De acordo com Moore e Kearsley (2010, p.110), é necessária a participação comprometida da equipe de desenvolvimento na criação e na organização de um curso a distância. Entretanto, os autores não especificam as ações e os papéis de cada um dos membros dessa equipe. Diante disso, como uma primeira proposta para o processo de gestão para cursos de língua a distância foram estruturadas as ações e os papeis do coordenadorpedagógico, conforme ilustra a Figura 2.
Figura 2- Papeis e Ações do Coordenador Pedagógico em um curso de língua a distância Fonte: Elaborada pela autora
Entende-se que compete ao coordenador pedagógico a mediação pedagógica, ou seja, criar condições e meios para assegurar o ensino e aprendizagem procurando atingir os objetivos da proposta pedagógica do curso. Essa gestão propicia a articulação de ações e atividades da equipe que atua no curso, por meio do planejamento, organização, acompanhamento e avaliação.
Na proposta apresentada, as ações e os papeis do coordenador pedagógico são planejados de forma que esteja presente em todos os estágios de criação e de organização de um curso a distância, conforme proposto por Moore e Kearsley (2010, p. 109), bem como compartilha da ideia dos autores de que a gestão deve ser realizada sob a ótica de processo. Essa proposta visa contribuir com a formação inicial de professores, uma vez que se atribui a essa gestão a responsabilidade criar espaços para descentralização das ações didático-pedagógicas, compartilhando as responsabilidades com a equipe multidisciplinar envolvida no curso, pois de acordo com Almeida (2010),
Gestão é sinônimo de democracia, priorizando a construção coletiva do conhecimento, isto é, não basta "misturar" as responsabilidades, pois a democracia advogada preconiza a clareza das funções, as responsabilidades, as tarefas e os prazos por todos os participantes da equipe (ALMEIDA, 2010, p.36).
De acordo com as proposições do autor é de responsabilidade do coordenador pedagógico a organização, o planejamento e as estratégias do curso a distância. Entretanto, no que refere a necessidade de formar o professor, cabe ao coordenador a tarefa de integrar esse professor, bem como toda a equipe envolvida no planejamento e na produção dos materiais didáticos digitais, em todo o processo de gestão da educação a distância e não apenas como produtores de MDD.
Segundo Moore e Kearsley (2010) dentre as atividades dos gestores na educação a distância, pode-se citar: definição de estratégia para obter informações sem necessidade de intervir com os alunos; alocação de recursos (estruturais, financeiros, humanos), definição de prazos e metas para as atividades; supervisão de tutores; definição, com toda a equipe, de mecanismos de feedback e avaliação; e funções políticas para obter recursos e disseminar a cultura de EaD. Entretanto, Behar (2009, p. 4) ressalta que para se definir um modelo pedagógico para a educação a distância é necessário levar em conta três aspectos: os aspectos organizacionais, os aspectos metodológicos e os aspectos tecnológicos. Tais aspectos são apresentados no quadro 3.
Aspectos Elementos Questões norteadoras
ASPECTOS ORGANIZACIONAIS
Estão incluídos os propósitos do processo de ensino-aprendizagem a distância, organização do tempo e do espaço e expectativas na relação da atuação dos participantes ou da também chamada organização social da classe.
a) Qual(is) a(s) teoria(s) de aprendizagem que irão embasar o curso?
b) Qual é o público-alvo? c) Qual seu nível de familiaridade
com a tecnologia?
d) É a primeira vez que participam de um curso de EaD?
e) Deve-se oferecer formação tecnológica antes de iniciar o curso?
f) Quais são os objetivos principais do curso?
g) O que se espera dos participantes?
ASPECTOS METODOLÓGICOS
Atividades, formas de interação/comunicação,
procedimentos de avaliação e a organização de todos esses elementos numa sequência didática para a aprendizagem.
a) Como os alunos trabalharão em relação ao tempo/espaço? Será sempre da mesma forma ou pode variar ao longo do curso?
b) Que tipos de atividades serão utilizadas? Direcionadas? Não direcionadas aos interesses do público-alvo?
c) Como se darão essas atividades no tempo? De forma síncrona? Assíncrona?
d) Qual o tipo de avaliação? Formativa? Somativa? Mediadora? Autoavaliação?
e) Como promover a motivação dos alunos em ambiente virtual de aprendizagem?
