4.2 A Corrente Continuísta 4.2.1 A Proposta de Kenneth Wexler Em seus estudos sobre aquisição de linguagem, Wexler (1996) sugere que, apesar de as crianças apresentarem categorias funcionais muito precocemente, haveria, ainda sim, a necessidade de um desenvolvimento genético, ou seja, o autor defende a ideia da maturação biológica. Desse modo, a hipótese de Wexler (op. cit.) era a de que o surgimento das categorias funcionais se daria da mesma maneira como acontece a segunda dentição e as características sexuais das crianças. Isso implica dizer que, mesmo que o desenvolvimento da criança possa sofrer influências externas (alimentação, por exemplo), elas aconteceriam mais a frente e obedeceriam a um cronograma geneticamente pré-estabelecido (WEXLER, 1996, p. 117). Em princípio, poderíamos pensar que a proposta de Wexler não se enquadraria na proposta da Hipótese Continuísta, entretanto, mesmo com a hipótese da maturação genética, podemos, sim, associar os estudos wexlianos à corrente continuísta, já que, em sua abordagem, não é prevista a ausência das categorias funcionais na GU. Para o autor, essas categorias já se encontrariam disponíveis desde o nascimento da criança, mas respeitariam o amadurecimento do programa genético responsável pelo processamento de tais categorias. O estudo das falas das crianças sugere que, num determinado momento, a gramática infantil difere da gramática do adulto. De acordo com a proposta da GU, ao nascer, uma criança apresenta um estado gramatical zero (GU0). A partir do momento em que começa a exposição à língua, a criança se submeteria à evolução da gramática da própria língua, isto é, passaria por estágios (GU1, GU2, GU3...)até chegar ao nível GUadulto. Esse nível seria o estágio máximo de estabilização da gramática, que não poderia mais sofrer alterações na estrutura. Wexler (op. cit.) sugere a existência de forte relação entre morfologia flexional e a sintaxe da sentença. A fim de confirmar sua hipótese, o autor se vale de dados do francês, apontando o movimento do verbo de acordo com sua finitude, isto é, apontando se o verbo é marcado ou não marcado. Na língua francesa, verbos no infinitivo são posteriores à partícula de negação (pas), ao passo que verbos flexionados são anteriores à partícula de negação. Desse modo, a postulação é a de que há um lugar antes e um lugar depois da partícula de negação para pouso dos verbos. A explicação para esse fenômeno, conforme apontamos no capítulo anterior, está na concordância de V com ST, para checagem20 dos traços. Assim, quando flexionado, o verbo antecede a negação, pois se movimenta para a checagem de 20 A terminologia à ocasião da publicação era esta. Usa-se hoje, a palavra “valoração”, obedecendo-se, obviamente a uma mudança na concepção. traços. Quando está no infinitivo, o verbo permanece na mesma posição, já que obedece ao princípio da procrastinação21, que estipula que um movimento só ocorrerá caso seja necessária uma checagem de traço gramatical. Diante disso, e como já foi dito, parece pertinente considerar a relação entre morfologia e sintaxe, já que a presença dos morfemas flexionais desencadeia, na sintaxe, movimentos responsáveis pela ordenação da sentença. A verificação do conhecimento da criança a respeito da flexão verbal é, senão, um estudo da presença das categorias funcionais, já que tais categorias são as responsáveis pela colocação de morfemas e, consequentemente, pela movimentação do verbo na sentença. Desse modo, o estudo da flexão verbal constitui-se como um estudo de elementos imprescindíveis para construção das sentenças. Wexler (op. cit.) apresenta dados de estudos com crianças em aquisição de língua francesa. Esses dados demonstram que, desde muito cedo, as crianças têm conhecimento (internalizado) da existência da categoria tempo e da relação da fonética dos itens lexicais com os traços morfológicos e sintáticos. Isto é, as crianças têm o conhecimento da movimentação do verbo e das condições morfossintáticas. No francês, requere-se o movimento do verbo quando ele está na forma finita e proíbe-se este movimento quando ele está na forma não finita. Sendo assim, é possível dizer que as crianças sabem que o verbo finito tem um traço que deve ser “checado” em tempo, assim como conhecem as condições de economia que evitam que um verbo submeta-se à checagem caso não seja necessário, como no caso dos verbos não finitos. Wexler (op. cit.) também cita exemplos do alemão, língua que exige que verbos finitos movimentem-se para a segunda posição (V2) e verbos não finitos permaneçam na posição final. Assim como acontece no francês, as crianças demonstram conhecimento da necessidade de movimento do verbo em caso de marcação flexional. No que diz respeito às diferenças apresentadas nas gramáticas das crianças em fase de aquisição de linguagem, Wexler (op. cit.) lança mão da hipótese de que as crianças passam pelo período do Estágio de Infinitivo Opcional (OI). Nesse período, a criança (mesmo que tenha a Faculdade de Linguagem intacta e disponha de todos os mecanismos da GU) produz orações principais com verbos no infinitivo, o que não está de acordo com os inputs das falas dos adultos, os quais utilizam o infinitivo em orações encaixadas, portanto, apoiadas numa oração principal. 