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2. A terra como material de construção

2.4. Propriedades da terra como material de construção

Desde sempre, que o Homem foi encontrando soluções e desenvolvendo técnicas para construir abrigos de proteção, conseguindo vencer as barreiras colocadas pela Natureza. Os materiais utilizados, as técnicas escolhidas e os conhecimentos envolvidos são consequência natural da sociedade de cada época. As tradições de construção utilizando a terra como material de construção foram diferindo não só de acordo com a qualidade da própria terra e com o clima, mas também com a cultura, os locais e as experiências transmitidas.

As propriedades da terra que são responsáveis pelas suas inúmeras vantagens são, simultanea- mente responsáveis pela maioria das suas fragilidades construtivas. Desta forma, a terra tem de ser apli- cada de modo adequado tendo em consideração as suas características próprias, como acontece por exemplo com a madeira.

A terra é um material disponível na natureza, constituindo um vasto recurso natural, sendo por isso um material acessível, económico e ecológico. Muitas vezes a terra escavada no local da obra para a construção de estruturas enterradas pode ser utilizada, desde que cumpra os requisitos necessários [San- tos et al., 2014], uma vez que a terra extraída da natureza não é um material padronizado, podendo a sua composição variar de região para região. Por esta razão a aplicação da terra na construção carece de um controlo prévio da sua composição e, se necessário, de correção através da mistura de outras terras argi- losas, da adição de areias com granulometria adequada [Lima, 2013], de fibras ou, no limite, de ligantes correntes.

Relação com a água no estado líquido

O principal inconveniente das construções em terra é a rápida degradação do material sobre a ação das intempéries, dado que o seu ligante, a argila, adquire novamente plasticidade, perdendo a solidez adquirida com a secagem [Lima, 2013]. É possível reduzir a ação nociva da água construindo boas funda- ções, elevando-as até uma altura segura, protegendo a construção com uma boa cobertura e protegendo as paredes com um revestimento eficaz [Castilla, 2011].

O comportamento deste tipo de argamassa face à humidade é semelhante ao de outras argamas- sas correntes, ou seja, se a água entrar nas paredes mas seguidamente evaporar não há problema de maior; mas no caso de a água que penetra nas paredes não conseguir sair, começa a surgir a degradação dos materiais.

O princípio básico da construção em terra é evitar o contacto entre as paredes e o solo. A terra, mesmo quando estabilizada com cimento, é suscetível à ação da água, a qual diminui a sua capacidade de resistência. A possibilidade de acesso de água às paredes através de fenómenos de capilaridade deve ser prevista e evitada, através das técnicas correntes de construção, tais como a utilização de uma terra bem compactada e estável, a previsão de sistemas eficazes de drenagem de águas periféricas e/ou exe- cução de cortes de capilaridade entre a fundação e o inicio da parede de terra [Castilla, 2011; Röhlen e Ziegert, 2011].

A reação da argamassa de terra à água é particularmente importante quando a água tem a possi- bilidade de escorrer sobre a superfície da parede podendo provocar um efeito de erosão rápida e intensa. A terra contrai durante o processo de secagem, não sendo por isso adequada para ambientes expostos a ciclos sucessivos de exposição direta à água e posterior secagem, pois poderá ocorrer uma sucessiva perca de coesão da sua superfície. Por esta razão é que as argamassas de terra devem utilizadas no interior e não no exterior não protegido dos edifícios.

Por outro lado, esta relação com a água permite que a terra possa ser um material 100% reutilizá- vel, desde que não estabilizada, e reciclável, constituindo assim um dos materiais de construção mais ecológicos disponíveis na natureza.

Existem estudos relativos à influência do teor de água correlacionando-o com a trabalhabilidade, sendo um aspeto fundamental [Gomes et al., 2012]. O teor de água tem de facto uma grande influência nas características e na trabalhabilidade deste tipo de argamassas. Esta elevada influência deve-se à pre- sença de argilas, que alteram as suas propriedades físicas em presença da água, nomeadamente ao nível da plasticidade, compactação e retração [Kita, 2013].

A quantidade de água utilizada na amassadura de uma argamassa tem grande influência nas ca- racterísticas físicas, na trabalhabilidade e, consequentemente, na sua aplicação [Kita, 2013].

Higroscopicidade

A capacidade de determinados materiais de construção absorverem o vapor de água do ar ambi- ente pode ser designada como capacidade de adsorção do vapor de água ou simplesmente adsorção e trata-se da capacidade de determinados materiais de construção absorverem água (humidade) do ar num determinado período de tempo, armazená-la e voltarem a libertá-la, alcançando-se um equilíbrio com o ambiente, tendo em conta a temperatura e a humidade relativa desse ambiente [Ziegert, 2011].

A argila tem a capacidade de adsorver e libertar humidade de forma mais rápida e em maiores quantidades do que outros materiais de construção. Esta característica da argila permite que as argamas- sas de terra contribuam para a qualidade dos ambientes interiores, permitindo-lhes funcionar como regula- dor permanente da humidade relativa do ambiente, minimizando dessa forma o desconforto e os problemas de saúde associados aos ambientes muito seco ou muito húmidos [Minke, 2006]. Esta característica per- mite ainda que a terra contribua para a conservação de outros materiais construtivos empregues no edifício, como é o caso, por exemplo, da madeira ou de outros materiais orgânicos [Lima, 2013].

Inércia térmica

A inércia térmica interior de um edifício é função da capacidade calorífica que os locais apresentam e depende da massa superficial útil de cada um dos elementos de construção.

As argamassas de terra têm elevada inércia térmica, conseguindo desta forma armazenar grandes quantidades de energia térmica, sendo demorada na sua difusão. Esta característica pode ser um fator importante em climas com variações térmicas diárias significativas, podendo contribuir para a estabilização térmica dos ambientes interiores [Lima, 2013].

Retração

Uma boa formulação de argamassas de terra para reboco deve conter argila suficiente para ligar todo o esqueleto granular, permitindo a plasticidade necessária para a sua aplicação e prevenir a sua ero- são; no entanto não deve existir em grande quantidade de modo a ser possível limitar a retração [Hamard et al., 2013]. A retração é considerada nociva no caso de causar fendas profundas ou destacamento do reboco, podendo a pequena microfissuração não ser necessariamente prejudicial. Para além da retração do reboco, também a ligação do reboco à parede é importante. Esta ligação depende da natureza da parede (como, por exemplo, materiais constituintes, processo de aplicação, textura e eventuais heterogeneidades), do estado hídrico da parede e da natureza do reboco [Hamard et al., 2013].

Segundo Minke (2006) a retração linear pode variar entre 3 a 12% no caso de argamassas ou blocos de terra e entre 0,4 a 2% em misturas secas de terra, como por exemplo, blocos compactados.