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3. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

3.5. Sistemas de tratamento do lixiviado

3.5.3. Propostas alternativas

Além dos métodos de tratamento de lixiviados de aterros sanitários anterior-mente descritos, muitos outros têm sido propostos e estudados, alguns dos quais serão abor-dados neste item.

Evaporação

Quando a quantidade de lixiviado gerado é pequena podem ser usados métodos que produzem potencial de descarga zero. Um destes métodos é a evaporação.

A evaporação natural ou solar requer grandes áreas, e depende fundamental-mente das condições climáticas, como: temperatura, velocidade do vento, e umidade. Segundo QASIN e CHIANG (1994) o tamanho de áreas para leito de evaporação pode ser reduzido usan-do a recirculação usan-do lixiviausan-do para o interior usan-do aterro nas épocas de condições climáticas adversas. Neste caso, a recirculação funcionaria como armazenamento temporário do lixivia-do no corpo de aterro.

KNOCH e STEGMANN (1993) sugerem que é factível a evaporação de lixiviado usando como fonte de energia a combustão do biogás do próprio aterro. Entretanto, colocam que neste método especial atenção deve ser dada ao controle da emissão atmosférica, e desta-cam que ainda existem problemas quanto ao material a ser utilizado na construção da planta

de tratamento, principalmente quanto à corrosão.

Aplicação no solo

Também considerado um método de tratamento com potencial de descarga ze-ro de efluente, a aplicação no solo de águas residuárias domésticas é uma tecnologia de efici-ência comprovada; propicia a reutilização de nutrientes e produz um efluente de alta qualida-de. O tratamento no solo inclui o uso de plantas, da superfície do solo e da matriz do solo para remover os vários constituintes do lixiviado através de meios físicos, químicos e biológicos. Há três métodos básicos de aplicação no solo: irrigação a baixa taxa; infiltração rápida; e es-coamento superficial.

NORDSTEDT (1975) apud QASIN e CHIANG (1994) aplicou lixiviado, por irriga-ção, sobre pastagens com grama e não verificou modificação na qualidade do solo. As taxas de aplicação não foram especificadas.

Outra alternativa de tratamento de lixiviados são as terras úmidas ou banhados (na língua inglesa denominados de wetlands), que são áreas de terra inundadas com profundi-dades não maiores que 0,6 m e que suportam o crescimento de plantas aquáticas. Esta vegeta-ção serve como suporte de filmes de bactérias, ajuda na filtravegeta-ção e adsorsão dos constituintes do lixiviado, transfere oxigênio para a água, e controla o desenvolvimento de algas pela res-trição à entrada da luz solar (METCALF e EDDY, 1991). Esta tecnologia é considerada promis-sora por HOGLAND (1995), principalmente para polimento de lixiviado pré-tratado.

Filtros percoladores

Filtros percoladores, são filtros biológicos aeróbios formados por um meio su-porte, fixo, com grande área superficial e espaços vazios. Um filme biológico desenvolve-se na superfície do meio suporte e os espaços vazios servem para a aeração do sistema e para a passagem do afluente a ser tratado.

GEHLING (1985), usando a infiltração de águas residuárias em leito arenoso ve-rificou 98 % de remoção de DBO, para um leito de 1,70 m de profundidade. A areia utilizada foi proveniente do litoral gaúcho.

Em estudo realizado no Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS,COTRIM (1997) utilizou filtros percoladores, em escala de laboratório, para o tratamento de lixiviado de aterro sanitário antigo. Dentre os vários materiais de recheio dos filtros percoladores

avali-ados, o carvão ativado e as aparas de couro curtido wet blue foram os que tiveram melhor desempenho, com remoção de 68 e 64 % para DQO, 79 e 95 % para DBO5 e 89 e 92 % para amônia, respectivamente.

Embora a areia seja conhecida com bom material para sistema de infiltração rápida para tratamento de águas residuárias domésticas em estado bruto, COTRIM (1997) não verificou o mesmo desempenho em filtros deste material no tratamento de lixiviados. O autor verificou remoção de 30 a 61 % da DBO5 e remoção inferior a 20 % na DQO, para uma colu-na de 50 cm de areia.