ASPECTOS TECNOLÓGICOS
Definição do ambiente virtual de aprendizagem e suas funcionalidades, ferramentas de comunicação tal como vídeo e/ou teleconferência, entre outros.
a) Que recursos serão utilizados para trabalhar os conteúdos? Hipertextos? Áudio? Vídeo? Páginas
web? Objetos de aprendizagem?
Software educacional?
videoconferência?
b) Como se dá a interação/comunicação entre: aluno- aluno, aluno-professor/tutor, aluno- ambiente virtual de aprendizagem? c) Quais são as funcionalidades
que vão ser utilizadas ao longo do curso?
Quadro 3 - Modelo Pedagógico em Educação a Distância Fonte: Adaptado (BEHAR, 2009, p. 7-9)
Assim, com base nos pressupostos teóricos de Moore e Kearsley (2010), bem como no modelo pedagógico para a educação a distância Behar (2009), surge o
design de um processo de gestão pedagógica para cursos de línguas a distância,
ASPECTOS
ORGANIZACIONAIS TECNOLÓGICOS ASPECTOS
Figura 3 - Design do Processo de Gestão Pedagógica para Cursos de Línguas a Distância Fonte: Elaborado pela autora, com referência em Moore e Kearley (2010) e Behar(2009)
Como um recurso capaz de orientar coordenadores e futuros coordenadores pedagógicos, apresenta-se o Processo de Gestão Pedagógica para Cursos de Línguas a Distância como uma ferramenta de apoio para o planejamento, organização, elaboração de estratégias, execução de atividades e acompanhamento pedagógico, conforme está disposto no quadro 4.
AÇÕES PEDAGÓGICAS - APs ESTRATÉGIAS DE GESTÃO COORDENADOR PEDAGÓGICO
PEDAGÓGICA PARA CURSOS DE LÍNGUAS A DISTÂNCIA
ATOR
ASPECTOS PEDAGÓGICOS
COORDENADOR PEDAGÓGICO
Aspectos Estratégias de
Gestão
Ações Pedagógicas - APs Objetivos das APs Sujeito(s) Envolvido(s)
Aspectos Organizacionais
Organizar estrutura física e tecnológica visando criar espaços de discussões (reuniões) em torno de conhecimentos teóricos.
Orientar os professores e tutores para a criação e elaboração de MDD colaborativos.
Garantir que o MDD produzido não se concentre em atividades individuais, mas na produção coletiva dos alunos. Gerar problematizações de conteúdos por meio de atividades de estudo. Professores e Tutores Estimular a discussão entre a equipe multidisciplinar envolvida no curso.
Negociar as diretrizes do curso com a equipe. Visar o consenso, a socialização de ideias e estimular comentários inovadores para a proposta pedagógica do curso. Coordenador Pedagógico e Equipe Multidisciplinar Criar um planejamento
com as ações que precisam ser desenvolvidas; Estipular o prazo e o responsável pela ação.
Estabelecer prazos Buscar o comprometimento da equipe. Coordenador Pedagógico Distribuir tarefas de gestão entre os membros da equipe, propondo um rodízio.
Dividir responsabilidades da gestão com a equipe envolvida no curso
Garantir a participação colaborativa; Facilitar a discussão; Contribuir para a formação de futuros gestores. Coordenador Pedagógico e Equipe Multidisciplinar Aspectos Pedagógicos Desenvolver estratégias de acompanhamento com regularidade, como por exemplo, uma agenda de observações por módulo ou unidade.
Acompanhar a mediação pedagógica dos professores e tutores no AVEA e na interação com os alunos do curso. Fornecer feedback à equipe das observações realizadas no AVEA.
