• Nenhum resultado encontrado

Propriedades supercondutoras da fibra 2212 crescida com 50mA

O efeito da aplicação de corrente eléctrica e da composição nominal

6.3. Propriedades supercondutoras da fibra 2212 crescida com 50mA

Os valores das densidades de corrente crítica de transporte, JCT=2.8×103A/cm2 e magnética

JCM=9.8×104A/cm2 obtidos na fibra C1I50 (Tabela 6.3.), estimularam um estudo mais profundo das

propriedades magnéticas e da microestrutura desta amostra. Uma vez que a optimização das propriedades de transporte passa por factores como a homogeneização das fases supercondutoras de alta temperatura, o aumento do alinhamento e da conectividade entre os grãos supercondutores [SAT91], foi analisada em detalhe a matriz supercondutora da fibra C1I50. De acordo com os resultados de EDS, após tratamento térmico, a matriz supercondutora é constituída essencialmente por cristais supercondutores da fase 2212 de composição média Bi2.44Sr1.93Ca0.68Cu2.00Ox. A

homogeneidade da matriz é visível na fotomicrografia de SEM da Figura 6.8.a). Este resultado é consolidado pelos resultados dos estudos de ρ(T) (Figura 6.4.) e χ(T) (Figura 6.6.). Estes apontam para a presença de uma única fase supercondutora, a 2212. A figura de polos realizada no plano (008) que corresponde ao ângulo 2θ de 22.98º, Figura 6.8.b), mostra a intensidade da reflexão na direcção perpendicular ao eixo da fibra (ϕ =-90º, +90º). Tendo em consideração a posição relativa

da amostra e do goniómetro (Figura 2.4.), verifica-se que o grau de alinhamento do eixo-b dos cristais 2212 paralelamente ao eixo de crescimento da fibra, nas condições de solidificação assistida por corrente eléctrica, é elevado.

a) b)

Figura 6.8. –a) Fotomicrografia de SEM da fibra C1I50 recozida; b) Figura de polos dos cristais

2212 no plano (008) que corresponde ao ângulo 2θ de 22.98º dos cristais 2212 da fibra C1I50. Os ciclos de histerese magnéticos obtidos a várias temperaturas são apresentados na Figura 6.9. A forma do ciclo M(H) à temperatura de 5K, resultante do comportamento da magnetização da amostra com a intensidade do campo magnético aplicado (H), é característica de um supercondutor com ancoragem de fluxo. No estado crítico remanente, após o aumento e diminuição da intensidade

- 168 -

do campo magnético aplicado, no final de meio ciclo para campo nulo (H=0Oe), regista-se uma diminuição do valor da magnetização com o aumento da temperatura de medida.

-60 -50 -40 -30 -20 -10 0 10 20 30 40 50 60 -150 -125 -100 -75 -50 -25 0 25 50 75 100 125 150 M (emu /cm 3 ) H (kOe) 5K 10K 15K 25K 40K 50K 77K

Figura 6.9. – Ciclo de histerese M(H), com campo magnético aplicado paralelamente ao eixo

azimutal da fibra C1I50 às várias temperaturas indicadas no gráfico.

A região inicial do ciclo magnético, na qual se encontra o campo crítico inferior (HC1) é

apresentada em detalhe na Figura 6.10.a). O valor de HC1 foi calculado de acordo com o método

indicado no capítulo 2. A evolução dos valores de HC1 em função da temperatura, Figura 6.10.b), é

a caracterizada por uma diminuição de HC1 com o aumento da temperatura, que tende para zero

para T>85K, valor de temperatura obtido das medidas de χ(T) como correspondendo ao aparecimento de comportamento diamagnético.

