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5 PROPRIEDADES SOCIAIS E ESCOLARES DOS SUJEITOS

No documento roseanevitalgobbi (páginas 76-79)

PESQUISADOS

O objetivo deste capítulo é apresentar algumas propriedades sociais e escolares dos alunos e de seus familiares, a fim de auxiliar na análise de sua trajetória escolar, bem como observar detalhes de casos, com propriedades sociais e escolares semelhantes, cuja condução dos itinerários e resultados escolares apresentam diferenças significativas.

Partindo do pressuposto de que as histórias escolares dos pais podem guardar estreita relação com a construção da trajetória escolar dos sujeitos (Bourdieu 1998b), penetramos nas histórias escolares intergeracionais, enquanto produtoras de sentidos para o processo de escolarização, as quais descrevemos nesta parte do trabalho.

Os sentidos que os pais atribuem à sua própria escolarização são constituídos com base na “história de sua relação objetiva com a instituição escolar, que tacitamente vivida ou explicitamente comunicada através de julgamentos, conselhos ou preceitos, comanda, a cada momento, a relação prática com essa instituição” (Bourdieu, 1998b:112). É dessa forma que os pais constroem os sentidos que dão à escola e desenvolvem as ações direcionadas para a escolarização dos filhos.

Quando os pais não possuem uma história de escolarização estendida, como é o caso dos pais dos sujeitos investigados nesta pesquisa, percebe-se que os filhos atribuem sentidos à sua própria escolarização, pouco influenciados pela relação das experiências escolares dos pais. “Na incapacidade de ajudar os filhos, os pais sem capital escolar, também não tendem a comunicar-lhes uma relação dolorosa com a escola e com a escrita” (Lahire 2004b, p. 345), porque esta não foi a relação constituída com a escola. Muitos pais com baixo capital escolar ou nenhuma experiência vivenciada na escola, falam e pensam apenas o que dela (escola) ouviram falar. Lahire afirma, ainda, que essa situação pode explicar a falta do vínculo direto entre o grau de escolarização dos pais e o grau de “sucesso” dos filhos.

As famílias dos alunos selecionados para a pesquisa têm renda mensal variando de um a três salários mínimos, com predominância de famílias com renda mensal de

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dois salários mínimos mensais, sendo a média de pessoas por unidade habitacional de 4,7.

Percebe-se que os casais desse grupo investigado provêm de famílias de origem social muito simples, permanecem nessa mesma situação, sendo que muitos deles afastaram-se muito cedo da escola para ingressar no mercado de trabalho, a fim de complementar a renda mensal familiar. Por não morarem perto de escolas (realidade encontrada, com muita freqüência, na zona rural dos municípios do interior) ou, ainda, por terem feito várias tentativas de permanência não exitosas nessa instituição, a tendência foi o inevitável abandono. Apenas dois pais do universo investigado concluíram o ensino médio; todos os demais, ou são apenas alfabetizados, ou concluíram (dois) somente o ensino fundamental. A grande maioria possui as séries iniciais de ensino fundamental, o que demonstra o baixo capital escolar das vinte famílias investigadas. Os avós apresentam um quadro tal que apenas 40% (quarenta por cento) dos avós maternos e paternos são alfabetizados (considerados analfabetos funcionais), os demais, 55% (cinqüenta e cinco por cento), são analfabetos, e apenas 5% (cinco por cento) do total tiveram acesso à escolaridade até o primeiro segmento (incompleto) do ensino fundamental.

Considerando a constituição das famílias dos alunos, observamos que quase metade delas (onze famílias) é do tipo “nuclear”, três do tipo “recomposta”, três “monoparental”, chefiadas pelas mães dos alunos e três “mães solteiras”, cujos filhos são criados pelos avós maternos. Nota-se, portanto, uma variedade de constelações familiares. Tal variedade familiar traduz-se em mais um fator para aumentar o nível de dificuldade para a manutenção e sustento das famílias. Lahire (2004b, p. 24) afirma que “um divórcio, uma morte ou uma situação de desemprego que fragilizam a situação econômica familiar podem constituir rupturas em relação a uma economia doméstica estável”.

Nas vinte famílias estudadas, três delas apresentavam, na ocasião, situação de desemprego do chefe da família. Dos dez alunos considerados casos de “sucesso escolar”, setenta por cento deles pertencem às famílias do tipo “nuclear”, vinte por cento às famílias “mães solteiras” e dez por cento, ou apenas um, pertence à categoria familiar “monoparental”, chefiada pela mãe. Percebe-se, pelos dados encontrados, que a família “nuclear” exerce importância nos destinos escolares de sucesso dos alunos investigados.

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Quanto à moradia, a maior parte vive em casas emprestadas pelos patrões, produtores rurais, ou vive em casas alugadas. Apenas trinta por cento das famílias residem em casas próprias. De maneira geral, as casas são simples, equipadas com poucos móveis, porém na maioria delas há, em local de destaque, um aparelho de TV de 29 polegadas e uma aparelhagem de som. Nota-se no ambiente familiar, a preocupação com a organização e a higiene, com exceção de uma família que reside em uma casa de apenas um cômodo, construído em bambu e barro, onde moram a mulher, o marido e seis filhos. Paradoxalmente, N.M, a filha do casal, integrante desta investigação, faz parte da categoria “sucesso escolar”.

No que tange ao consumo de informação, a maioria das famílias declara ter acesso reduzido à leitura de jornais e revistas. Em que pese o fato de algumas famílias apresentarem ter gosto pela leitura, as precárias condições financeiras impossibilitam a satisfação de tal gosto.

Cerca de quarenta por cento das famílias afirmaram freqüentar, sistematicamente, alguma religião, inclusive declarando a sua importância para a criação de atitudes de obediência, bons hábitos e para a formação do ser humano digno.

Percebe-se, nas famílias, preferências semelhantes relacionadas aos canais e programas exibidos pela TV. Os investigados declararam gostar de novelas, programas de auditório, noticiários e filmes. Assim, a televisão representa o principal meio de comunicação e consumo para a totalidade das famílias pesquisadas. Em geral, a TV é uma das poucas formas de lazer.

Apresentamos, a seguir, os quadros contendo dados referentes aos aspectos relacionados à formação escolar dos membros da família, composição familiar, ocupação profissional dos pais, renda familiar e escolaridade dos avós maternos e paternos dos sujeitos da pesquisa.

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Quadro C - Dados sobre os participantes da pesquisa - Ano de 2006 Alunos considerados “sucesso escolar”

ALUNO (A)

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