Sustentar a interatividade e a interação durante as ações de ensinar em aprender. Facilitar o acompanhamento das dificuldades e dos avanços do curso. Coordenador Pedagógico Auxiliar professores e tutores a criarem instrumentos de diagnóstico (questionário de perfil e de fluência tecnológica) dos participantes. Identificar as necessidades e dificuldades dos alunos quanto ao uso de tecnologias digitais.
Verificar as experiências prévias dos alunos quanto ao uso de tecnologias.
Coordenador Pedagógico, Professores e
Tutores Criar planos de ensino,
mapas dos recursos educacionais e critérios para a avaliação das atividades de estudo.
Propor estratégias para a organização de conteúdos, das unidades/módulos e das formas de avaliação do curso.
Programar os recursos e atividades de estudo atentando para o tempo didático estipulado pelo cronograma do curso.
Coordenador Pedagógico Saber quais são as
estratégias dos professores e tutores, suas expectativas prévias e intenções ao propor uma atividade de estudo;
Investigar: ritmo dos alunos na realização das atividades propostas, na assimilação dos conteúdos e na compreensão do material de apoio.
Monitorar continuamente o AVEA.
Adaptar a estrutura do ambiente às necessidades dos participantes do curso;
Propor mudanças de acordo com o contexto e com os objetivos do curso.
Organizar “paradas” para reflexão e avaliação.
Construir a identidade da equipe e o espírito de equipe.
Vencer os obstáculos; Encontrar caminhos para a resolução de conflitos; Melhorar a interação do grupo. Coordenador pedagógico e Equipe Multidisciplinar Aspectos Tecnológicos Buscar novas ferramentas que possam favorecer a aprendizagem da língua alvo.
Socializar com professores e tutores.
Inovar o curso; incentivar professores na busca de novas ferramentas.
Coordenador Pedagógico Inovar a prática docente
através de recursos e atividades de estudo disponíveis na web.
Desenvolver fluência tecnológica– emancipatória de professores e tutores.
Capacitar os professores e tutores por meio de um curso com foco na fluência tecnológica e nas ferramentas do Moodle, por exemplo.
Quadro 4- Processo de Gestão Pedagógica para cursos Línguas a Distância Fonte: Elaborado pela autora
Como forma de entender e posicionar-se diante da proposta de processo de gestão pedagógica para cursos de línguas a distância aqui apresentada, discorre-se que a criação de um curso de língua a distância sugere a figura de um coordenador pedagógico responsável pelo planejamento das ações pedagógicas no curso, bem como pelas tarefas pedagógicas propostas aos professores, tutores e equipe multidisciplinar, a fim de dar maior suporte na consolidação de um curso de qualidade.
Durante o desenvolvimento do processo de gestão pedagógica para cursos de línguas a distância procurou-se nortear nos princípios da interação, colaboração, reflexão e mediação pedagógica como fio condutor desse procedimento. A interação e mediação pensadas nesse processo provêm de um número considerável de reuniões pedagógicas com a equipe responsável pelo desenvolvimento do curso, as quais deverão ter como objetivos: planejamentos, construção de conhecimentos, administração de tempo, construção de cronogramas, otimização do uso de ferramentas, constantes trocas e interação entre a equipe, debates e reflexões sobre textos e conteúdos, reflexões sobre a prática pedagógica e, principalmente, foco no público-alvo que se pretende ter. Para isso, é oportuno preparar a equipe para atuar na modalidade a distância, através de estudos sobre características dessa modalidade de ensino, estímulo da autonomia, responsabilidade, capacidade de iniciativa e domínio das ferramentas tecnológicas. Nesse contexto, o papel do coordenador pedagógico deve ser de orientador e não de centralizador. Embora isso, inicialmente, pareça descaracterizar um nível de hierarquia, deve-se ter bem claros os papeis de cada membro da equipe com suas funções e atribuições pré- definidas.
