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1 INTERPRETANDO FILMES 360º

1.2 Interpretação de Filmes

1.2.2. Proposta para compreender a interpretação de filmes 360º

Ao assistirmos filmes 360º esperamos ser envolvidos em seu enredo, “mergulhar” e explorar o ambiente digital esférico que nos é apresentado. A qualidade da experiência é, em grande parte, influenciada pela maneira como os modos e recursos semióticos são usados e combinados pelos realizadores no ambiente esférico do filme, e de como as composições audiovisuais resultantes são percebidos por nós. Além disso, como nos filmes convencionais e

40 No original: This accounts as well for filmic meaning, which is constantly linked to its context and the recipient’s knowledge about the world that has to be activated during the interpretation process. In general, a film viewer is today quite familiar with the way films are created and how they express meaning. It can therefore be assumed that there is a general ability for film understanding (cf. Bateman 2013: 2), which, as has been suggested in the analysis above, functions in great part similarly to the understanding of verbal texts.

demais artefatos multimodais, o processo interpretativo de um filme 360º é influenciado pelas nossas estruturas cognitivas: conhecimentos de mundo, de linguagem cinematográfica, do idioma, de vídeo 360º, do tema apresentado e dos outros modos e recursos utilizados (WILDFEUER, 2014; BATEMAN, 2016).

No entanto, a interpretação de filmes 360º exige atividades além das que executamos “instintivamente” ao assistir filmes convencionais, apresentadas anteriormente. Partimos do pressuposto segundo o qual há ao menos mais duas atividades necessárias para interpretar filmes esféricos. A primeira delas é a navegação espacial pelo ambiente virtual esférico . É equivalente à ação de “olhar à nossa volta”, atividade que fazemos naturalmente. Qualquer ação cotidiana que executamos geralmente exige que olhemos para uma ou mais direções específicas. Para conversar, olhamos na direção do nosso interlocutor. Para atravessar uma rua, olhamos antes para os dois lados. Para chutar uma bola, olhamos para ela, e em seguida em direção ao gol buscando notar movimentação do goleiro. São muitos os exemplos de “navegação espacial” no nosso cotidiano. No caso dos filmes 360º, parece ser necessário que o visitante precise estar sempre (re)direcionando sua visão para perceber o que está acontecendo naquele ambiente, ou melhor, para identificar pontos de interesse das cenas 360º.

Assim, a hipótese que conduz esse trabalho é a de que para ser um espectador do enredo representado pelo filme 360º, além da atividade de navegar pelo ambiente esférico, o visitante deve, principalmente, localizar os elementos relevantes da história contada. Esses elementos são os componentes coesivos estabelecidos pelo uso e combinação dos modos e recursos semióticos na criação das cenas 360º. É justamente essa a segunda atividade exigida para interpretar filmes 360º, a saber, a localização dos referentes discursivos distribuídos na composição esférica necessários para inferir as eventualidades que compõem o discurso fílmico.

Portanto, para que o visitante de um filme 360º atribua coerência e estrutura ao discurso fílmico, ele precisa ter consciência de que deve buscar constantemente pelos componentes discursivos das eventualidades. Afinal, nas experiências com conteúdos audiovisuais esféricos, esses elementos da narrativa já não são mais entregues no espaço limitado de uma tela convencional. Se não estiver seguro de que está olhando em direção aos referentes discursivos que compõem a eventualidade, o visitante deve procurá-los. Uma vez que ele tenha sua atenção direcionada aos componentes retóricos necessários para inferir as

eventualidades, e que continue a localizá-los no desdobramento do filme, é possível executar as demais atividades do processo de interpretação para produzir sentido.

É provável que pessoas que assistam a um filme 360º pela primeira vez, sem conhecimentos básicos sobre o consumo desse formato e sem nenhuma orientação oferecida pelo filme sobre como navegar por ele, tenham experiências confusas ou insatisfatórias (GÖDDE et al., 2018). Se o visitante não encontrar os componentes discursivos para, através deles, inferir as eventualidades, a estrutura e a coerência do filme esférico estarão comprometidas. Como vimos anteriormente, essas qualidades textuais são essenciais para o processo interpretativo de artefatos multimodais dinâmicos. Sem as estruturas e as relações retóricas que possibilitam a coerência entre os segmentos do filme, mal-entendidos podem ocorrer no processo de interpretação. O resultado disso pode ser um visitante “perdido” no ambiente audiovisual esférico do filme que é um dos principais desafios a se superar nas narrativas 360º (GÖDDE et al., 2018).

Mesmo que as primeiras experiências com o consumo de filmes 360º sejam desmotivadoras e cansativas, entendemos que orientações adequadas oferecidas pelos filmes, e a recorrência de visualizações desse tipo de conteúdo podem contribuir para que visitantes desenvolvam uma habilidade para interpretá-los, assim como a habilidade que possuímos para interpretar filmes convencionais (BATEMAN, 2016). Se essas considerações apresentadas aqui forem válidas, faz-se necessário que realizadores e visitantes tenham consciência dessas duas outras atividades necessárias para a interpretação de filmes 360º.