A variação da densidade de corrente crítica magnética (JCM) da fibra C1I50 em função do

campo magnético, às várias temperaturas de medida, é representada na Figura 6.11. Os valores de

JCM foram determinados a partir dos ciclos de histerese via modelo de Bean do estado crítico, como

referido na metodologia de cálculo do Capítulo 2. Note-se que do gráfico da Figura 6.11. não faz parte a curva a JCM(H) obtida a 77K, devido à irreversibilidade magnética observada ser da ordem

da dispersão dos valores obtidos. Nos dados da diminuição de JCM com o aumento do campo

aplicado (H) são identificados dois regimes: i) um para temperaturas T≤25K no qual as curvas

JCM(H) medidas a 5,10,15 e 25K evoluem sensivelmente paralelas; ii) outro para T≥25K, nas

curvas obtidas a 40 e 50K, onde se observa um decaimento mais rápido. Esta alteração do regime

0 2 4 6 8 10 -140 -120 -100 -80 -60 -40 -20 0 5K 10K 15K 25K 40K 50K M (emu /c m 3 ) 0 10 20 30 40 50 60 70 80 0.0 0.2 0.4 0.6 0.8 1.0 1.2 1.4 b) HC1 (k Oe) T(K) H (kOe) a)

Figura 6.10. – a) Variação da magnetização (M) em função do campo magnético aplicado (H),

para campos magnéticos H≤103Oe obtidos após arrefecimento em campo nulo; b) Comportamento

do primeiro campo crítico (HC1) em função da temperatura para a fibra C1I50.

0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 0 1x104 2x104 3x104 4x104 5x104 6x104 7x104 8x104 9x104 1x105 JCM (A/ cm 2 ) H (kOe) 5K 10K 15K 25K 40K 50K

Figura 6.11. – Evolução da densidade de corrente magnética (JCM) em função do campo magnético

(H) aplicado paralelamente ao eixo azimutal da fibra, para a fibra C1I50 às várias temperaturas indicadas no gráfico.

- 170 -

Na Figura 6.12, é apresentada a evolução da densidade de corrente crítica magnética extrapolada para campo nulo, JCM(0), em função da temperatura. A evolução é caracterizada por

um decaimento brusco de JCM(0) com o aumento da temperatura, e descrita aproximadamente pela

expressão exponencial inserida no gráfico. O valor mais elevado de 9.8×104A/cm2 é reduzido para

aproximadamente um terço do seu valor ≅3.2×104A/cm2 quando a temperatura a que a amostra está

sujeita aumenta de 5 para 25K.

Em cristais únicos de composição Bi2.03Sr2.08Ca0.85Cu2Oy processados pela técnica de

“Travelling Solvent Floating Zone” (TSFZ), foram obtidas para campo nulo e à temperatura de 20K densidades de corrente entre 1×105A/cm2 e 2×106A/cm2 [CHI04]. Este intervalo de valores é

consequência de variações pontuais na composição. Nestes cristais de composição próxima da estequiométrica 2212, é observado o comportamento da densidade de corrente em função da temperatura, para temperaturas superiores a 20K e a campo nulo, verificando-se a diminuição de uma ordem de grandeza no valor de JCM num intervalo de 30K. Esta diminuição de JCM (0) no

intervalo de 20K a 50K, é mais acentuada do que a registada na fibra C1I50 (Figura 6.12.)

0 20 40 60 80 100 0.0 2.0x104 4.0x104 6.0x104 8.0x104 1.0x105 0 10 20 30 40 50 60 70 80 1.5 2.0 2.5 3.0 3.5 4.0 4.5 5.0 5.5 log( J CM (0)) A/cm 2 T(K) JCM (0 ) (A /c m 2 ) T(K) J CM(0,T)=13x10 4 exp(-T/12)

Figura 6.12. – Comportamento da densidade de corrente crítica magnética para campo nulo,

JCM(0), em função da temperatura para a fibra C1I50.

