A partir de reflexões feitas sobre uma educação antirracista amparada pela 10.639/03 que torna obrigatória o ensino étnico-racial nas escolas públicas e particulares, foi estruturada, como recomendação, uma proposta de ensino interdiciplinar para a Educação Infantil utilizando como ferramenta inicial a Literatura Infantil. Ao longo do cenário foram feitas sugestões didático-pedagógicas com o intuito de auxiliar o processo de execução da ERER. A proposta traz a BNCC como referência de documento normativo obrigatório, pois ela busca garantir o direito à aprendizagem e desenvolvimento da criança. Para viver em sociedade, é importante conhecê-la, e de acordo com a BNCC:
[...] é preciso criar oportunidades para que as crianças entrem em contato com outros grupos sociais e culturais, outros modos de vida, diferentes atitudes, técnicas e rituais de cuidados pessoais e do grupo, costumes, celebrações e narrativas. Nessas experiências, elas podem ampliar o modo de perceber a si mesmas e ao outro, valorizar sua identidade, respeitar os outros e reconhecer as diferenças que nos constituem como seres humanos.
Vale salientar, a proposta como flexível, ou seja, pode ser alterada caso seja necessário desde que a criança não saia prejudicada em seu processo de ensino-aprendizagem. O aprendizado é constante com isso, a proposta aqui apresentada não é linear, mas sim o início de um aprendizado processual.
PROPOSTA DE ENSINO INTERDISCIPLINAR NARRATIVA:O Amigo do Rei
1.IDENTIFICAÇÃO:
Faixa etária: 4 anos a 5 anos
2. EIXO TEMÁTICO: O Eu, o Outro e o Nós / Corpo, Gestos e Movimentos/ Traços, Sons, Cores e Formas 3. OBJETIVOS:
● Escuta atenta;
● Formação do leitor literário;
● Conhecimento do alfabeto;
● O Eu, o Outro e o Nós;
● Reconhecimento das diferenças e aceitação das mesmas;
● Demonstrar ideias;
● Entender nossas origens;
● Saber como nos constituímos.
4. CONTEÚDOS:
(EI03EO05) Demonstrar valorização das características de seu corpo e respeitar as características dos outros (crianças e adultos) com os quais convive.
(EI03EO06) Manifestar interesse e respeito por diferentes culturas e modos de vida.
(EI03CG02) Demonstrar controle e adequação do uso de seu corpo em brincadeiras e jogos, escuta e reconto
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de histórias, atividades artísticas, entre outras possibilidades.
(EI03CG05) Coordenar suas habilidades manuais no atendimento adequado a seus interesses e necessidades em situações diversas.
5. DINÂMICAS 1º aula:
1º momento:Acolhida: guardar mochilas, ir ao banheiro e encher a garrafinha, marcar a data no calendário e Música com as crianças.
- Normal É Ser Diferente - Grandes Pequeninos (música)
2º momento:Conversar sobre as atividades que teremos durante o dia. Posteriormente acontecerá aleitura guiada da história O Amigo do Rei. Algumas perguntas devem ser feitas ao longo para que haja uma dialogicidade entre o texto e o leitor.
Ex.: - O que é um rei ?
- Vocês têm um amigo que sempre está perto?
- De acordo com a imagem da capa, quem vocês acham ser o rei?
- O que vocês acham que vai acontecer na história ?
Figura 2: O Amigo do Rei
Fonte: Google imagens, 2022.
● Para contextualizar as história que será contada adiante é importante que o mediador conte resumidamente a história real da escravidão dos negros que foram trazidos a força para o Brasil.
O Amigo do Rei - Ruth Rocha Ilustrações Cris Eich
Coleção Vou te Contar Ed Salamandra
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O menino chamado Matias, tinha nascido de uma escrava. E naquela época na casa da fazenda nasceu Ioiô, filho do dono da fazenda. Matias era escravo de Ioiô.
Os dois brincavam juntos, e brincavam muito.
Mas quando brigavam, como todos os amigos brigam, Ioiô tinha sempre razão, porque Ioiô era o patrão.
Matias contava sempre para Ioiô que um dia ele seria rei. Ioiô ria, e perguntava como isso seria, e então Matias dizia que lá na terra dele, o pai dele era um grande rei e que assim ele também seria rei.