Assim, ao propor um processo de gestão pedagógica precisa-se ter objetivos educacionais bem traçados, pois no decorrer das ações de construção do curso de língua deve-se orientar professores, tutores e equipe multidisciplinar, nos ajustes constantes sem economizar no estímulo. É importante antes de mais nada criar um ambiente em que todos os envolvidos possam assumir um papel ativo, exercendo autonomia e sendo responsáveis também pela gestão como um todo.
4. TECENDO CONSIDERAÇÕES
Neste estudo procurou-se pensar a ação pedagógica para a modalidade a distância e dela extrair um processo de gestão pedagógica para cursos de línguas EaD (produto final desta dissertação). O processo aqui proposto encontra sua relevância na medida em que oferece um olhar diferenciado do sistema atual da Universidade Aberta do Brasil, o qual não prevê a figura do coordenador pedagógico como um mediador da gestão de cursos a distância.
De acordo com a proposta apresentada, o coordenador deverá reunir a equipe para redirecionar e reavaliar posturas, materiais, ou realizar quaisquer outros ajustes que se mostrem necessários. Nesse processo, é possível realizar melhorias e adaptações com o curso ainda em andamento, pois acredita-se que deixar para fazer correções apenas na próxima versão a ser oferecida pode não ser a melhor opção, pois até lá o ruído provocado pela falhas poderá prejudicar a imagem e credibilidade do curso e, talvez até, da instituição.
Em síntese, o que justificou uma boa parte dos problemas que foram relatados pelos coordenadores de cursos de línguas a distância, diz respeito ao mau planejamento e a má organização desses cursos. A realidade é que o crescimento da EaD no Brasil, levou esses profissionais a assumissem atividades de planejamento e docência em cursos oferecidos na modalidade a distância sem nenhum preparo para as evidentes diferenças entre o ensino presencial e virtual. Nessa perspectiva, o desafio que se coloca é o de superar essas falhas de formação. É necessário que os profissionais dispostos a trabalhar com educação a distância, tenham uma formação específica, ou, ainda, sejam capacitados para atenderem as exigências dessa modalidade de ensino.
Nesse contexto, é um desafio para os coordenadores de cursos de línguas a distância, pensar e criar estratégias para desenvolver uma gestão com eficiência e qualidade. No entanto, é um compromisso do Ministério da Educação e não apenas da instituição de ensino criar melhores condições de infraestrutura física e tecnológica para a manutenção desses cursos.
Partindo dessas conclusões, é possível apontar algumas estratégias para a melhoria das condições dos cursos de línguas a distância no Brasil:
O MDD precisa ser cuidadosamente planejado, o que implica na elaboração de um material didático digital abundante e atraente;
(Re)organização do trabalho docente e do currículo de cursos de línguas a distância;
Implementação de uma política voltada para melhorar a comunicação dos cursos línguas a distância, haja vista a precariedade das redes de comunicação das instituições;
Conhecer modelos internacionais de gestão, a fim de encontrar artifícios capazes qualificar os cursos de línguas no Brasil;
Capacitar o coordenador pedagógico para que esse saiba coordenar todas as áreas de atuação. Isto implica na formação pedagógica, bem como na administração de dispositivos e de recursos tecnológicos; Investir na formação de equipes multidisciplinares;
Conduzir um processo de avaliação interna constante e com todos os sujeitos envolvidos no processo de formação;
Definir, em conformidade com as diretrizes da instituição, critérios para a seleção de professores e coordenadores que atuarão na EaD;
Estruturar um curso destinado a formar professores de línguas capazes de atuar em diferentes níveis e modalidades de ensino.
Nessa perspectiva, pode-se inferir que os objetivos aqui apresentados foram alcançados com êxito, bem como foi possível responder a pergunta de pesquisa: Quais estratégias e ações o coordenador pedagógico precisa adotar para desenvolver um processo de gestão para um curso de língua a distância?. O produto final desta dissertação foi gerado com intuito de contribuir com a formação inicial de professores de línguas para atuar na modalidade a distância e revelou-se também, como um recurso capaz de melhorar a atuação e a eficiência de coordenadores no que se refere a gestão de cursos de línguas a distância.