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Propostas de governo do candidato Daviz Simango e do MDM

No documento LEONILDA ADELINO ANTÓNIO SANVECA MUATIACALE (páginas 162-168)

4.1. Segmentos de Campanha

4.1.6. Propostas de governo do candidato Daviz Simango e do MDM

A proposta de governo de Daviz Simango e do MDM centra o foco na justiça social, ou seja, na necessidade de se estabelecer políticas públicas transparentes que visem uma melhor distribuição das riquezas do país, de forma igualitária e justa por todos os moçambicanos. O candidato defende também uma melhor gestão do bem público além do profissionalismo e liberdade partidária e que os profissionais ocupem os seus cargos com base em concursos públicos e não por indicações de estruturas partidárias.

Desde a sua formação, o MDM determinou que o objetivo principal desta formação política é construir e manter a sua identidade como oposição forte tanto ao partido Frelimo quanto aos outros partidos da oposição e que a luta se constituía em se colocar como alternativa forte no cenário político moçambicano que fosse capaz de impor-se diante das manobras da Frelimo em tender a monopolizar a vida política do país com o risco de retorno ao monopartidarismo.

Simango foi eleito presidente do partido a 07 de março de 2009, portanto, alguns meses antes das eleições gerais de outubro. Em seu discurso de investidura no cargo explicou a visão desta formação política de que

Moçambique para todos é um dos ideais mais nobres de

milhões de cidadãos-mulheres e homens, de todas as idades, todas as regiões do país e todas as etnias, raças, credos religiosos, ideologias, culturas e profissões. Moçambique para todos é um sonho, que pode ser transformado em realidade. Este Moçambique para todos que idealizamos vem sendo edificado há várias décadas, com avanços e recuos, com sucessos, mas também com derrotas e retrocessos.

Esse ideal está patente na plataforma eleitoral do seu partido em que aborda diversos temas que considera relevantes para o país e para os moçambicanos.

A estratégia usada para apresentar a proposta de governo do MDM, no programa eleitoral de televisão, foi a “fala do trono”, ou seja, sentado em estúdio e assumindo a função de narrador. Ele fez a leitura da proposta de governo intercalando a sua voz em on e em off com predomínio de uma linguagem formal que começava com o jingle que imita o canto do galo e acompanhando a bandeira do partido a flutuar:

Jingle: o Cocoricó canta e o povo acorda

O MDM chegou

O povo está satisfeito com Daviz Simango Com este Movimento

Simango em voz on: gostaríamos de vos apresentar os

capítulos que compõem o nosso Manifesto Eleitoral sendo:

1º Moçambique para todos, nação plural e democrática; 2º Ameaça real do monopartidarismo no

multipartidarismo de fachada?

3º Visão do MDM sobre liderança democrática; 4º Pela democracia participativa, plural e inclusiva; 5º Aumentar a eficácia das inserções públicas;

6° Poder Central e local, prioridade aos governos distritais;

7º Liberdade e Segurança, proteger pessoas e bens; 8º Progredir, criar e distribuir melhor a riqueza nacional; 9º Bem-estar, solidariedade e moralização da

sociedade;

10º Política de soberania e dignidade de Moçambique; 11º Apostar nos moçambicanos, conquistar o futuro; 12º Política Externa

Simango em voz on: Caros compatriotas, tivemos a

honra e o privilégio de vos apresentar aqui aquilo que são os capítulos do nosso manifesto eleitoral. Iremos oportunamente, capítulo por capítulo, subcapítulo por subcapítulo, abordar aquelas que são as idéias do MDM.

Simango em voz on: Viva Moçambique!

Vota no MDM e no Daviz Simango!

Jingle: O povo quer, o povo chora, o povo luta

O povo quer Simango no poder

Queremos desenvolver

Queremos melhorar

Queremos nos juntar ao nível nacional

Para ampliarmos a compreensão das propostas de Simango recorremos também ao manifesto eleitoral do MDM onde encontramos os temas mais detalhados. Nesse documento oficial, o partido declara o seu compromisso em cada área e sinaliza como os mesmos serão colocados em prática.