21 Trata-se de um princípio de economia. Quanto menos movimentos houver, mais rápido será o processamento no sistema computacional. Wexler (op. cit.) verificou ainda que as crianças ora produzem tempo e concordância, ora produzem apenas tempo ou apenas concordância. Segundo o autor, no estágio OI existiria a variação da marcação de finitude, no entanto, todos os parâmetros da língua estariam internalizados na criança. Desse modo, sentenças como “He like tea” ou “He play games”, em que não é marcada a concordância de pessoa22, podem ocorrer na fala das crianças nesse estágio. Para o autor, casos de ausência do morfema flexional de pessoa seriam exemplos de uso do não finitivo no lugar de finitivo, já que o inglês, por exemplo, existe a marcação do morfema zero para o não finitivo e, assim, a falta do “-s” para a concordância de 3ª pessoa se configuraria como um exemplo de uso do não finitivo. Pelo fato de OI ser um período transitório, as crianças, em alguns momentos, marcariam a flexão e, em outros, não. Entretanto, mesmo com uma marcação inconstante, as crianças devem ser tidas como conhecedoras do sistema flexional de sua língua, isso porque elas não produzem sentenças como “They likes tea” ou “We plays games”, isto é, as crianças não utilizam flexão de 3ª pessoa para casos de 1ª ou 2ª pessoa. Desse modo, fica evidenciado que as crianças podem deixar de marcar a concordância, mas elas não optam pela supermarcação. No que diz respeito à marcação de negação, no estágio OI, as crianças podem produzir sentenças típicas da língua ou com variação em marcação de concordância, como em “She not play23”. Considerando que a inserção de “be” assim como de “do” acontece para checagem de traços de tempo e considerando a opcionalidade de tempo para crianças em estágio OI, então seriam possíveis sentenças como “She playing” com a terminação “ing”, garantindo o sentido progressivo. As crianças têm o conhecimento natural das regras morfossintáticas de suas línguas, no caso do inglês, elas sabem que “do” e “be” se movimentam para a checagem de traços, daí a razão pela qual elas não formulariam sentenças como “Do he play?” ou” Be he there?”, pois elas violariam a condição de que verbos no não finitivo não se movem. Nesse sentido, de acordo com Wexler (op. cit.), a caracterização do estágio OI se daria pela variação, já que as crianças, além das orações principais com verbos no não finitivo, também produzem orações com verbos flexionados. Assim, verificar-se-ia que a criança conhece a diferença entre finito e não finito e as relações morfossintáticas envolvidas no movimento dos verbos. Wexler (op. cit.) sugere que a possibilidade da ocorrência de OI em determinado momento é permitida em virtude do processo maturacional. Até o momento da 22 Em língua inglesa a marcação de 3ª pessoa do singular é feita por –s. No caso dos exemplos acima, os verbos deveriam estar marcados como likes e plays, respectivamente. maturação, as crianças iriam permitir a marcação de não finitivo, depois da maturação isso não poderia acontecer. Em 1998, Wexler propõe uma expansão da sua argumentação a respeito do período OI. Segundo o autor, a gramática infantil permitiria a variação de marcação de flexão devido a uma restrição que existiria somente em OI e, diante disso, propõe-se, então, o que ficou conhecido como Restrição de Checagem Única (RCU). Essa restrição se daria pela impossibilidade de as crianças realizarem duas checagens de traços não interpretáveis, sendo uma de tempo e a outra de concordância. Além disso, na gramática infantil em estágio OI, ocorreria a valoração em apenas uma dessas categorias. Daí aconteceria a convergência de uma estrutura com a ausência ou de tempo ou de concordância. Wexler (op. cit.) defende a hipótese de que não existe distinção entre GUinfantil e GUadulta. Para o autor, o cerne da questão é que, na gramática infantil, existiria uma limitação maturacional que permitiria que as produções infantis fossem diferentes das produções adultas (a gramática do adulto é o alvo, ou seja, trata-se do modelo que a criança segue), e, além disso, essa limitação seria temporária, pois a maturação do aparato linguístico seria análoga ao desenvolvimento de outros sistemas biológicos da criança. Nossa pesquisa tem como um de seus objetivos a análise de flexões verbais, e, por isso, parece-nos cabível verificar em que medida os postulados de Wexler podem ser confirmados. Nossos dados podem validar ou não a existência de um Estágio Infinitivo Opcional na gramática de crianças em fase de aquisição de linguagem No documento PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS Programa de Pós-Graduação em Linguística e Língua Portuguesa. Rodrigo Altair Morato (páginas 55-58)