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1. APORTES POLÍTICO-PEDAGÓGICOS DE PAULO FREIRE

2.4 Proposta curricular do município de Cajamar SP

Como a escola não é uma unidade autônoma, embora possua certa autonomia, deve-se pensá-la no contexto da rede a qual está vinculada, o Município.

A proposta curricular do município de Cajamar foi elaborada a partir de um trabalho conjunto envolvendo os profissionais da Secretaria da Educação do Município e os professores da rede que discutiram suas questões durante os momentos de Horário de trabalho pedagógico coletivo (HTPC), entre os anos de 2010 e 2011. Este trabalho traz como concepção, a liberdade de organizar o próprio currículo como meio de explicitar as concepções pedagógicas da rede, de forma sistematizada, porém distintas dos moldes reprodutivistas caracterizados pelas cartilhas, ou mesmo apostilas, cujas sequências didáticas chegam prontas.

Este material foi organizado em cinco cadernos denominados: Caderno de Diretrizes, Caderno da Educação Infantil, Caderno do Ensino Fundamental, Caderno da Educação de Jovens e Adultos e caderno de relatos da Prática. O intuito, com esse material, foi orientar as escolhas e práticas a serem desenvolvidas nas escolas e nas salas de aula, ampliando a autonomia e a capacidade de produção de conhecimento.

Abordamos na introdução deste trabalho, aspectos relacionados ao perfil e ao contexto histórico social da população de Cajamar e de acordo com os documentos que referenciam a proposta curricular do município. Esta identificação da população subsidiou a elaboração da proposta curricular do município. A proposta curricular, segundo o documento Diretrizes Curriculares organizado pela Diretoria de Educação de

Cajamar no ano de 2012, baseia-se na abordagem sociointeracionista, segundo a qual, as pessoas se desenvolvem nas relações intersubjetivas, que se humanizam nas relações sociais, de modo que sua atividade mental é construída nestas relações. Coerente com esta perspectiva, cabe à escola oportunizar às crianças e aos adolescentes, as melhores e as mais positivas vivências, a fim de que possam construir suas aprendizagens para a vida, com qualidade e significado.

Ao longo do texto de apresentação, a proposta cita o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e outros documentos oficiais da educação brasileira.

No currículo proposto para o ensino fundamental, salienta-se a importância de ouvir a população escolar, reforçando que é esta escuta que contribuirá para o sucesso do trabalho pedagógico, que se considera ser de boa qualidade. No Caderno Diretrizes, são propostas algumas questões para reflexão dos educadores, tais como:

1. O que se espera da escola?

2. Como alcançar as metas propostas?

3. Qual perfil de pessoas pretende-se formar? 4. Para qual sociedade?

5. O que ensinar?

6. Qual o papel do professor? 7. Qual papel da gestão? 8. E da família?

A bibliografia que orienta os caminhos a serem traçados pela proposta curricular, é composta por obras de autores como; Paulo Freire, José Carlos Libâneo, Pablo Gentili, Ester Buffa, Miguel Arroyo, Paolo Nosella, dentre outros, o que demonstra, em tese, a opção por uma pedagogia crítica e emancipadora, que pensa a escola em uma perspectiva de igualdade de oportunidades, organizada para abarcar a diversidade, que cumpra sua função social de garantia ao acesso aos conhecimentos produzidos pela humanidade, atuando no combate às injustiças e desigualdades de todos os tipos.

Dentre outros, a proposta considera como desafios:

1. Consolidar a concepção ampliada de alfabetização e de educação integral.

2. A reorganização curricular que inscreve neste cenário de demandas como política estratégica de qualificação da ação escolar (pedagógica e

de gestão), na perspectiva de garantir a aprendizagem significativa dos alunos.

Os documentos foram elaborados para servir como referências para os profissionais da educação, para que elaborem projetos político-pedagógicos contextualizados. Neste sentido, as diretrizes educacionais devem explicitar a finalidade da ação educativa e, também, indicar caminhos a serem percorridos. O referencial curricular da rede aponta que tomou como desafio, propiciar a reflexão sobre a necessidade de atualização de conceitos de forma a garantir que o acúmulo de conhecimentos conquistados no campo da prática pedagógica e no campo das ciências e dos direitos sejam inseridos como parte do currículo da rede.

