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Capítulo I: Marcadores Discursivos e Texto Argumentativo

3. Marcadores discursivos e texto argumentativo

3.1. Propriedades definitórias do texto argumentativo

A definição de texto argumentativo enquadra-se na problemática da tipologização dos discursos, um dos assuntos mais debatidos e polémicos em Linguística do Texto/ Discurso, e que deu origem a inúmeras propostas17 de classificação.

Baseado no modelo de análise da argumentação18 proposto por Toulmin (1958), adaptado por De Pater (1965) e, mais tarde por Plantin (1990), recuperando a noção baktiniana de “heterogeneidade composicional dos enunciados”19

, as propostas tipológicas de bases textuais de Werlich (1975) e o conceito de superestrutura de van Dijk20, Adam apresenta uma das propostas mais influentes na distinção de textos: o

17 Esta ideia é reiterada por Travaglia (2000:1), que afirma existir, em relação aos estudos para o estabelecimento de tipologias do discurso/texto, uma panóplia de “abordagens (literária, lingüística, antropológica, psicológica, pedagógica) de teorias e de parâmetros e critérios que estabelecem as mais diferentes tipologias com os mais diversos fins. De tudo isto tem nascido um mal estar classificatório que podemos dizer que advém basicamente: a) da inexistência de uma teoria tipológica geral que organize todo este “furor” tipológico e b) do encontro das diferentes abordagens e conseqüentes metalinguagens que muitas vezes se utilizam dos mesmos termos para referir conceitos tipológicos diferentes”.

18 Para o estudo de várias posições teóricas sobre a argumentação, veja-se Doury & Moirand (2004). 19 “L’une des raisons qui fait que la linguistique ignore les formes d’énoncés tient à l’extrême hétérogénéité de leur structure compositionnelle et aux particularités de leur volume (la longueur du discours) (…). La forte variabilité du volume est valable aussi pour les genres discursifs oraux” (Bakhtine, 1984 : 288).

20 van Dijk (1983) define a superestrutura textual como “un tipo de esquema abstracto que establece el orden global de un texto y que se compone de una serie de categorías, cuyas posibilidades de combinación se basan en reglas convencionales”. Ou seja, essa estrutura global, que permite organizar de forma global as várias parte do texto, dá conta da forma do texto e do modo como essa forma é apresentada (van Dijk, 1983: 141-142). Partindo desta definição de superestrutura, Adam (1992:31) propõe-se aclará-la ao avançar a noção de sequência textual para definir um conjunto de esquemas estruturais que estão na origem da produção de enunciados: “le passage d’une théorie des superstructure à une hypothèse sur la structure séquentielle des texte et sur les prototypes de schémas séquenciels de base constitue l’objet du présent ouvrage”.

modelo de sequência textual prototípica, que providencia os instrumentos necessários para indexar um texto a um determinado tipo a partir da sequência dominante que o define (Cf. Blancafort & Valls, 1999: 265).

O texto resulta, assim, de um conjunto de sequências combinadas entre si e organizadas de formas diversificadas, as quais por sua vez são compostas por macroproposições específicas de cada tipologia textual:

chaque texte est une réalité beaucoup trop hétérogène pour qu’il soit possible de l’enfermer dans les limites d’une définition stricte. (...) Définir le texte comme une structure séquentielle permet d’aborder l’hétérogénéité compositionnelle en termes hiérarchiques assez généraux. La séquence, unité constituante du texte, est constituée de paquets de propositions (macro-propositions), elles-mêmes constituées de n propositions. (Adam, 1992:19-29)

Na sequência desta definição de texto, Adam (1992) apresenta uma hipótese de organização interna do texto, na qual operam esquemas cognitivos, partilhados pelos falantes, onde é possível distinguir cinco sequências prototípicas, ou imagens mentais, de natureza prototípica: a narrativa, a descritiva, a argumentativa, a explicativa e a dialogal. Sendo a homogeneidade pouco frequente, é em relação ao protótipo, medida em termos de distanciamento ou proximidade em relação ao seu centro, que uma sequência é caraterizada de narrativa, descritiva, argumentativa, explicativa e dialogal. Por outras palavras, será a sequência dominante – ou base textual, de acordo com Werlich – que determina o tipo de texto.

A proposta de Adam assenta na conceção de argumentação enquanto forma de composição elementar, pressupondo que os locutores possuem representações mentais prototípicas de esquemas de argumentação baseados na relação entre os dados (ou premissas) e a conclusão, estando estes dois conceitos mutuamente implicados, ou seja, um só existe em relação ao outro. A estrutura argumentativa propriamente dita só aparece em sequências que, segundo Adam (1992), podem ser esquematizadas como mostra o esquema 1:

THÈSE Antérieure + DONNÉES (premisses) Étayage des inférences Donc probablement CONCLUSION (Nouvelle) thèse

P. arg 0 P.arg 1 P. arg 2 P. arg 3

à moins que RESTRICTION

P. arg 4

Esquema 1: Sequência argumentativa prototípica (Adam, 1992:118)

Uma alternativa teórica para subsidiar os estudos da argumentação, considerada uma atividade interacional que pressupõe um movimento discursivo de emissão e troca de opiniões, pode ser encontrada em Bronckart (1996). Neste quadro teórico, num processo de semiotização para a produção de um determinado texto empírico, o raciocínio argumentativo assenta na existência de uma tese anterior, para a qual são apresentados dados novos que sofrem um processo de inferência e que levam, por seu turno, a uma conclusão ou nova tese. No quadro do processo de inferência, o movimento argumentativo pode apoiar-se em garantias ou ser inibido por restrições. A força da conclusão dependerá dos pesos relativos das garantias e das restrições.

Para este autor, o protótipo da sequência argumentativa21 organiza-se numa sucessão de quatro fases: fase de premissas (ou dados), constituída por uma constatação inicial; fase de apresentação de argumentos, isto e, de elementos que orientem para uma conclusão provável; fase de apresentação de contra-argumentos, que colocam uma restrição em relação à orientação argumentativa, podendo ser apoiados ou refutados por lugares comuns, e a fase de conclusão (ou de nova tese), que resume e integra os efeitos

21

Nesta distribuição Álvarez (2005:27-30), por sua vez, expõe que “la tesis, el cuerpo argumentativo y la conclusión son los elementos que constituyen generalmente una argumentción. (…) La tesis es la idea fundamental en torno a la que se reflexiona; puede aparecer al principio o al final del texto. En este caso, se omite la conclusión por ser innecesaria, ya que puede afirmarse que la tesis ocupa su lugar. El núcleo de la argumentación lo constituye la tesis, que há de presentarse clara y objetivamente, aunque encierre en sí varias ideas. (…) Una vez expuesta la tesis, [en el cuerpo de la argumentación] van ofreciéndose los argumentos para confirmarla o rechazarla, esto es, comienza el razonamiento en sí.(…) Es aqui, en el cuerpo argumentativo, donde deben integrarse las citas, los argumentos de autoridade, los exemplos.(…) todas estas técnicas heredadas de la antigua retórica, sirven para fortalecer tanto la opinión defendida, como para refutar la contraria. La refutacion es outra de las vertientes fundamentales de la argumentación: puede ser una tesis admitida, o una objeción a un argumento”. Álvarez (2005:27-28) relembra ainda que “[a]unque todo texto argumentativo debe presentar estos elementos, conviene advertir que, en ocasiones, la argumentación puede adoptar otras manifestaciones un tanto alejadas de la formulación lógica propriamente dicha”.

dos argumentos e contra-argumentos. Essas fases podem, no entender de Bronckart, ser realizadas de modo simplificado ou complexo, com fases múltiplas.