DO ESPINHO – PILÕES/PB”
PROPOSTAS PARA ESCOLAS URBANAS
Na seção anterior, o projeto De Olho na Água foi apresentado e analisado como um exemplo de iniciativa de EA bem sucedida e que engloba diversas atividades de maneira sistêmica e interligada, de modo a proporcionar a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade em áreas de ambiente essencialmente natural e não tão transformado pelas ações humanas (e urbanas) se relacionados às grandes cidades. Sendo assim, objetivamos, nesta seção, pensar formas de implantar ações ambientalmente educativas em espaços que não contam com um contingente natural preservado como o de Icapuí, ou seja, uma cidade grande ou média.
Inicialmente, é importante deixar evidente que trabalhar a Educação Ambiental em meio urbano é algo desafiador. Ter consigo essa informação é essencial antes de se iniciar um projeto educacional que se encaixe nessa área. Inúmeros são os estigmas, preconceitos, paradigmas e reproduções de pensamentos passivos acerca de fenômenos que nada têm de naturais. Em uma cidade com aproximadamente 2.600.000 de habitantes, como é o caso de Fortaleza - cidade para a qual este projeto está sendo destinado - trabalhar com EA revela-se um desafio de diversas origens, apesar de um dos principais problemas referir-se à uma falha conceitual, falha esta que será discutida mais à frente. Esta proposta de EA em ambiente urbano está sendo pensada de modo a contemplar qualquer escola inserida no recorte espacial, já que dificilmente uma instituição de ensino fortalezense não estará rodeada por transformações espaciais antrópicas.
Para podermos direcionar nossa proposta de forma coerente ao ambiente urbanizado, é preciso primeiro definir o que é urbano. As definições do conceito da palavra “urbano” variam bastante de autor para autor. Porém, segundo Lencioni (2008), o importante é que compreendamos que, na maioria das vezes este termo aparece vinculado à ideia de sociedade capitalista industrial, que se organiza com base no sistema econômico vigente. Utilizaremos este conceito de “urbano” na presente proposta, já que ele corresponde à realidade fortalezense e à de boa parte das outras cidades brasileiras.
Sabe-se que um dos principais problemas ambientais enfrentados pela capital cearense é o acúmulo de lixo nas ruas. Atualmente, existem cerca de 1.800 pontos de lixo em Fortaleza. Essa mazela existe devido a diversas razões, como ineficiência da coleta, abandono governamental das periferias, falta de educação da população, entre outros. Sendo assim, verificou-se a importância
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160de trabalhar o lixo na presente proposta de EA, já que o acúmulo de resíduos começa por atos simples, apesar de incorretos, como o famoso “jogar lixo no chão”.
A proposta é de que as atividades sejam realizadas com adolescentes de 11 a 14 anos, para que possam ser abordados conteúdos um tanto mais complexos, como química e sociologia e para que possam ser realizadas algumas aulas de campo, apesar de ter o conhecimento acerca das dificuldades em implantar certas atividades extras em certas instituições. Portanto, os encontros seriam realizados quinzenalmente, alternando-se a disciplina que “cederia” seu horário, já que se trata de uma atividade interdisciplinar de EA.
No início do capítulo foi citado uma dificuldade conceitual quanto ao trabalho de EA em um espaço urbano. No trabalho de Reigada (2004) é notável que há um pensamento coletivo entre as crianças de que o ambiente é apenas aquele tomado por elementos naturais bióticos e abióticos, e que quando há ação antrópica, há destruição e que elas não podem fazer nada a respeito, contribuindo com a ideia fatalista de passividade e naturalidade de acontecimentos que não são, de forma algumas, naturais. A visão de ambiente como apenas aquilo que contém plantas e animais, corrobora a ideia errônea de que apenas aquilo que é natural merece cuidados, enquanto que o meio que nos cerca, já urbanizado, não precisa de atenção. O primeiro passo então, seria aplicar uma atividade que fizesse os educandos repensarem sobre o tema e compreenderem que ambiente é tudo aquilo que nos cerca. Então, a atividade poderá incluir dinâmicas de grupo envolvendo desenhos do ambiente, pequenos textos escritos pelos alunos, ou mesmo uma simples roda de conversa para que o professor faça uma sondagem das concepções prévias do estudante e depois possa elucidar o que for preciso.