Ioiô não acreditava, mas Matias dizia "Vai chegar o meu dia".
Um dia Matias e Ioiô fizeram não sei o que não deviam e não podiam fazer, o pai de Ioiô ficou zangado e deu uma surra nos dois. Matias, que estava acostumado, nem ligou, mas Ioiô ficou sentido, zangado e então chamou Matias para ir embora.
Matias perguntou a Ioiô se ele não tinha medo, Ioiô não tinha medo não!
E os dois saíram juntos, entraram pela mata. A mata era perigosa, mas não para Matias, em cada curva havia uma indicação, e Matias entendia. Em cada clareira encontrava alimento, quando escurecia encontravam uma fogueira e os dois dormiam encolhidos junto ao fogo. Viajaram assim, por vários dias.
Um dia eles viram uma mata enfeitada, tambores tocando ao longe, e de repente gente - guerreiros enfeitados, pintados e armados. Ioiô teve medo e quis correr, mas os guerreiros se curvaram e saldavam Matias "Salve o nosso rei!"
Matias e Ioiô foram carregados até aquela aldeia diferente: uma aldeia de escravos fugidos - um quilombo.
Matias sorria e pensava: "Chegou o meu dia!"
Matias era o rei, e tudo o que ele queria os outros faziam. E Ioiô era amigo do rei... era quase rei. Mas a saudade chegou, e entrou no coração de Ioiô, então Ioiô quis voltar para casa.
Matias e seus guerreiros levaram Ioiô, voltaram pelos mesmos caminhos e quando viram ao longe a fazenda de Ioiô, Matias se despediu.. "Um dia a gente se encontra, quando meu povo não for mais escravo"
Matias voltou para a sua aldeia, muito lutou por sua gente, para que ninguém fosse escravo nunca mais. Muitos lutaram também.
Lado a lado, muitos negros, mulatos e brancos... e entre eles, Ioiô o amigo do Rei!
3º momento:Após a leitura serão feitas perguntas:
- O que você acha que poderia ter sido diferente na história?
- Será que a cor da nossa pele pode fazer mal?
- Se essa história fosse escrita diferente como ela seria?
- E se todo mundo fosse igual? como seria?
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- Explicar para elas que existem pessoas de diversas cores, tipos de cabelos e tamanhos diferentes e isso é bom.
- Dessa forma será entregue uma folha de papel chamex para cada criança com o modelo de rosto; as crianças irão fazer um desenho de como elas se enxergam; depois refletirão sobre as diferenças e as semelhanças que tem com o colega. Por fim, nesse desenho cada criança escreverá o próprio nome.
Figura 3: Molde de Rosto
Fonte: Google imagens, 2022.
2º aula:
1º momento:Acolhida: guardar mochilas, ir ao banheiro e encher a garrafinha, marcar a data no calendário e música com as crianças.
- Música Infantil De Respeito Às Diferenças E Diversidade (música)
2º momento:A professora retomará brevemente a história lida na aula anterior com as crianças. Colocar as crianças em círculo. Diga para elas observarem a si e aos colegas. Perguntar se todos têm a mesma cor de pele, olhos, cabelos? Se os rostos são iguais? Ou se todos têm o mesmo tamanho?
- propor uma brincadeira chamada “Gosto de você, por quê…” As crianças ficam em círculo. Uma criança vai ao meio da roda e fala a frase da brincadeira, completando a sentença com características físicas. As crianças que têm essa característica devem ir até o centro da roda e abraçar esse colega, depois todos devem correr de volta aos seus lugares. A criança do meio deve tentar encontrar também um lugar, quem ficar ao meio recomeça a brincadeira.
3º momento: Será apresentada uma música para apreciação das crianças: “Somos todos iguais” (Cristina Mel). será pedido que as crianças ouçam com atenção a letra da música. Depois terão a oportunidade de identificar os diferentes tipos de características físicas mencionadas na letra da melodia e, na segunda vez que ouvirem, terão a oportunidade de pintar o boneco nas cores que escolherem, utilizando tinta guache e pincel.