Na fibra C1I50 a temperatura (T) e campo magnético aplicado (H) afectam fortemente a densidade de corrente crítica magnética (JCM), de acordo com os comportamentos exibidos nas

Figuras 6.10. e 6.11. Na diminuição de JCM com o aumento de T e H, a ancoragem de fluxo intra-

[Maley1992]. Em fitas (Bi,Pb)SCCO, o brick-wall model descreve o comportamento de JCM(H) a

baixas temperaturas, um valor significativo de JCM estende-se até campos elevados (>25T),

sugerindo que a baixas temperaturas a ancoragem de fluxo intragranular é adequada para manter o valor de JCM, que é determinado pela transferência de corrente intergranular [MAL92]. Contudo,

em torno de 35K ocorre uma diminuição abrupta de JCM com o aumento de H, similar à observada

em cristais únicos [GHO01] , filmes [SCH91] e fitas [KUM91]. Aqui o declínio de JCM(H,T) é

determinado por ancoragem de fluxo intragranular [MAL92].

O decaimento de JCM(H), que se torna mais acentuado com o aumento do campo

magnético, para temperaturas superiores a 25K (Figura 6.11.) pode ser considerado como o resultado da ocorrência da fluência por activação térmica e consequentemente da diminuição da corrente de transporte intergranular. Quando um supercondutor do tipo II se encontra sujeito a um campo magnético, o limite da densidade de corrente é determinado pelo balanço de duas forças (opostas) que actuam nas linhas de fluxo magnético: a força de ancoragem devida à variação espacial da condensação de energia e a força de Lorentz exercida pela corrente transportada. É dissipada energia sempre que as linhas de fluxo (vórtices) se movem. É possível distinguir entre dois regimes de dissipação: um quando domina a força de ancoragem e o outro quando é dominante a força de Lorentz [PAL88]. Quando a intensidade do campo magnético aumenta o primeiro regime domina sobre o segundo. No entanto, as características microestruturais da fibra C1I50, uma matriz homogénea de cristais supercondutores 2212 na qual se encontra imersa uma única fase secundária o cuprato 14/24, sem outras fases secundárias indicadas em trabalhos anteriores como ancoradouros de fluxo: cuprato 2/1 [KOB98], fase supercondutora 2201 [NEV01], indica que o número de pontos de ancoragem de fluxo da fibra é reduzido. Desde modo, a força de ancoragem é relativamente baixa.

- 172 -

6.4. Conclusões

A natureza da fase de cristalização mostrou ser independente da composição e influenciada pela presença da corrente eléctrica, passando de 1/1 para 14/24 para uma intensidade de 50mA. A distribuição radial dos elementos (catiões) do sistema BSCCO é homogeneizada nas fibras crescidas por EALFZ, este efeito é mais acentuado nas fibras com maior teor de Cu.

As propriedades de transporte, JCT a 77K e JCM(0), são optimizadas nas fibras crescidas por

EALFZ, verificando-se esta melhoria na capacidade de transporte de corrente nas fibras cuja composição nominal tem menor teor de Cu, e se aproxima da estequiometria da fase 2212.

O excelente alinhamento de grão e a homogeneidade da matriz supercondutora na fibra C1I50 conferem-lhe os valores mais elevados de JCT =2.8×103A/cm2 a 77K e JCM(0)=9.8×104A/cm2

a 5K. O comportamento da densidade de corrente magnética; JCM desta fibra, em função das

variáveis temperatura e campo magnético aplicado, é similar ao observado em cristais únicos da mesma composição.

6.5. Referências

[CAB89] W.C.-Cabrera, W. Göpel, G. de la Fuente, H.R. Verdún, Applied Physics Letters 55[10] (1989), 1032.

[CAR04] M.F. Carrasco, F.M. Costa, R.F. Silva, F. Gimeno, A. Sotelo, M. Mora, J.C. Díez, L.A. Angurel, Physica C 415 (2004) 163-171.

[CHA00] G. Chang, J. Yuan, Z. Wang, C. Wu, X. Wang, H. Hu, Trans. Nonferrous Met. Soc.

China 10 [4] (2000), 445.

[CHA00A] G. Chang, J. Yuan, Z. Wang, C. Wu, X. Wang, H. Hu, Trans. Nonferrous Met. Soc.