Para uma ação efetiva de EA em ambiente urbano, deve-se tomar como ponto de partida espacial a categoria de análise do lugar, por ter um caráter sentimental e estar mais próxima dos educandos. O lugar então seria a escola, não como centro da discussão, mas como uma forma de concretizar o todo. Segundo Oliveira (2010), “a escola no âmbito do espaço geográfico mundial e educacional é o (...) concreto de tal abstração”. Seria então bastante interessante, após o intervalo (recreio), levar os alunos para contemplarem a situação da escola em relação ao lixo, e fora da sala de aula, no pátio da escola discutirem o porquê do modelo de descarte observado. Havia muito lixo jogado no chão? Haviam restos de comida nas lixeiras? Quantas lixeiras existem na escola? E logo após organizar um mutirão de limpeza com os educandos, que deveriam separar o lixo de acordo com a coleta seletiva. Caso não haja lixeiras coloridas específicas, este seria um bom momento para propor a confecção destas com baldes de tinta usados que posteriormente os alunos ou o professor poderiam trazer de casa, ou até mesmo direcionar os estudantes à direção para que eles reivindiquem a implantação da lixeira seletiva. Após o mutirão e a separação do lixo, é fundamental que ocorra a transdisciplinaridade entre a química e a sociologia. A química explicaria o tanto de tempo que cada material leva para se decompor no ambiente e a sociologia buscaria elucidar a relação entre o sistema econômico vigente, o capitalismo, com o desperdício de comida e o número de embalagens descartadas, mostrando que somos encorajados a consumir produtos industrializados, muitas vezes em quantidade desnecessária,
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161ao invés de nos alimentarmos de coisas saudáveis que se decompõem mais rápido. Ao final da atividade, que pode durar dois encontros ou mais, os adolescentes teriam a percepção de que a escola é um reflexo da sociedade, e que ela não se encontra isolada dos acontecimentos que transcendem os muros da instituição, passando a ver o ambiente como algo modificado por uma ordem socioeconômica preestabelecida. É importante ressaltar que, após a realização de uma atividade, o encontro seguinte deve ser reservado para discussões.
Posteriormente, o recorte espacial de trabalho deve ser ampliado. O próximo objeto de estudo será, então, o bairro. Inicialmente, o professor incitará uma discussão sobre quais são os elementos ambientais do bairro onde a escola se situa e se há ou não um problema relacionado ao lixo na localidade. Caso as condições físicas da escola permitam, os alunos deverão fazer, na instituição, uma pesquisa de notícias sobre a situação dos resíduos no bairro. Caso seja inviável, a atividade pode ser proposta para casa. Após a realização desse conjunto de tarefas, devem ser realizadas, mensalmente, aulas de campo pelo bairro, para que os jovens vejam a situação do local e possam fazer um mutirão juntamente ao professor em pontos específicos como praças e parquinhos. No encontros seguintes, deve ser feita uma discussão sobre o porquê de este ser o estado do local. Faltam lixeiras? O lugar voltou a ficar sujo mesmo depois do mutirão? Há pontos de lixo? A coleta é ineficiente? O que pode ser feito para que solucionar este problema? Dependendo do resultado da discussão, o professor, os alunos e a comunidade deverão organizar um abaixo assinado reivindicando melhorias como regularidade da coleta e lixeiras nas praças, para ser encaminhada à regional na qual o bairro está inserido, como regularidade da coleta e lixeiras nas praças. Outro ponto interessante para ser trabalhado é a situação dos recursos hídricos do bairro em relação ao descarte de resíduos. Se houver um rio ou lago na região, é essencial que os professores levem os estudantes para verem de perto o estado dessa água e expliquem que, infelizmente, assim como naquele bairro, os outros rios, lagos e lagoas de Fortaleza também sofrem com o crescimento das cidades, que consequentemente faz com que a quantidade de lixo cresça também. Ao final das atividades que envolveram a análise do bairro, os estudantes deverão fazer um pequeno relatório sobre os tours e mutirões que fizeram pelo bairro, a experiência de trabalhar em grupo, e o que eles, como um grupo, podem fazer para mudar uma situação problemática de poluição.
