• Nenhum resultado encontrado

Propostas de Justiça do Trabalho na Constituinte de 1934

Capítulo 1: Os debates parlamentares e a situação do Direito do Trabalho no Brasil

1.2. Propostas de Justiça do Trabalho na Constituinte de 1934

No primeiro projeto constitucional elaborado pela comissão governamental que havia se reunido do Palácio do Itamarati ainda não aparecia o tema da Justiça do Trabalho, mas vale destacar o artigo 124 que determinava que a lei poderia estabelecer condições de trabalho na cidade e nos campos e intervir nas relações entre capital e trabalho, “para os colocar no mesmo pé de igualdade”. O segundo parágrafo de tal artigo ainda determinava que caberia ao Ministério Público da União e dos estados velar pela aplicação das normas protetoras do trabalhador “bem como prestar-lhes assistência gratuita, sem prejuízo das atribuições pertencentes aos órgãos especiais que a lei criar para tal fim.” Além disso, os artigos 120 e 121 determinavam a possibilidade de o governo federal intervir em empresas públicas e privadas para garantir o interesse público.35 Tais trechos do anteprojeto de Constituição já deixavam claras as intenções de que o Estado poderia e deveria intervir nos

33

Ver Anais da Assembleia Nacional Constituinte, vol. X, 1934, pp. 556-557.

34

GOMES, Ângela de Castro. Burguesia e Trabalho. Op. Cit., p. 287.

35

17

assuntos privados a fim de regular tanto os assuntos econômicos como a relação entre capital e trabalho.

Já numa das primeiras sessões da Constituinte apareceu o assunto da Justiça do Trabalho. No dia 22 de dezembro de 1933, Abelardo Marinho, representante dos profissionais liberais e ferrenho defensor dos programas tenentistas,36 apresentou uma proposta de emenda na qual propunha a criação da Justiça do Trabalho para “resolver as questões entre o capital e o trabalho e sobre tudo o que diga respeito à atividade e organização profissional”. Além disso, sua proposta determinava que os conselhos de conciliação e arbitragem fossem compostos por representantes de patrões e empregados.37

A proposta de emenda foi depois acolhida por Levi Carneiro,38 também representante dos profissionais liberais e membro da comissão constitucional. Mas o deputado acentuou que os tribunais do trabalho não deveriam ter feição judiciária. Carneiro assim o fez por acreditar que seria muita rigidez incluir uma matéria na Constituição sobre assunto “em que apenas ensaiamos os primeiros passos”. Ainda assim, o deputado continuou sua argumentação afirmando ser necessário “admitir expressamente os tribunais de índole „quase judiciária’, destinados à decisão desses e de outros casos, restringindo o alcance dos seus julgados por um outro dispositivo que terá colocação no capítulo – „declaração de direitos‟.”39

Dessa forma, a proposta acabou sendo aceita no primeiro projeto de Constituição, elaborado pela “Comissão dos 26”. No entanto, a Justiça do Trabalho apareceu no capítulo referente ao Poder Judiciário com o seguinte texto:

“Para dirimir questões entre empregadores e empregados, poderá a lei federal criar a justiça do Trabalho ou instituir Juntas de Conciliação e Arbitragem, ressalvada a apreciação, no Juízo comum competente, da prova produzida sobre matéria de fato e a da interpretação da lei aplicada.”40

Nessa visão, cabia ainda à justiça comum papel importante na aplicação e no julgamento das questões levadas aos tribunais trabalhistas.

36

Cf. ABREU, Alzira Alves et al (coord.). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro – Pós 1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. Disponível em http://cpdoc.fgv.br/acervo/dhbb, acessado em 28 de julho de 2013.

37

Diário da Assembleia Nacional, n. 40, ano I, 27 de dezembro de 1933, p. 36.

38

Levi Carneiro exerceu, na Constituinte o papel de vice-presidente da Comissão dos 26, que elaborou o projeto de Constituição. Ver ABREU, Alzira Alves et al. Op. Cit.

39

Anais da Assembleia Nacional Constituinte, vol X, 1934, p. 366. Grifos meus.

40

18

Medeiros Neto, líder da maioria, elaborou requerimento para a supressão das palavras “poderá a lei federal”. Durante votação de tal mudança, Prado Kelly, líder do bloco fluminense e do bloco parlamentar que reunia as bancadas majoritárias do Norte e do Nordeste, afirmou que o requerimento seria aceito por sua bancada, já que, com isso, ficaria determina da a instituição da Justiça do Trabalho, uma “conquista social” obtida pela “cultura jurídica do Brasil, de acordo com os reais e legítimos anelos do povo brasileiro.”41

