Durante a COP-11, COP/MOP-1, um grupo de países, autodenominado Coalizão das Florestas Tropicais, liderado por Papua-Nova Guiné, apresentou para discussão proposta de que se considere a necessidade de compensação pelo desmatamento evitado.
O argumento apresentado fundamentava-se na idéia de que o mundo estaria se beneficiando da riqueza natural das florestas, dentre as quais o papel de agente regulador do clima, sem que os custos fossem divididos entre todos os países. A idéia era fazer que tal desequilíbrio fosse superado mediante o des-
matamento evitado, que geraria créditos de carbono. O Brasil inicialmente a- poiou a idéia, todavia, fez algumas críticas a respeito da esfera em que a pro- posta deveria ser adotada, se na Convenção-Quadro sobre Mudança do Clima ou no Protocolo de Quioto. Após várias discussões, o governo brasileiro firmou posição entendendo que a Proposta de Papua-Nova Guiné deveria ser recebi- da na Convenção-Quadro e não no Protocolo de Quioto. A respeito, o Brasil afirmou que, apesar de apoiar políticas nacionais de combate ao desmatamen- to e controle das emissões de gases poluentes, não quer que as metas brasilei- ras para conservação da Amazônia sejam confundidas com as metas interna- cionais estabelecidas no Protocolo de Quioto. Geraldo Honty124
entende que a postura brasileira é coerente, considerando-se sua postura resistente em as- sumir compromissos de redução de emissões e o apego da diplomacia à defe- sa de nossa soberania.
Na COP-12 de Nairobi, o Brasil apresentou proposta semelhante, mas em outros moldes. A idéia é que as ações de redução do desmatamento de- vem ser financiadas voluntariamente pelos países do Anexo I, mas sem repre- sentar compromissos de redução de emissões de GEE por parte dos países em desenvolvimento (sem gerar créditos de carbono); para tanto, propôs a cri- ação de um fundo internacional que incentive os países em desenvolvimento a preservarem suas florestas. Assim, a proposta foi negociada na esfera da Con- venção-Quando sobre Mudança do Clima, e não na do Protocolo de Quioto.
É interessante destacar que, mesmo antes de a proposta ser apresenta- da em Nairobi, tal idéia já era defendida por Paulo Moutinho, coordenador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).
Mas, em que difere a Proposta de Papua-Nova Guiné da Proposta brasi- leira? A diferença está nos benefícios que os países desenvolvidos teriam ao apoiar as ações de redução do desmatamento. Na Proposta de Papua-Nova Guiné, essas ações deveriam gerar créditos de carbono semelhantes aos origi- nados em projetos de MDL. Já na proposta brasileira, os créditos de carbono não seriam gerados, pois o Brasil entende que caso isso ocorresse os países
124 Geraldo Honty,?Que hacemos con la pelota? La Insigna, 9 de dezembro de 2005. Disponível em: http://www.lainsignia.org. Acesso em: 20 out. 2007.
desenvolvidos poderiam atingir suas metas de emissão sem adotar medidas concretas para reduzir emissões em seus próprios territórios.
Uma dificuldade encontrada nas propostas de desmatamento evitado re- fere-se ao tipo de metodologia a ser empregado para mensurar o resultado do desmatamento evitado. O Brasil possui tecnologia com uso de imagens de sa- télite, o que facilita, mas é preciso também qualificar a redução do desmata- mento, a quantidade proveniente da ação direta do governo e a quantidade oriunda de outros fatores.
Apesar de todas as controvérsias, as propostas de desmatamento evita- do já alcançaram resultado positivo.125
Em 4 de junho de 2007, o Banco Mundial, durante uma reunião de parlamentares do G8 (grupo dos países mais ricos) e das cinco maiores economias emergentes (entre elas Brasil e China), lançou um Fundo que vai financiar projetos-pilotos para evitar desmatamentos em nações pobres. A Amazônia brasileira deve beneficiar-se dos recursos, embora a idéia contrarie a posição do País (do governo Lula), que não concorda que ações antidesmatamento gerem créditos de carbono.
A iniciativa foi batizada de Fundo Conjunto para Carbono das Florestas (FCCP) e será uma experiência para estabelecer as bases de um mercado futuro de emissões por desmatamento, que provavelmente será criado no próximo acordo de combate ao aquecimento global (pós-2012). A estimativa é que até lá (2012) o Banco Mundial, juntamente com outras instituições – como o Global Environment Fund (GEF) – invistam 200 milhões de dólares em projetos-pilotos de conservação. Tais projetos poderão, caso o desmatamento, de fato, ingresse no mercado de carbono, gerar créditos a serem vendidos para os países industrializados, pois, atualmente, apenas projetos nos setores de energia e reflorestamento podem gerar compensações de emissão de gases estufa. A principal dificuldade será ainda definir uma base de comparação que permita ao banco quantificar o corte nas emissões de carbono.
125 Gustavo Faleiros, Créditos da floresta. Disponível em: http://www.carbonobrasil.com/simplenews. htm?id=191623. Acesso em: 6 jun. 2007.
A proposta do Banco Mundial difere da apresentada pelo Brasil em Nairobi, pois o Brasil propunha que um fundo internacional de países ricos financiasse a redução real de desmatamento ao passo que o Banco Mundial fará o contrário: vai pagar para evitar o crescimento do desmatamento e a redução do que já ocorre continuará sob a responsabilidade das nações emergentes. O Banco Mundial, ao contrário do Brasil, defende que os projetos de conservação devem gerar uma vantagem econômica.
Provavelmente, um dos maiores problemas a serem enfrentados pelo sistema refere-se a como será monitorada e legalizada a atividade florestal.