1.2 – Agricultura na década de 90.
CONFLITOS DE TERRAS
2.3 Proposta de Reforma Agrária da Campanha de Lula Presidente
Além do MST, o Partido dos Trabalhadores (PT) é outra força política que historicamente defende a realização de um processo amplo de reforma no país. Desde a criação do partido em 1980, a Reforma Agrária esteve em seu programa partidário e articulada a um conjunto de transformações econômicas, sociais e políticas, derivadas principalmente do processo de re-ordenamento da estrutura fundiária do país.
A proposta para o desenvolvimento do campo e a implantação da Reforma Agrária sofreu mudanças no programa partidário do PT, ao longo das diversas campanhas presidenciais, como a 1989, 1994, 1998 e 2002. Este trabalho privilegiou a análise do programa agrário da eleição de 2002, tendo em vista que é subsídio para análise do II PNRA do governo Lula. Entretanto, foi elencado um elemento de comparação entre os diferentes programas - a meta de famílias assentadas - para
86 ilustrar que embora o assunto apareça com mais ou menos força em diferentes campanhas, ele não saiu de pauta.
Em junho de 2002 o PT definiu a meta de 500 mil famílias assentadas em 4 anos em seu programa de governo. Um mês depois decidiu retirar da proposta o compromisso numérico. Em relação a outras campanhas a meta foi variável, em 1994 o programa de governo falava em 800 mil famílias assentadas em 4 anos e, em 1998, chegou a marca de 1 milhão de famílias34.
Vê-se, portanto, que desde a campanha de 1998 até às vésperas da campanha de 2002, o PT desistiu de assentar 500 mil famílias, reduzindo pela metade sua meta, até tomar a decisão de não assumir nenhum compromisso com metas quantitativas. Apesar dessa postura, continuou a apresentar a Reforma Agrária em seus documentos como uma política estrutural, capaz de gerar desenvolvimento com a valorização das pequenas e médias propriedades e dos assentamentos. Desde 1989, quando concorreu pela primeira vez à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva assumiu o compromisso com a Reforma Agrária, que seria rápida, maciça e tranqüila. Em discurso na campanha de 1994, na região do Pontal do Paranapenema (SP), Lula afirmou que “numa canetada só” iria distribuir tanta terra que não haveria famílias suficientes para ocupá-las. E na campanha de 2002 afirmou ser ele o único candidato habilitado a realizar uma Reforma Agrária ampla e tranqüila.
Por meio do programa “Vida Digna no Campo” , o PT apresentou seu programa agrário para a campanha de 2002. Em linhas gerais, o programa trata da Agricultura Nacional, do Fortalecimento da Agricultura Familiar, da Implantação de uma Política Nacional de Reforma Agrária, da Construção da Cidadania no meio rural, da Soberania
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87 e Segurança Alimentar, da Educação no meio rural, do Associativismo e Cooperativismo, da Reativação do Proálcool, do Zoneamento Agroecológico-econômico e da Política de Desenvolvimento Regional, incluindo as áreas do semi-árido, amazônica, cerrado e pantanal.
Sobre a Reforma Agrária, o documento fala de um programa amplo e não atomizado, centrado na definição de áreas reformadas, que orientem o reordenamento do espaço territorial do país. O documento também ressalta a importância da organização de um Plano Nacional de Reforma Agrária, pois, “irá gerar postos de trabalho no campo, contribuir com as políticas de soberania alimentar, combate à pobreza e com a consolidação da agricultura familiar”.35
O programa Vida Digna no Campo apresenta os seguintes objetivos para o PNRA:
• Promoção do fortalecimento das áreas reformadas, priorizando as desapropriações por interesse social como instrumento de arrecadação de terras improdutivas;
• Viabilização financeira do programa mediante a utilização das TDAs (Títulos da Dívida Agrária) de acordo com o prazo constitucional, e com medidas para obtenção de eficiência nos processos administrativo e judicial de redução dos custos das indenizações;
• Garantia dos direitos humanos com promoção de ações
específicas e permanentes de fiscalização do trabalho rural, do combate à violência no campo e com o fim da repressão institucional aos trabalhadores rurais e suas entidades de representação;
• Recuperação dos assentamentos já efetuados, garantindo infra- estrutura social e econômica, e demais serviços em parceria com Estados e municípios;
• Elaboração de planos de desenvolvimento dos assentamentos em total sintonia com os objetivos da preservação do meio ambiente;
• Desenvolvimento de ações específicas para comunidades
indígenas e quilombolas;
• Cadastramento dos imóveis rurais, de forma que as terras griladas sejam utilizadas para Reforma Agrária;
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Extraído do Programa Vida Digna no Campo – Campanha PT 2002. Disponível no sítio www.fpabramo.org.br
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• Confisco de terras para fins de Reforma Agrária em caso de trabalho escravo..
O programa do PT também salienta a importância do fortalecimento da extensão rural e assistência técnica pública e gratuita. Da recuperação da pesquisa pública voltada para a agricultura familiar e do estímulo à produção agroecológica, com vistas a contribuir para a construção de uma nova matriz tecnológica sob o comando nacional.
Sobre os instrumentos de política agrícola, o programa aponta a importância de estarem voltados para o associativismo e cooperativismo de pequenos e médios produtores. Um dos instrumentos dessa política é a compra de produtos da agroindústria familiar local e dos assentamentos, por meio das demandas institucionais, como a merenda escolar, hospitais públicos, restaurantes populares e outros.
O programa Vida Digna no Campo ressalta a importância da agricultura familiar argumentando ser ela capaz de responder pelo autoconsumo e para o mercado, gerando um número considerável de empregos e assumindo a proteção ambiental e cultural dos povos do campo.
A soberania alimentar no programa é vista como meio para erradicar a fome e a má nutrição, bem como para garantir segurança alimentar para todos. O eixo central dessa política está conjugado com outras políticas consideradas estruturais, como por exemplo, as de geração de emprego e Reforma Agrária, e com as intervenções de ordem emergencial.
Como podemos observar nessa breve apreciação da Proposta de Reforma Agrária do MST, aprovada em 1995, e do programa Vida Digna no Campo, apresentado pelo PT na campanha de 2002, é que as duas propostas são bem próximas. Embora o programa do PT não fixe metas de famílias assentadas, apresenta o mesmo
89 instrumento principal de arrecadação de terras, a desapropriação por interesse social, pagas com TDAs.
O PNRA proposto pelos dois preconiza a construção de agroindústrias e da extensão da cidadania no campo, como educação, saúde, lazer, cultura e de relações sociais mais solidárias entre mulheres e homens.
Tendo isso em vista, a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais de 2002 reascendeu a expectativa de realização de um projeto de Reforma Agrária.