Aos realizadores, como “guias” da experiência do visitante, cabe fornecer “pistas” claras para orientar e restringir a localização dos elementos e referentes discursivos das eventualidades. Gödde et al. (2018) identificam, por exemplo, 5 sinais de atenção diegéticos (presentes no corpo do filme) para guiar a atenção dos visitantes: olhares (das personagens), movimentos, som, contexto (expectativa de que algo está para acontecer em uma determinada direção) e perspectiva.

Para que os visitantes de filmes 360º tenham consciência do que se espera deles como “exploradores” de uma narrativa esférica, a orientação de como navegar precisa ser dada pelos realizadores e, preferencialmente, estar disponível no próprio filme. Essa orientação pode ser feita, por exemplo, com informações direcionadas ao visitante apresentadas logo na introdução do filme. Gödde et al. (2018) também ressaltam a necessidade de orientar o visitante se ele deve assistir ao filme em pé (para poder explorar facilmente todas as direções)

ou se pode assistí-lo enquanto estiver sentado (quando as eventualidades forem apresentadas somente na direção inicial de visualização). Esse conhecimento sobre como visualizar um determinado filme esférico pode possibilitar mais qualidade na experiência dos visitante.

A tarefa de fornecer pistas para orientar a navegação do visitante não é tão diferente da tarefa de guiar o espectador pela história do filme através dos dispositivos fílmicos. São as qualidades textuais de estrutura e coerência que permitem que filmes, e os demais artefatos e performances multimodais dinâmicos, orientem e restrinjam os sentidos criados pelo espectador durante o processo de interpretação. As eventualidades e seus referentes discursivos, que são essenciais para a construção da estrutura e coerência do filme, são representadas pela combinação de diferentes modos e recursos semióticos. Consideramos que é justamente através da utilização e combinação desses modos e recursos, o que já é essencial para produção do audiovisual, juntamente com novas estratégias de posicionamento de câmera, sequenciamento de cenas e de utilização de elementos discursivos pelo ambiente esférico, será possível orientar e restringir a navegação do visitante pelos ambientes e eventos dos filmes 360º.

De maneira simples, além dos referentes discursivos que localizamos e relacionamos para inferir as eventualidades e as relações entre elas, há nos filmes 360º componentes do discurso para orientar e restringir as inferências sobre qual direção devemos olhar. Descrições e reflexões sobre como esses componentes podem promover a navegação espacial nos filmes 360º serão realizadas no capítulo 2, referente à primeira parte da análise deste trabalho. Para facilitar a análise de como esses elementos discursivos podem cumprir essa função de orientação à atenção do visitante dentro dos vídeos esféricos, vamos chamá-los de referentes de navegação . É importante considerar que os referentes que cumprem a função de orientação espacial do visitante podem ser também referentes discursivos essenciais para a inferência das eventualidade e relações do filme.

Todas as reflexões feitas neste capítulo foram baseadas nas Teorias da Representação do Discurso Segmentado (ASHER e LASCARIDES, 2003) e, especialmente, da Representação do Discurso Fílmico Segmentado, ou TRDFS (WILDFEUER, 2014). São elas que evidenciam as qualidades textuais de estrutura e coerência dos artefatos e performances multimodais dinâmicos, como filmes, e nos fornecem ferramentas para transcrição do discurso para a forma lógica. Como vimos, são essas qualidades que guiam nosso processo de criação de sentido através das inferências que realizamos enquanto assistimos a um filme.

Essas teorias acompanham as abordagens da linguística contemporânea, em especial semântica do discurso, a semântica dinâmica e os estudos multimodais, que propõem novos modelos para análise de discursos multimodais com potencial para serem utilizados no desenvolvimento de inteligências artificiais capazes interpretar conteúdos com base nas qualidades de coerência e estrutura.

Agora, o interesse das investigações sobre como o sentido é criado em textos verbais não está no nível das cláusulas, que trata a sintaxe e gramática como fatores cruciais para a descrição. Está em um nível acima, que foca a estrutura e a coerência no texto, as interações dos segmentos e a influência contextual oferecida pelo desdobramento do discurso e pelo conhecimento de mundo por parte do leitor/espectador/visitante. Estes são os interesses principais na análise do potencial da criação dinâmica de significados (WILDFEUER, 2014, p. 39). Essa perspectiva, juntamente à metodologia da TRDFS (WILDFEUER, 2014) que analisa a criação de sentidos a partir de filmes, guia-nos na investigação sobre o processo de interpretação dos filmes 360º e sobre como modos e recursos semióticos podem ser articulados para orientar a atenção do visitante.