Ao pôr em prática uma proposta de EA em Fortaleza, deve-se levar em consideração um elemento importantíssimo presente em 8 das 9 capitais nordestinas: o litoral. A praia como espaço de lazer, convivência e manutenção ambiental deve, sem dúvidas, ser abordada nas atividades de EA. Próximo ao final do projeto, é interessante que seja feita uma aula de campo com os alunos para uma praia bem urbanizada da cidade, como por exemplo, a Praia do Náutico, que mesmo rodeada de prédios modernos e elegantes, é um local tão poluído quanto o bairro onde a escola se encontra. É essencial que esta atividade seja colocada em prática, pois dessa forma o recorte espacial analisado pelo aluno será ampliado e haverá a percepção acerca da gravidade do problema e de que ele não se restringe a apenas um lugar da cidade, sendo este apenas um reflexo de uma sociedade capitalista. Falar sobre as áreas impróprias para o banho também é necessário, para que haja uma compreensão
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162por parte dos alunos que, tanto os resíduos sólidos, quanto os dejetos líquidos não estão tendo um descarte apropriado, e que não há como “jogar algo fora”, já que tudo que descartamos continuará no planeta. Essa é uma boa hora para discutir como a reciclagem e a reutilização ajudam na diminuição da quantidade de lixo. Como já foi dito anteriormente, o encontro seguinte deve ser utilizado para discutir o que foi visto na atividade.
Sabe-se que falar de reciclagem em um projeto de EA é imprescindível. Sendo assim, uma oficina de reciclagem em grupo com materiais anteriormente solicitados aos alunos pelo professor é uma ótima ferramenta de descontração e de prática dos conhecimentos adquiridos. Dependendo das condições da escola, poderá ser feita uma exposição durante o intervalo dos materiais confeccionados, com etiquetas explicitando o nome do objeto, o material do qual ele foi feito e o tempo que aquele material levaria para se decompor se tivesse sido descartado no ambiente.
Para, de certa forma, finalizar o projeto, foi pensado uma associação das atividades que seriam feitas ao longo da proposta de EA e os recursos midiáticos. Segundo Oliveira (2004):
O professor de geografia ainda acha que vai contar uma novidade sobre o Brasil e o planeta de forma mais cativante que os meios eletrônicos e digitais de comunicação. Cativante seria sua postura, quando levasse o aluno, direta ou indiretamente, a ver no cotidiano espacial, elementos que confrontam ou enriquecem tais saberes. (OLIVEIRA, 2009, p.66)
Sendo assim, o professor poderá propor aos alunos a confecção de dois jornais, um escrito e um falado (em formato de noticiário que poderá ser gravado, mesmo com a câmera do celular, caso a condição dos alunos permita, ou então “ao vivo” em sala de aula) para que eles possam “divulgar” e/ou “noticiar” as atividades desenvolvidas durante o projeto. Vale ressaltar que é essencial que as tarefas colocadas em prática devem ser registradas com fotos para que os educandos possam utilizá-las na confecção do jornal escrito.
Ao final de todas as atividades o professor deverá organizar uma roda de conversa para discutir com os estudantes os resultados do projeto. É importante que, durante todo este período, os alunos tenham internalizado a importância do trabalho em grupo, as suas ações como sujeitos transformadores da realidade e a necessidade de manter limpo o ambiente, seja ele urbano ou natural, para que a convivência, a saúde, o lazer e as responsabilidades coletivas sejam preservadas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Buscar propostas de Educação ambiental seja em escolas, seja em comunidades, é muito difícil, pois até torná-las efetivas tem um longo processo, primeiro tem que existir um importante percurso de conscientização para depois partir para a ação, mas só ficar na conscientização e esquecer a ação também não geram resultados. Segundo Piletti (2007), aprendemos cerca de 90% do que vemos, ouvimos e praticamos, bem diferente dos 20% que internalizamos em uma aula essencialmente oral. Sendo assim, comprova-se que é necessário que
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163teoria e prática sejam realizadas e expostas de forma efetiva para assim obter êxito.
O foco deste artigo, foi Educação Ambiental em áreas urbanas, por acreditar que ainda sejam muito vagos os conceitos que são dados em escolas que estão inseridas nesse meio, pois a EA ganha dimensões que são pouco exploradas. Muitas vezes a prática não ganha espaço, e como citado anteriormente o processo de conscientização não se efetiva se não andar aliado com a ação. O meio ambiente precisa de propostas que realmente sejam cumpridas e de medidas que se mostrem eficazes para que realmente possamos afirmar que existe a Educação Ambiental.
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