Cada criança receberá um boneco de papel para realizarem a pintura. Depois de seca a pintura serão distribuídos diferentes materiais para que livremente cada criança monte seu boneco de papel. As atividades serão expostas num varal, onde será anexada a frase “Mesmo diferentes, somos todos iguais”.
Figura 4: Molde de Corpo
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Fonte: Google imagens, 2022.
3º Aula:
1º momento:Acolhida: guardar mochilas, ir ao banheiro e encher a garrafinha, marcar a data no calendário e Música com as crianças.
- Mundo Bita - Todos os Povos(música) 2º momento:
- Explicação: Relembrar da história contada na primeira aula e levá-los a entender que assim como há pessoas diferentes, existem culturas diferentes e o Brasil é um país com muita diversidade de cores, pessoas e culturas.
- A partir da explicação será passado um vídeo sobre como se dá a mistura de raças no Brasil, ao final as seguintes perguntas serão realizadas:
- O que você percebeu das diferenças que temos em nosso país?
- Você acha que temos que respeitar todas culturas? Por quê?
Vídeo: https://youtu.be/wPyyyCzEf1M ou https://youtu.be/lj6mNucJ4Xw
3º momento: Nessa aula serão aplicadas brincadeiras descendentes dosAfricanos para que as crianças possam se familiarizarexemplos:
● Terra-mar (Moçambique) Parecida com (MORTO-VIVO)
Risque uma reta longa no chão. De um lado se escreve “terra”, no outro “mar”. Inicie a brincadeira com todas as crianças do lado “terra”. Ao falar “mar”, todas devem pular para o lado indicado, assim como ao falar “terra”, devem pular para o lado dito. Quem pular para o lado errado sai. O último a ficar vence.
● Ampe (Gana):
Um jogador é o líder. Os outros estão em um semicírculo, o líder fica de frente para o jogador que se encontra em uma das extremidades do grupo. O líder e o jogador batem palmas, pulam, e depois saltam e colocam um pé à frente. Se os dois colocarem o mesmo pé para frente, o líder está fora e o jogador vira líder. Se colocarem os pés diferentes, o líder se move para o próximo jogador e começa a mesma rotina. Um ponto é marcado cada vez que o líder é bem-sucedido. Cada jogador toma um rumo como um líder. Ganha quem obtiver mais pontos.
● Mamba (África do Sul) :
Marque e estabeleça os limites.Todos devem permanecer dentro dos limites. Escolha um jogador para ser a mamba (cobra). A cobra corre ao redor da área marcada e tenta apanhar os outros. Quando um jogador é
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pego, ele segura sobre os ombros ou a cintura do jogador que representa a cobra e assim sucessivamente.
Somente o primeiro jogador (a cabeça da serpente) pode pegar outras pessoas. Os outros jogadores do corpo podem ajudar não permitindo que os adversários passem, pois estes não podem passar pelo corpo da serpente. O último que não foi pego vence. (FREITAS; CUNHA, 2015)
4º Aula: 1º momento: Acolhida: guardar mochilas, ir ao banheiro e encher a garrafinha, marcar a data no calendário e Música com as crianças.
- Palavra Cantada | África(música) 2º momento: Oficina KABULETÊ
- Explicação da origem do instrumento.
- MATERIAIS:
1 pedaço de papelão;
1 fita crepe;
1 tesoura;
4 palitos de churrasco;
1 pedaço de barbante;
2 tampinhas;
Pincel e tintas/canetas de várias cores.
3º momento: Para o terceiro momento o instrumento confeccionado será utilizado para cantar uma canção em roda com as crianças.
- MÚSICA AFRICANA - Letra:
Funga alafia ache ache Funga alafia ache ache
- Tradução livre:
Em ti eu penso, contigo eu falo.
Gosto de ti, Somos amigos.
5º Aula:
1º momento:Acolhida: guardar mochilas, ir ao banheiro e encher a garrafinha, marcar a data no calendário e Música com as crianças.
- Palavra Cantada | África(música)
2º momento:Contar a história da boneca e qual o seu significado.
- Vídeo: https://youtu.be/L0tmFVdW9Y4
3º momento:
- Oficina Abayomi Material:
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● Tecido de malha preto / Malhas diversas / Tesoura / Miçangas.