Descrevem-se nos textos que os profissionais da Educação do Município assumem em suas práticas que a escola deve propiciar a seus educandos o desenvolvimento das dimensões intelectual, emocional e afetiva, além das capacidades de interação, de tomada de decisões, do trabalho em equipe, do desenvolvimento da autonomia, do exercício da solidariedade, de acolhida e respeito às diferenças. Deixando claro, que o papel social da escola é garantir a apropriação dos conhecimentos sistematizados aos educandos, por meio das relações que estabelecem entre os conteúdos curriculares e a cultura em que estão imersos.

Em relação ao processo de inclusão, considera-se nas diretrizes curriculares que instituir uma escola para todos não é propor um ensino adaptado para alguns alunos, mas sim propor um ensino diversificado, que contempla as especificidades de cada um, no qual os alunos tenham condições de aprender, segundo suas próprias capacidades, sem discriminações e adaptações. Nesta perspectiva, a ideia do currículo adaptado está associada à exclusão dos alunos que não conseguem acompanhar o progresso dos demais colegas na aprendizagem.

Esta proposta considera que currículos adaptados e ensino adaptado negam a aprendizagem diferenciada e individualizada, visto que em uma proposta de escola homogênea (tradicional), o professor define as atividades que constituirão parte de seu ensino, controla o tempo e a produção dos seus alunos.

Ao analisar a proposta, observamos que os princípios de valorização individual dos educandos, a preocupação com o conhecimento de mundo, bem como a atenção ao contexto social no qual estão inseridos, se fazem presentes. Porém a ênfase da

aprendizagem é dada às disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática, o que nos faz refletir sobre a quem são dirigidos os interesses.

As abordagens dos conhecimentos a serem instituídos e a formação integral dos indivíduos também são contemplados nos discursos.

Mas quando nosso olhar se volta para a realidade do cotidiano escolar, observamos um cenário de contradições. A principal dela está na rejeição por parte de alguns professores desta proposta.

Segundo conversa informal, com uma supervisora de ensino e a diretora da escola na qual realizamos a pesquisa, alguns professores da rede gostariam que a prefeitura aderisse a algum sistema de ensino apostilado, o que ao nosso ver, seria um retrocesso, pois esta mercantilização do ensino impede que seja construída e instituída uma proposta que considere, de fato, as características da comunidade local. Parafraseando o autor Demerval Saviani, o apostilamento serve para “adestrar os alunos”.

Desta forma, passados cinco anos da implementação da proposta, segundo a diretora da escola, durante conversa informal, ainda há forte resistência por parte dos professores e por esta razão não está consolidada em grande parte das escolas da rede municipal de ensino, que inclusive considera a possibilidade de implantar um sistema de ensino apostilado na rede municipal. Estas questões nos remetem à reflexão sobre como estão sendo desenvolvidos os momentos de formação dos professores, após a implantação da proposta e sobre a visão que estes professores têm em relação ao próprio desenvolvimento intelectual e, portanto, sobre a qualidade do processo pedagógico que desenvolvem.

CAPÍTULO 3

CAPÍTULO 3

DA CONCEPÇÃO DE QUALIDADE À REALIDADE ESCOLAR

Sabemos que a concepção de qualidade se dá sob diferentes aspectos e que as análises que se fazem a partir daí, quando não parametrizadas, são subjetivas. Desta forma, ouvir os diversos segmentos nos permite compreender as diferentes representações em que este tema se apresenta na realidade escolar. Para subsidiar a elaboração dos roteiros e as devidas análises das entrevistas realizadas com os docentes e gestor, bem como os encontros com os discentes, apoiamo-nos nas cinco categorias de análises freirianas apresentadas no primeiro capítulo e nos aspectos referentes à qualidade descritas no segundo capítulo, que nos levam a refletir e constatar determinadas situações que retratam a realidade do processo pedagógico da escola em que a pesquisa foi desenvolvida e nos motivam a buscar soluções para os desafios apresentados durante esta trajetória.

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