Na área da juventude, o programa promete fortalecer a juventude moçambicana, e compromete-se a criar postos de trabalho e a criar o Serviço de Ação Social Escolar além de destinar 1% do PIB para custear o Programa Nacional de Habitação para a juventude.

Na educação indica que vai estimular, através de uma educação sólida e continuada, o desenvolvimento de uma geração mais qualificada, melhor preparada, mais solidária e mais participativa; assegurar a igualdade de acesso ao ensino superior por parte dos estudantes carenciados e oferecendo maiores oportunidades de bolsas de estudo; administrar, durante o serviço militar, cursos profissionalizantes nos diferentes ramos; criar políticas que acabem com a marginalização social da juventude.

No âmbito do desenvolvimento, o manifesto sinaliza que a participação e apropriação do processo de desenvolvimento por parte dos jovens vão merecer do governo o maior empenho, como forma de reforçar e aprofundar a participação dos jovens e, como via privilegiada de assegurar patamares mais elevados de desenvolvimento econômico e social; promover ações que estimulem o espírito empreendedor nos jovens de modo a envolverem-se em ativamente nos processos de desenvolvimento do país, adquirindo e aplicando habilidades que os tornem

cidadãos produtivos e desenvolvam as capacidades de gestão e liderança; combate constante à política de exclusão e do desequilíbrio econômico;

Na política propõe o aperfeiçoamento do sistema político moçambicano (responsabilidade política perante os constituintes e não apenas perante o líder do partido); Participação e defesa ativa da alternância democrática; eliminação do poder absoluto, que eterniza a dominação da maioria por uma minoria monopolizadora de todos os recursos do país e centros de decisão;

Na administração pública promete trabalhar no combate à corrupção generalizada e fomentada pela força política no poder e consequente injustiça a todos os níveis da sociedade;

Em relação à parceria público-privada, o MDM declara que vai encorajar o setor privado, organizações não governamentais nacionais e estrangeiras, confissões religiosas e outras a investir no ensino, na saúde, na agricultura e no apoio dos deslocados às suas origens; fortalecer as empresas públicas com políticas empresariais num mercado competitivo quer ao nível regional e internacional;

Sobre a transparência na gestão pública, o manifesto refere que o partido vai garantir o poder efetivo do cidadão através de eleições de governadores provinciais, de autonomia dos Reitores das Universidades Públicas.

Em outros momentos o enunciador apresenta a proposta de governo resumida e na voz off de Simango usando também o lettering o que seria para facilitar a compreensão do telespectador dos capítulos da plataforma de governo.

A não delegação de voz a outro ator ou narrador para apresentar a proposta partidária é uma estratégia que visa criar não só o efeito de proximidade com eleitor, mas também buscar a credibilidade necessária já que ele (Simango) é presidente do partido, e, por isso, é autoridade máxima. Para Ramaldes, “a informação, transmitida sem intermediação, representa uma forma de ratificar pessoalmente a promessa de campanha, servindo como mecanismo de reiteração da competência ética, fundamental à confiança do eleitor” (RAMALDES, 2004:107). Os temas-chave do MDM que se apresentam como diferenciais estão ligados à construção de instituições políticas e econômicas mais justas, adequadas e eficazes e no entendimento deste partido, são essas instituições que devem garantir maior estabilidade e sustentabilidade ao país.

Em toda a campanha, o MDM buscou se explicar e convencer os eleitores de que todos os moçambicanos têm os mesmos direitos e, por isso, devem usufruir de forma igualitária os recursos do país, pois, na sua concepção têm beneficiado apenas uma pequena parcela da população-as elites.

Em seus documentos, o MDM abre o debate para as questões de exclusão social por isso, o programa sustenta que

o MDM nasce para contribuir para uma paz duradoura e crescimento econômico sustentável, sem exclusão e/ou descriminação com base na etnia, raça, religião, opção político/partidária ou região geográfica” e que “pretende eliminar o poder absoluto, que eterniza a dominação da maioria por uma minoria monopolizadora de todos os recursos do país e centros de decisão.

