D v. 1 Saulo persegue para a morte os cristãos
III. UM ENCONTRO COM A LUZ PASCAL
4. Propostas para a Igreja de hoje
Um texto longo e rico como Act 9, 1-31 sugere algumas propostas em ordem a uma melhor vivência cristã nos dias de hoje. Podemos encontra-las se encararmos esta experiência de Saulo como um modelo de discipulado e de conversão ou adesão a Jesus Cristo.
A apresentação de Paulo pretende, segundo Lucas, “propor um modelo ideal de cristão e apóstolo”250
. Este é um verdadeiro modelo de discipulado, porque não assenta apenas na poderosa iniciativa de Deus, mas também destaca a resposta generosa e pronta de Saulo como “opção de fé”, ou seja, uma resposta livre à iniciativa de Deus, que mostra como deve ser o comportamento de quem adere ao projecto cristão251, a qual se apresenta como um verdadeiro paradigma para toda a humanidade, porquanto mostra que a possibilidade de adesão a Cristo está aberta a qualquer um252.
Como modelo de discipulado, Act 9, 1-31 destaca-se pela sua dimensão comunitária, que transparece da constante presença da comunidade eclesial. Daqui se depreende que
249
BENEDICTUS PP.XVI, “Audiência geral”, Apóstolo São Paulo (3): A “conversão” de São Paulo.
250
R.FABRIS, op. cit., p. 183.
251
Cf. Ibid., pp. 183.190.
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qualquer processo de adesão a Cristo tem uma dimensão comunitária: aderir a Cristo é aderir à missão cristã no mundo. Deste modo, a comunidade cristã será marcada pela presença constante de Deus que a elegeu como “povo”253
que tem a obrigação de fazer o anúncio explícito do Senhor em quem acredita254. É o mesmo Deus que chama Saulo a uma missão concreta: fazer parte do apostolado cristão. Por isso, este é, também, um modelo de dimensão missionária255.
O episódio destaca-se, ainda, pela própria figura de Paulo, tradicionalmente considerado como um dos grandes convertidos da história da Igreja. Refira-se novamente que, por “convertido” não compreendemos uma mudança de religião ou qualquer negação da sua tradição judaica. Mais do que modelo de conversão, Paulo apresenta-se como um exemplo de fidelidade à vocação do povo eleito. Assim, à semelhança do povo hebreu, também Paulo mostra-se como aquele que é chamado por Deus a fazer caminho com Ele, a encontrar Cristo equanto luz e força para a sua missão256.
Com efeito, a figura de Paulo tem, neste relato, um carácter icónico: não será que Lucas propõe aos perseguidores da Igreja, seus contemporâneos, a mesma experiência de Paulo? Não estará Lucas a propor a comunidade como único caminho de adesão de Jesus Cristo? Não será o anúncio evangelizador a principal missão de qualquer cristão no mundo? São algumas questões cuja resposta deixamos em aberto para posteriores reflexões.
Cada um é chamado a fazer a mesma experiência de Saulo: deixar-se iluminar pela Luz ressuscitada e ressuscitadora. Um encontro fulminante, qual relâmpago inesperado, a fim de renascermos completamente metamorfoseados (cf. Gl 2, 20). Esta experiência de encontro com Jesus deve ser causador de alegria para todos, uma alegria que deve ser anunciada a
253
Cf. CONCILIUM OECUMENICUM VATICANUM II, Constitutio Dogmatica de Ecclesia Lumen Gentium, n.º 9, in AAS 57 (1965).
254
Cf. FRANCISCUS PP., Adhortatio Apostolica Evangelii Gaudium, n.º 110, in AAS 105 (2013).
255
Cf. G.BARBAGLIO, op. cit., p. 74.
256
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qualquer um e em qualquer lugar257. Paulo percorreu os caminhos do mundo anunciando Aquele que encontrou na estrada, tal como 1Jo 1, 3 refere: “o que nós vimos e ouvimos, isso vos anunciamos”. Aquele que encontrou – e o que anunciará – é Jesus vivo, pois “se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã é também a vossa fé” (1Cor 15, 14)258.