China 10 [5] (2000), 610.

[CIM90] M.J. Cima, X.P. Jiang, H.M. Chow, J.S. Haggerty, M.C. Flemings, H.D. Brody, R.A. Laudise, D.W. Johnson, Journal of Materials Research 5 (1990), 1834.

[CHO91] H.M. Chow, X.P. Jiang, M.J. Cima, J.S. Haggerty, H.D. Brody, M.C. Flemings, Journal

of the American Ceramic Society 74[6] (1991), 1391.

[CHI04] N. Chikumoto, K. Furusawa, M. Murakami, Physica C 412-414 (2004), 436.

[COS96] F.M. Costa,”Recristalização e supercondutividade de fibras dos sistemas Bi-Sr-Ca-Cu-O

processadas por fusão de zona com laser”, tese de doutoramento (1996), Universidade de Aveiro,

Aveiro-Portugal.

[COS99] F.M. Costa, R.F. Silva, J.M. Vieira, Physica C 323 (1999), 23.

[FEI88] R.S. Feigelson, D. Gazit, D.K. Fork, T. H. Geballe, Science 240 (1988), 1642. [GHO01] A.K. Ghosh, A.N. Basu, Physica C 361 (2001), 135.

[HUA91] Y. Huang, G. de la Fuente, A. Sotel, A. Badia, F. Lera, R. Navarro, C. Rillo, R. Ibanez, D. Beltran, F. Sapina, Physica C 185-189 (1991), 2401.

[JIN91] S. Jin, R.B. van Dover, T.H. Tiefel, J.E. Graebner, N.D. Spencer, Applied Physics Letters

58[8] (1991), 868.

[KNI93] K. Knízek, E. Pollert, D. Sedmidubský, J. Hejtmánek, J. Pracharová, Physica C 216 (1993) 211-218.

[KOB98] M.R. Koblischka, S.L. Huang, K. Fossheim,T.H. Johansen, H. Bratsberg, Physica C 300 (1998), 201.

[KUM91] H. Kumakura, K.Togano, H. Maeda, J. Kase, T. Moritomo, Applied Physics Letters

58[24] (1991), 2830.

[LI01] F. Li, L.L. Regel, W.R. Wilcox, Journal of Crystal Growth 223 (2001), 251. [MAJ94] P. Majewski, H.-L. Su, F. Aldinger, Physica C 229 (1994) 12-16.

- 174 -

[MAL92] M.P. Maley, P.J. Kung, J.Y. Coulter, W.L. Carter, G.N. Riley, M.E. McHenry, Physical

Review B 45 [13] (1992), 7566.

[NAT02] E. Natividad, J.C. Díez, J.I. Peña, L.A. Angurel, R. Navarro, J.M. Andrés, A.C. Ferrando,

Physica C 372-378 (2002), 1051.

[NAT03] E. Natividad, J.C. Díez, L.A. Angurel, J.M. Andrés, A.C. Ferrando, M.C. Mayoral,

Physica C 379-387 (2003), 379.

[NAT02A] E. Natividad Blanco, Correlation between procesing parameters, microstructure and

Physical Properties on textured Bi2Sr2CaCu2O8+δ superconductors, tese de doutoramento,

Universidad de Zaragoza (CSIC), 2002.

[NEV01] M.A. Neves, M.F. da Silveira, V. Soares, Physica C 354 (2001), 391.

[PAL88] T.T.M. Palstra, B. Batlogg, L.F. Schnneemeyer, J.V. Waszczak, Physical Review Letters

61[14] (1988), 1662.

[SAT91] K. Sato, T. Hikata, H. Mukai, M. Ueyama, N. Shibuta, T. Kato, IEEE Transactions on

Magnetics 27[2] (1991), 1231.

[SCH91] P. Schmitt, P. Kummeth, L. Schultz, G. Saemann-Ischenko, Physical Review Letters

Capítulo 7

Influência das condições de tratamento térmico nas fibras