Tratamento combinando com águas residuárias

O tratamento combinado de lixiviado com esgoto doméstico em uma ETE (es-tação de tratamento de esgotos) já existente é um método bastante conveniente. São requisitos para tal: a capacidade de transporte até a ETE, a capacidade da estação em assimilar o lixivia-do, a compatibilidade do processo com as características do lixivialixivia-do, e a facilidade em lidar com o aumento na produção de lodo.

BOYLE e HAM (1974) demostraram que um lixiviado com DQO de 10.000 mg/L pode ser tratado com 5 % em volume sem alterar a qualidade do efluente final. HENRY (1985) sugere que, quando possível, a adição de lixiviado a ETEs deveria ser o método de disposição preferido. Segundo o autor, estudos demonstraram que lixiviados altamente con-centrados (DQO de 24.000 mg/L), quando combinados até 2 % em volume com águas residu-árias municipais, não causaram alterações significativas na performance das estações de tra-tamento. Usando um sistema piloto de tratamento combinado, KELLY (1987) relatou que a adição de lixiviado até 16 % em volume não causou instabilidade ao processo de lodos ativa-dos.

A literatura apresenta vários aterros reais que utilizam o sistema combinado pa-ra tpa-ratamento de lixiviados: o aterro Fresh Kills, da cidade de Nova Iorque (BREEN, 1990); o aterro Tohbu Fushitani, de Fukuoka, Japão (MATSUFUJI, 1995); o aterro Bandeirantes, de São Paulo (RÜGER, 1996); o aterro da Extrema, de Porto Alegre (REICHERT e DOS ANJOS, 1997); sendo também prática comum na Suécia (HOGLAND, 1995).

Recirculação

circulação do lixiviado de elevada carga orgânica de volta ao aterro, de modo que ele possa percolar novamente pela massa de resíduos. A recirculação usa o aterro essencialmente como um grande digestor anaeróbio não controlado, que promove o efetivo tratamento anaeróbio do lixiviado. O fluxo da umidade através do aterro estimula a atividade microbiana pois promove um melhor contato entre substratos insolúveis, nutrientes solúveis, e os microrganismos.

QASIN e CHIANG (1994) apresentam as principais vantagens da recirculação:  aceleração da estabilização dos resíduos no aterro;

 redução substancial nos componentes orgânicos do lixiviado;  possível redução do volume devido a evapotranspiração;  atrasa o início da necessidade de outro tipo de tratamento;  redução dos custos de tratamento.

BARLAZet al. (1990) citam vários estudos sobre a eficiência da recirculação na aceleração da estabilização dos resíduos e no tratamento do lixiviado, ressaltando a importân-cia da neutralização do lixiviado antes da recirculação.

A técnica da recirculação só é propícia para aplicação em aterros onde o balan-ço hídrico é favorável, ou seja, onde a evapotranspiração é maior que a precipitação média anual (ou somente pode ser utilizada em certos períodos do ano em que isto ocorra). Além disso, LANDRETH (1995) coloca outras questões que ainda necessitam de um aprofundamento maior: a investigação do modo mais adequado de reinjeção do lixiviado no aterro (irrigação superficial ou subsuperficial); a possibilidade de colmatação dos sistemas de reinjeção; a ne-cessidade de manter a uniformidade da umidade da massa de resíduos; o espaçamento físico dos sistemas de injeção, tanto vertical como horizontalmente; e o total de lixiviado a ser recir-culado, e com que freqüência. A forte compactação que é imposta aos resíduos nos aterros modernos, e a retenção de umidade nas sacolas plásticas apenas parcialmente rasgadas duran-te a compactação, diminuindo a permeabilidade do aduran-terro, também é um fator levantado pelo autor como limitante à utilização efetiva da recirculação.

Embora a recirculação apresente benefícios quanto a uma considerável redução tanto de carga orgânica quanto do volume de lixiviado, o efluente final ainda não estará em condições de emissão nos cursos d´água receptores, pois ainda pode apresentar elevada DQO e principalmente, amônia (ROBINSON e MARIS, 1985). A recirculação deve portanto ser consi-derada como o primeiro estágio de um processo de tratamento mais amplo.