dispositivo significa compreendê-la a partir de um entrelaçamento de diferentes linhas, curvas e regimes. Linhas de força, curvas de visibilidade e regimes de enunciação que estão ligados a discursos (políticos, científicos,

religiosos, jurídicos, pedagógicos, envolvidos com a produção do conceito de família e demais questões que a envolvem); leis e normas sociais (que regulamentam o a família, seu conceito, finalidade, deveres, direitos, obrigações, etc.); organizações arquitetônicas (na medida em que a família está relacionada às pessoas que habitam o mesmo ambiente doméstico, isto é, a casa/o lar, quem deve ocupar cada cômodo, de que forma deve haver essa distribuição), disposições jurídicas, entre outros elementos heterogêneos.

As linhas de subjetivação propostas por Gilles Deleuze (2005) podem associar-se também ao que propõem Giorgio Agamben (2005) e Luis García Fanlo (2011). Tais autores discorrem sobre a capacidade dos dispositivos de produzirem sujeitos e subjetividades. Na acepção de Agamben (2005), podemos compreender que as subjetividades resultam do corpo-a-corpo entre os seres e os dispositivos, como uma relação que constitui os sujeitos segundo processos de luta e subjetivação. No dispositivo da família, os sujeitos são, portanto, um produto (nunca pronto) das relações que estabelecem com as discursividades que compõem este dispositivo. Assim, são fabricadas as maternidades, as paternidades, as conjugalidades e as relações de filiação e parentesco.

Para García Fanlo (2011, p. 6), um dispositivo “produce distintos tipos de subjetividades en cada momento histórico20”. Nesta acepção, emergem historicamente distintas regras sobre família e procedimentos que são inscritos nos corpos e que viabilizam determinados comportamentos, posturas, pensamentos, desejos, significados e atitudes pelos sujeitos, os quais correspondem ao campo de ação desse dispositivo, ou seja, o tipo de sujeito que ele pretende produzir.

O dispositivo da família, ao produzir distintas subjetividades, nos interpela por um discurso de saber-poder que nos faz desejar sermos reconhecidos enquanto família, nos faz desejar construir uma família, ser ou pertencer a uma família, segundo conceitos que são produzidos a partir de determinadas configurações de tempo e espaço. Este desejo de entrar na ordem do discurso da família pode, então, possibilitar que diferentes arranjos, uniões, laços, passem a ser reconhecidos, na forma da lei, como família. Tal processo de reconhecimento, funcionando a partir de linhas de fratura, vem a transformar o próprio conceito de família, produzindo uma reatualização.

Desta forma, conforme afirma García Fanlo (2011), um dispositivo não é sempre o mesmo, como não produz sempre os mesmos resultados. Portanto, se atualiza conforme as transformações sociais, culturais e históricas. Podemos considerar, ademais, que cada cultura e

20 “Produz distintos tipos de subjetividades em cada momento histórico” (tradução nossa).

sociedade produz seus dispositivos de formas específicas, de modo que o dispositivo da família, no contexto brasileiro, pode operar segundo processos próprios que ora podem se assemelhar, ora divergir de outras culturas e sociedades.

Assim, com as transformações históricas em torno das distintas formas como os sujeitos produzem seus arranjos familiares, visibilizamos a atualização do dispositivo familiar com a alteração do conceito de família, que também é dado pelo ordenamento jurídico brasileiro, como explicitaremos a seguir.

Para tanto, adiante apresentamos algumas discussões em torno do conceito de família, tendo em vista a sua exploração como elemento que dá a ver a operação e fabricação de um dispositivo familiar.