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3. ASPECTOS JURÍDICOS NO CONTEXTO DO SISTEMA GALILEO

3.5. Propriedade Intelectual e o sistema Galileo

O termo “propriedade intelectual” refere-se a um vasto grupo de doutrinas jurídicas que regulamentam as utilizações dos diferentes tipos de ideias e insígnias. (Fisher, 2006). Conforme refere este autor, a lei que regula o direito de autor protege várias formas

originais de expressão, como filmes, músicas, romances, programas de software informático.

A lei que rege as patentes protege as invenções. A lei que regulamenta as marcas registadas protege palavras e símbolos que identificam, perante os consumidores, os bens e serviços produzidos ou fornecidos por determinadas pessoas ou firmas.

A lei do segredo comercial protege informação valiosa em termos comerciais que as empresas procuram ocultar dos seus concorrentes.

Pode-se dizer que com os direitos da propriedade intelectual se reconhece o esforço derivado de uma determinada invenção ou actividade criativa original e ao mesmo tempo se concede um direito exclusivo àquele que produziu determinada utilidade. Embora, pela sua característica não mensurável nem palpável, se considere que os direitos de propriedade intelectual têm uma natureza intangível, abstracta e, como tal, imprecisa, ainda assim se reconhece a necessidade da sua protecção. E isto, independentemente de todas as teorias acerca da sua utilidade, nomeadamente económica ou vantagens de permanecer no domínio privado ou poder resvalar para o domínio público, ou ainda, de qual o período temporal em que determinada criação ou evento deverão produzir direitos para o seu autor.

Dada a divulgação e circulação internacional das criações intelectuais e dos inventos técnicos, os direitos de propriedade intelectual reclamam que haja uma uniformização das legislações nacionais. Nesse sentido a Organização Mundial da Propriedade Intelectual desempenha um papel fundamental.

Mas se o assunto é mais ou menos pacífico quando falamos de criatividade e invenções de aplicação terrestre, já que o direito que rege essa invenção será o do território respectivo, já a questão não será tão certa e líquida quando a invenção é originada ou produzida no espaço.

Sendo o espaço, por definição, um bem não apropriável por nenhum Estado, sendo considerado um “bem comum da humanidade”, a questão da registo da invenção ou da criação para efeitos de determinação do ordenamento jurídico que lhe será aplicável, dependerá de qual o veículo espacial onde a invenção teve lugar.

No caso dos satélites, que são equipamentos tecnológicos desenvolvidos na terra, esta questão do espaço e a sua relevância para efeitos da definição do direito aplicável, não se porá (ao contrário, por exemplo, de uma invenção conseguida a bordo da Estação Espacial Internacional).

Todavia, no caso do sistema Galileo, este assunto assume, face ao próprio projecto e aos membros que o integram, certas peculiaridades.

Ora, de acordo com o Regulamento (CE) n.º 1321/2004 do Conselho, a Autoridade Supervisora do Galileo (que, recorde-se, é uma agência da União Europeia) será “proprietária de todos os activos corpóreos ou incorpóreos criados ou desenvolvidos pelo concessionário durante as fases de implantação e exploração, inclusivamente os criados ou desenvolvidos pelos subcontratantes ou por empresas sob o seu controlo ou pelos subcontratantes destas empresas”, e, “o direito de propriedade incluirá todos os direitos de propriedade intelectual na acepção do nº. 1 do artigo 1º do Regulamento (CE) n.º 772/2004 da Comissão e, em particular, o direito às marcas de fabrico ou comerciais.

De acordo com este último Regulamento, são "Direitos de propriedade intelectual", os direitos de propriedade industrial, o saber-fazer, os direitos de autor e os direitos conexos.

Ou seja, porque os projectos e invenções são desenvolvidos por iniciativa, financiamento e no âmbito da organização inerente ao Galileo, os direitos de propriedade intelectual não serão reconhecidos a um qualquer inventor individual, mas sim à entidade colectiva, a Autoridade Supervisora.

Ou seja, parece haver a intenção de manter sobre controle da Autoridade Supervisora todas as invenções surgidas no âmbito do Galileo. Se isso não parece assumir especial particularidade no âmbito dos Estados-membros que integram a União Europeia, já a participação de Estados terceiros ou de entidades privadas no projecto Galileo, implica que a gestão das invenções, das patentes (já que a definição do direito aplicável será o da União Europeia) será crucial para alcançar o potencial económico dessas invenções. E não só, para a própria União, mas essencialmente para esstes Estados terceiros ou os privados,

No caso da República Popular da China, a solução alcançada no âmbito do Acordo de Cooperação com a União Europeia consiste na aplicação de protecção apropriada de direitos de propriedade intelectual, “em conformidade com as normas internacionais aplicáveis”.

Por outro lado, a análise das actuais disposições do direito de propriedade intelectual merecem uma revisita cuidada no sentido de saber se serão adequadas para assegurar que os agentes inovadores recolhem benefícios das suas invenções, garantindo, por sua vez, ao utilizador final o justo benefício dessas mesmas inovações.

Na verdade, no âmbito do sistema Galileo prevê-se que possam ser registadas patentes de invenção de produtos relacionados com os métodos utilizados pelos utilizadores finais dos receptores do sinal (nomeadamente de captação, descodificação de sinal) de navegação por satélite, quando as potenciais fontes de receita da navegação por satélite residem no segmento dos utilizadores, prevendo-se que o número de utilizadores aumente substancialmente.

A par de razões de segurança, razões de protecção de direitos intelectuais, pela sua importância, requererão que os Estados-membros e a União Europeia mantenham a última palavra no âmbito de um controlo que venha a ser definido para o sistema Galileo, bem como em alguns aspectos chave particulares.

Estas parecem ser razões que, a exemplo da matéria de responsabilidade civil, conforme defendido no supra citado estudo “Galilei – Recomendations and Conclusions, DD120” justificaria uma Convenção, na medida em que como instrumento jurídico internacional, permitiria um melhor e adequado enquadramento jurídico.

4. A COOPERAÇÃO ENTRE SECTORES PÚBLICO E PRIVADO NO