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1.3 PROPRIEDADE INTELECTUAL

1.3.2 Propriedade Intelectual em fitomedicamentos

químico-farmacêuticas e alimentícias evidenciou-se com a incorporação, na nova lei, das chamadas patentes pipeline. Na Lei da Propriedade Industrial existem alguns critérios que as patentes pipeline devem seguir: a) o objeto de pedido de patente não pode ter sido colocado em nenhum mercado; b) não terem sido realizados no Brasil sérios e efetivos preparativos para a exploração do objeto de patente; c) prazo de um ano para requerimento de patentes pipeline, a contar da data de publicação da LPI; d) indicação da data do primeiro depósito no exterior; e) comprovação de concessão da patente no país onde foi depositado o primeiro pedido; f) o objeto solicitado não pode infringir o disposto nos arts.10 e 18 da LPI.

É importante destacar que as patentes pipelines foram permitidas apenas no Brasil. Este tipo de patente, que trouxe diversos problemas para a Saúde Pública no Brasil, não existiu em nenhum outro lugar do mundo.

Como observado, apenas após a promulgação da Lei da Propriedade Industrial é que temos, de fato, uma proteção para produtos da área farmacêutica.

A partir de agora, veremos como pode se dar a proteção para produtos farmacêuticos, especificamente, produtos oriundos de plantas medicinais, com enfoque em patentes.

Em matéria de fitomedicamentos, segundo Oliveira (2011), no Brasil, a produção de fitoterápicos pode se beneficiar de proteção intelectual por três formas distintas, direta ou indiretamente: o sistema de patentes, a proteção por cultivares e a indicação geográfica. Oliveira (2011), menciona que o sistema de patentes não considera invenção plantas per se, nem produtos extraídos das mesmas, tais como compostos e extratos (art. 10, inciso IX, da Lei da Propriedade Industrial (LPI) - nº 9.279/96). Entretanto, podem ser patenteados os processos de obtenção de extratos ou compostos químicos ativos fitoterápicos, assim como as composições contendo extratos ou moléculas isoladas de fitoterápicos. Em vários países é possível o patenteamento do extrato de plantas e talvez por isso haja tantos casos de patenteamento de produtos da biodiversidade brasileira fora do país, apesar de as misturas de fitoterápicos não poderem ser patenteadas com o mesmo grau de segurança de um medicamento sintético, pois muitas vezes não se sabe as relações de atividade da estrutura e o mecanismo biológico de ação não é único (ALVES, 2008).

Outros argumentos referentes à proibição do registro seguem na linha de que as inovações biológicas carecerem de capacidade inventiva, originando-se da manipulação ou da recombinação de materiais genéticos preexistentes ou, ainda, do isolamento de produtos e substâncias que ocorrem na natureza, tratando-se portanto de descobertas, e não de invenções. Os que defendem a apropriação, por sua vez, afirmam que o sistema de patentes é a única forma de evitar o uso não autorizado de inovações biológicas, uma vez que conhecidas pela concorrência (PARANAGUÁ e REIS, 2009).

Adicionalmente, existe o Registro de Indicação Geográfica (IG), especificado nos artigos 176 a 182 da LPI, que pode ser concedido sob duas espécies: Indicação de Procedência (IP) ou Denominação de Origem (DO). O Registro de Indicação Geográfica também não protege a planta per se, nem a cultivar ou mesmo o fitoterápico, mas pode ser usado como uma alternativa para a valorização da matéria prima vegetal que compõe as formulações dos fitoterápicos

e dos produtos derivados. Dessa forma, os registros de IP e DO funcionam como identificadores de reputação característica e/ou qualidade vinculada à origem e ao processo de obtenção da matéria prima vegetal, sendo o nome geográfico uma condição essencial para sua obtenção (OLIVEIRA, 2011).

No Brasil, o sistema mais utilizado é o Sistema de Patentes, que protege a formulação do fitoterápico ou o processo de obtenção. O Sistema de Proteção de Cultivar é pouco usado, "provavelmente devido ao fato de o melhoramento de plantas medicinais ser uma tarefa árdua, com resultados ainda incertos, uma vez que pode modificar características relevantes para a eficácia da planta de interesse, além da ausência de descritores, o que geraria um custo alto para quem os produzisse para referência". A Indicação Geográfica, por sua vez, é pouco conhecida, principalmente na área de plantas medicinais e fitoterápicos.

"Infelizmente, os pesquisadores do setor ainda não despertaram para o valor agregado que esse ativo intangível pode trazer. Na realidade, as três formas de proteção podem se complementar, 'cercando' de todas as formas possíveis o produto das pesquisas com fitoterápicos" (OLIVEIRA, 2011).

Assim, as diversas formas de proteção do material genético acessado trazem a tona inúmeras discussões. O que atentaremos daqui em diante será o quesito de proteção intelectual sob a forma de patentes, pois como vimos, é a forma mais comum de proteção na tangente de fitomedicamentos. Mas antes, precisamos distinguir alguns conceitos que envolvem as patentes: invenção e descoberta.

1.3.2.1 Invenção versus descoberta

Schumpeter criou uma linha divisória entre dois tipos de descoberta: a invenção e a inovação, estabelecendo que a inovação se diferencia da invenção por estar vinculada a um ganho econômico (SCHERER; CARLOMAGNO, 2009).