Saulo anuncia aquele que o prostrou na estrada, agora “vencido mas exacerbado pela própria derrota, na esperança mais profunda do seu coração, como não haveríamos de considera-lo com emoção, e até – é preciso dizê-lo – com certa espécie de inveja?”259. O encontro privilegiado com Cristo encheu-o de força para levar o seu nome até aos confins do mundo (cf. Ef 3, 1-11). De facto, este encontro leva ao imediato anúncio, criando verdadeiros “discípulos missionários” porque encontrados pelo Amor de Deus em Cristo Jesus260
. Parado pela “luz”, não cessará de a levar e iluminar todos os corações até que estejam n‟Ele instauradas todas as coisas (cf. Ef 1, 10).
Podemos ainda perguntar-nos “o que significa isto para nós?”261. Paulo, porque encontrado pelo Ressuscitado que o envolveu com a sua luz, tornou-se aberto ao “diálogo amplo com todos, tornou-se capaz de se fazer tudo em todos”262. Tal como Paulo estabeleceu uma verdadeira relação de proximidade com Jesus Ressuscitado, assim também nós “somos cristãos unicamente se encontrados por Cristo”263
.
Quando olhada como um modelo de discípulos, de convertidos, de iluminados ou, simplesmente, de encontrados pelo próprio Jesus, a experiência de Paulo mostra-nos que “só na relação pessoal com Cristo, só neste encontro com o Ressuscitado, nos tornamos realmente cristãos”264
. A um verdadeiro cristão é atribuída uma missão: evangelizar265. Segundo o Papa
257
Cf. FRANCISCUS PP., Evangelii Gaudium, n.º 127-128.
258
Cf. Ibid., n.º 275.
259
D.ROPS, São Paulo, conquistador de Cristo, p. 59.
260
Cf. FRANCISCUS PP., Evangelii Gaudium, n.º 120.
261
BENEDICTUS PP.XVI, “Audiência geral”, Apóstolo São Paulo (3): A “conversão” de São Paulo.
262 Ibid. 263 Ibid. 264 Ibid. 265
“A Igreja, enviada por Deus a todas as gentes para ser „sacramento universal de salvação‟, por íntima exigência da própria catolicidade, obedecendo a um mandato do seu fundador, procura incansavelmente anunciar
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Francisco, a acção missionária da Igreja é o paradigma de toda a sua obra, porque é a obediência ao mandato do próprio Jesus266. O anúncio do Evangelho, além de um dom, é a nossa maneira de ser, o modo de ser da Igreja, tal como o referiu o Papa Paulo VI: “Evangelizar constitui, de facto, a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade. Ela existe para evangelizar”267.
Depois de encontrados por Jesus Cristo, somos enviados com uma missão sem fronteiras, foi esta a grande mudança de Paulo na sua vida, é também a nossa:
“O nosso serviço de evangelização já não pode consistir simplesmente em evangelizar o outro até a um certo ponto, mas em evangelizá-lo até que ele sinta a necessidade de se constituir em evangelizador. Então sim, evangelizar será a nossa (de todos) maneira de ser. E estaremos sintonizados com o Apóstolo Paulo”268
.
o Evangelho a todos os homens” (CONCILIUM OECUMENICUM VATICANUM II, Decretum de Activitate Missionali Ecclesiae Ad Gentes, n.º 1, in AAS 58 [1966]).
266
Cf. FRANCISCUS PP., Evangelii Gaudium, n.º 15. Mt 28, 19-20 (“Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos,
baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei convosco até ao fim dos tempos”. Act 9, 15 (“Este homem é instrumento da minha escolha, para levar o meu nome perante os pagãos, os reis, e os filhos de Israel”).
267
PAULUS PP.VI, Adhortatio Apostolica Evangelii Nuntiandi, n.º 14, in AAS 68 (1976).
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