O compromisso com o jovem é apresentado no programa do MDM como uma das suas prioridades destacando a necessidade de formação técnica profissionalizante mais abrangente, sobretudo, para garantir o emprego digno e para solucionar os problemas mais graves desse grupo. Para isso propõe o estabelecimento de vários dispositivos tais como a criação de postos de trabalho, do serviço de ação social escolar, além de destinar até 1% do PIB para custear o Programa Nacional de Habitação para a juventude.

De forma mais detalhada do que nos programas da Frelimo e da Renamo, o MDM expõe o problema da falta da política habitacional direcionada aos jovens. Nesse sentido, podemos notar que o candidato e seu partido não só detectam o problema de habitação, como também apresentam como pretendem dar resposta a esse setor específico e como desenvolverão o financiamento desta área para garantir a sua continuidade.

Vale ressaltar que essa forma de apresentar a proposta no manifesto eleitoral mostrando os problemas e revelando as estratégias de como serão resolvidos na prática foi inédito na política moçambicana porque os partidos mais experientes e antigos nunca o fizeram, apenas apresentam as necessidades sem explicar como serão atendidas.

Em seus discursos de campanha e no programa eleitoral uma palavra-chave ficou patente no programa de Simango: participação. Na visão deste candidato há necessidade de envolvimento de todos os moçambicanos nos processos de

decisão, de desenvolvimento e de administração pública. Além da participação, o enunciador sugere, em seu discurso, outros valores: a igualdade, a justiça, a inclusão, a estabilidade e a sustentabilidade como sendo essenciais para a consolidação da democracia participativa que tem sido sufocada pelo governo de Guebuza.

Com esses valores, o enunciador do MDM pretendia direcionar a interpretação do enunciatário à ideia de que só o candidato Simango tinha a competência de mudar Moçambique e construí-lo de forma diferente daquela adotada pela Frelimo que supostamente é caracterizada pela exclusão das maiorias.

No percurso narrativo do programa eleitoral do MDM encontramos marcas de manipulação que têm fundamento no slogan “Moçambique para todos” e trata- se de manipulação por sedução e provocação, que visa mover o enunciatário a realizar o seu julgamento sobre a situação frágil do país provocada pela administração desastrosa da Frelimo. Com esse tipo de direcionamento de efeito de sentido, o enunciador pretende que o enunciatário realize a sanção negativa em relação ao governo de Guebuza e decida votar em Simango e no MDM por apresentarem competência do saber-fazer (governar o país).

De maneira geral, verificamos que alguns conteúdos temáticos coincidem nos programas dos três candidatos, sobretudo nas áreas da educação, saúde, infraestruturas, e desenvolvimento.

É importante ressaltar que em suas plataformas, tanto a Renamo quanto o MDM defendem maior transparência nos setores judicial, de defesa de direitos humanos, na administração pública onde sugerem a adoção de profissionalismo como critério de ocupação de cargos públicos e não pela indicação partidária, sobretudo, pela Frelimo, como acontece atualmente.

A Renamo critica a excessiva burocratização na administração pública que leva a atrasos no andamento de processos de diversas áreas e no fluxo de informações entre os setores-chave, prejudicando os níveis de desenvolvimento organizacional.

Nas suas propostas, a Frelimo assim como a Renamo, foram muito generalistas. Além desse aspecto, a Renamo apresentou um programa de governo muito resumido e misturando as áreas, o que não facilita a sua compreensão pelo

eleitor. Já a Frelimo privilegiou o balanço das ações do mandato 2004-2009 e dedicou maior parte do programa às justificativas da necessidade de sua permanência no governo para dar continuidade às atividades iniciadas.

Vale ressaltar também que o foco do discurso da Frelimo convergiu na problemática do combate à pobreza e todos os outros temas giraram em torno deste assunto, e assim, a Frelimo perdeu a oportunidade de ampliar o olhar do eleitorado para as outras áreas consideradas fundamentais.

A seguir, iremos analisar o formato e a configuração dos programas eleitorais dos três candidatos para compreendermos se possuem semelhanças e/ou diferenças e as potencialidades dos formatos adotados para a construção da propaganda de televisão.

4.1.7. Formato e configuração dos programas eleitorais do horário gratuito

No documento LEONILDA ADELINO ANTÓNIO SANVECA MUATIACALE (páginas 162-168)