Corroborando com esse dado, as descobertas não são consideradas invenções, segundo o art. 10 da LPI e, portanto, não são passíveis de patenteamento. A mera descoberta não resulta, per se, de uma criação humana, não fazendo jus à categoria de invenção, característica essencial às patentes.

Porém, é tema polêmico a mensuração do nível de interferência humana necessário para que algo deixe de ser uma descoberta e passe a ser considerada uma invenção. Seja o art. 10:

I - descobertas, teorias científicas e métodos matemáticos; II - concepções puramente abstratas; III - esquemas, planos, princípios ou métodos comerciais, contábeis, financeiros,educativos, publicitários, de sorteio e de fiscalização; IV - as obras literárias, arquitetônicas, artísticas e científicas ou qualquer criação estética; V - programas de computador em si;

VI - apresentação de informações; VII - regras de jogo;

VIII - técnicas e métodos operatórios ou cirúrgicos, bem como métodos terapêuticos ou de diagnóstico, para aplicação no corpo humano ou animal; e IX - o todo ou parte de seres vivos naturais e materiais biológicos encontrados na natureza, ou ainda que dela isolados, inclusive o genoma ou germoplasma de qualquer ser vivo natural e os processos biológicos naturais.

Essa questão ganha vulto com o número crescente dos depósitos e concessões de patentes biotecnológicas. O patenteamento de alguns produtos e processos pode colidir com o requisito da atividade inventiva, na medida em que há uma relação por mais tênue entre descoberta e inventividade. Os argumentos referentes à proibição do patenteamento de descobertas ressaltam, por exemplo, que as inovações biológicas carecem de capacidade inventiva, originando-se da manipulação ou recombinação de materiais genéticos preexistentes ou, ainda, do isolamento de produtos e substâncias que ocorrem na natureza, tratando-se, portanto, de descobertas, e não de invenções (PARANAGUÁ e REIS, 2009).

No âmbito científico, definir QUANDO uma descoberta científica passa a ser considerada uma invenção e pode ser patenteada é questão bastante controversa. Deve-se ter sempre em mente que as patentes constituem exceções ao princípio da livre concorrência e da livre circulação de conhecimento, sendo, portanto, recomendáveis interpretações restritivas por parte dos examinadores de patentes e julgadores em geral (PARANAGUÁ E REIS, 2009).

1.3.2.2 Histórico breve sobre patentes

As primeiras patentes existentes datam de 1421 em Florença, na Itália, onde Felipe Brunelleschi e seu dispositivo para transportar mármore, e, em 1449 na Inglaterra com John Utynam ganhando o monopólio de 20 anos, sobre um processo de produção de vitrais (NAVE, 2013).

A primeira lei de patentes no mundo foi promulgada em 1474, em Veneza, já com a visão de proteger com exclusividade o invento e o inventor, concedendo licença para a exploração, reconhecendo os direitos autorais e sugerindo regras para a aplicação no âmbito industrial (NAVE, 2013).

Aproximadamente um século e meio depois, na alvorada da revolução burguesa, a patente surge na Grã-Bretanha com a promulgação do Estatuto dos Monopólios em 1623 (NAVE, 2013).

Nos Estados Unidos, a primeira patente foi emitida em favor do inventor Samuel Hopkins, em 1790, pois o mesmo realizou uma inovação incremental ao melhorar um processo de produção da potassa e do carbonato de potássio através de um novo dispositivo e processo (NAVE, 2013).

As primeiras legislações de patentes surgiram na Europa Renascentista, época e região em que muitos historiadores situam o período transitório do fim do feudalismo para o início do desenvolvimento do sistema capitalista (MAX ATMAN, 2013).

A Lei de Patentes, segundo Max Atman (2013), era definida concisamente, como “qualquer artifício, manufatura, motor, máquina, ou dispositivo, ou, qualquer melhora que não tenha sido anteriormente conhecida ou utilizada”. Concedia ao inventor “o único direito e liberdade de fazer, construir e usar, vedando-se a outros usos” desta invenção.

O custo de se obter uma patente era de cinco dólares: preencher o formulário, na época, custando cinquenta centavos e mais dez centavos por cada cem palavras de especificação, dois dólares para a emissão de patentes atualizada; um dólar para o “Grande Selo” em cera; vinte centavos para a promoção e todos outros serviços. A duração da validade de cada patente era definida pela Direção de Patentes e poderia ser de qualquer lapso desde que não excedesse 14 anos (MAX ATMAN, 2013).

As primeiras 10.280 patentes emitidas entre 1790 e 1836 foram destruídas por um incêndio. Menos de 3 mil foram recuperadas e reemitidas (FIGUEIRA BARBOSA, 2005).

Em 1871, pela primeira vez outorgou-se uma patente para um organismo vivo (uma levedura livre de germes patogênicos, aperfeiçoamento o processo de fabricação de cerveja), a Louis Pasteur, na França. Alguns consideram que o marco jurídico internacional da concessão de patentes para organismos vivos ocorreu com a Decisão da Suprema Corte norte-americana em 1980, quando do patenteamento da bactéria Pseudomonas, com base no fato de que a bactéria fora produzida em laboratório, tendo como aplicação a degradação do óleo cru (BARBOSA, 2002).