Valdemar Falcão, membro do Clube 3 de Outubro42, também teceu elogios à criação de tribunais trabalhistas e afirmou que tal iniciativa consagrava uma das “mais belas” conquistas da Revolução de 1930. O deputado ainda destacou que a medida não poderia ser atacada como pouco “ajustável” ao país, pois ela já vinha sendo testada em países de tipo social semelhante ao nosso, como a Nova Zelândia: “O Brasil [...] resgata, neste momento, uma das dívidas que não poderia deixar de saldar com as massas trabalhadoras”.43

Valdemar Falcão ainda foi o responsável pela elaboração de emenda que propunha a constituição da Justiça do Trabalho obedecendo sempre ao princípio da eleição de seus membros e juízes, sem, no entanto, explicitar a responsabilidade por tal eleição, mas determinou também que no processo de exame e julgamento dos casos, deveria ser adotado o rito mais sumário possível.44 Falcão, aliás, foi um dos mais ferrenhos defensores da Justiça do Trabalho com representação paritária e organização permanente, ao contrário de Levi Carneiro, que propunha que os tribunais deveriam ser criados somente quando julgados necessários pelo governo federal.

Carneiro foi também defensor da Justiça do Trabalho fora dos limites do Poder Judiciário com um argumento muito parecido com o que seria usado posteriormente por Oliveira Vianna. Segundo o parlamentar, “seria mesmo inconveniente, sob certos aspectos, porque o que se diz é que a mentalidade judiciária é inadequada para a solução dessas questões. É com outra mentalidade que tais questões teriam que ser resolvidas.”45

Mas ainda que Carneiro defendesse a Justiça do Trabalho fora do Poder Judiciários, o

41

Anais da Assembleia Nacional Constituinte, vol. XXI, 1934, p. 154.

42

Organização política fundada em fevereiro de 1931 no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, por alguns representantes do chamado pensamento tenentista. Depois de funcionar como principal porta-voz do movimento tenentista, foi extinta por decisão de seus membros em 15 de abril de 1935. Ver verbete em ABREU, Alzira Alves et al. Op. Cit. Ver, sobre isso, ARAÚJO. Op. Cit.

43

Idem, p. 155.

44

Ver Diário da Assembleia Nacional, n. 80, ano II, 14 de abril de 1934.

45

19

parlamentar concebia sua autonomia de forma completamente oposta aos ideais de Oliveira Vianna, já que Carneiro entendia que à justiça comum ainda caberia a última palavra em questões de fato e de interpretação.46 Vianna, por sua vez, utilizava o argumento da inadequação da mentalidade judiciária para defender a autonomia da Justiça do Trabalho, que deveria contar com juízes especiais e se manter afastada da estrutura do Poder Judiciário.47

O deputado ainda afirmava que mesmo mantendo a Justiça do Trabalho fora dos limites do Poder Judiciário era preciso que se garantisse uma forma de destacar a supremacia desse Poder sobre a nova justiça. Assim, para Carneiro, era necessário que se assegurasse ao Judiciário a última palavra em todas as questões de fato e de interpretação de leis, ainda que estas passassem por “tribunais administrativos ou em tribunais de índole quase judiciária”. É possível entender essa defesa de Carneiro como uma forma de enfraquecer a nova justiça, já que, assim, ela não teria uma feição judiciária autônoma, sendo totalmente dependente da justiça comum. Mas também não se pode deixar de destacar as dificuldades que os constituintes encontravam em estabelecer parâmetros para uma justiça nova, que tratava de um direito também novo, que ainda provocava inúmeros debates e controvérsias com relação ao seu objeto e seus limites, como será visto posteriormente através dos textos jurídicos sobre o assunto.

Em votação, Levi Carneiro viu sua emenda alterada: os deputados optaram por suprimir a palavra ”poderia”, fazendo com que a Justiça do Trabalho tivesse um caráter permanente, tal como defendido por Valdemar Falcão e Medeiros Neto. Ainda assim, mais tarde, ficou estabelecido na Constituição a proposta de Carneiro que tirava os novos tribunais do trabalho dos limites do Poder Judiciário, mas com estrutura permanente.

Finalmente, em 16 de julho de 1934, ficou determinada no artigo 122, do Capítulo da Ordem Econômica e Social, a instituição da Justiça do Trabalho, acrescentando que “a constituição dos Tribunais do Trabalho e das Comissões de Conciliação obedecerá sempre ao princípio da eleição de membros, metade pelas associações representativas dos

46

É interessante notar que tal concepção de Justiça do Trabalho seguia, de certa forma, o modelo norte- americano de tribunais trabalhistas: uma junta com feição quase judicial, cujas decisões estavam sujeitas à análise das cortes. Ver LIMONCIC, Flavio. Os inventores do New Deal: Estado e sindicatos no combate à Grande Depressão. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.

47

20

empregados, e metade pelas dos empregadores, sendo o presidente de livre nomeação do Governo”.48

1.3. O anteprojeto de Justiça do Trabalho e sua discussão na Câmara dos