Passo a passo:
- Recorte um tecido preto com 15 cm e outro com 18 cm.
- Amarre ao meio.
- Faça nós nas pontas.
- Enfeite a boneca com os vários tecidos.
- Faça amarrações diversas.
- Lembre-se de não colocar rosto nas bonecas, pois elas representam várias etnias negras.
Figura 5: passo a passo da Boneca Abayomi
Fonte: Google imagens, 2022.
AVALIAÇÃO: A avaliação será processual, de natureza diagnóstica e formativa, observando o desempenho ativo das crianças nas aulas e na execução das atividades solicitadas. Todos os materiais confeccionados ao longo das aulas serão expostos ao lado de fora da sala com o auxílio dos pequenos.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:
APASO, Ana Paula. Diversidade povo brasileiro. YouTube, 22 de Janeiro de 2021. Disponível em:
<https://youtu.be/lj6mNucJ4Xw>. Acesso em: 17 de outubro de 2022.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018.
FREITAS,Cláudio Lopes de; CUNHA, Débora Alfaia da.OFICINA: Jogos infantis Africanos e Afro-brasileiros.II Semana da Consciência Negra UFPA/CUNTINS 2010 – p. 3.
GUIMARÃES, Giovanna De Paula. LITERATURA INFANTO-JUVENIL E A FORMAÇÃO DOCENTE PARA A EDUCAÇÃO DAS RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS. Biblioteca Nilo Peçanha do Instituto Federal do Espírito Santo, ES, p. 29, 2020.
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PARA GOSTAR DE HISTÓRIA & GEOGRAFIA. Formação e cultura da população brasileira completo.
YouTube, 08 de Maio de 2021. Disponível em: <https://youtu.be/wPyyyCzEf1M>. Acesso em: 17 de outubro de 2022.
QUINTAL DA CULTURA. Um encontro precioso!. YouTube, 20 de Novembro de 2018. Disponível em:
<https://youtu.be/L0tmFVdW9Y4>. Acesso em: 17 de outubro de 2022.
ROCHA, Ruth.Amigo do rei. São Paulo: Ática, 2000.
A educação aqui defendida em maior parte dos casos, mesmo tendo o conhecimento de que a família também faz parte do processo da criança, fica a encargo da escola ensinar os direitos humanos. Com isso, a dissertação “Literatura Infanto-Juvenil e a Formação Docente Para a Educação Das Relações Étnico-Raciais” (2020), com a contribuição da autora Giovanna, busca refletir sobre a ligação entre a ERER e a Literatura Infantil. A autora relata que no campo da literatura existem várias divisões, dentre elas está a Literatura Afro-Brasileira, que, em sua essência, busca levar valores, cultura e o respeito por meio de contos tal segmento é importante pois traz em suas histórias personagens e protagonistas negras e negros de “forma a abranger a história de luta, resistência e beleza deste povo” (GUIMARÃES, 2020).
A proposta aqui deixada objetivou alcançar a possibilidade exequível de atrelar o ensino das relações étnico-raciais prevista pela lei 10.639/03 com a dita Literatura Afro-Brasileira. Compreendia a necessidade de que a ERER estabelece de valorização, reconhecimento e empatia a proposta de ensino em seu esqueleto, para além da literatura infantil ser usufruída ponto de partida, carrega aspectos de culturalidade dialogando com os alguns eixos temáticos da BNCC abordando, música, brincadeira, Jogos e construção de artefatos de origem africana. Vemos que
A palavra polissêmica jogo abrange, dentre outros significados, as inter-relações humanas, no caso, com ênfase nas lúdicas. Jogos fazem parte do patrimônio imaterial da humanidade, foram e são responsáveis pelo processo da humanização e estão presentes em todas as civilizações.
Difundidos através das relações de contato e ressignificados com as transformações espaço-temporais, exercem um papel fundamental para os humanos, em todas as idades (ROCHA FERREIRA, FASSHEBER e VINHA, 2012 apud LORO, VINHA e GOLIN, 2013, p. 60).
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Vale lembrar o comprometimento com a ERER não se dá apenas em datas comemorativas ou planos isolados, mas em práticas pedagógicas diárias uma vez que utilizamos cotidianamente o esforço de pessoas que foram escravizadas.
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