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3. Prosódia e aquisição da linguagem

3.1 Prosódia e multimodalidade

Adicionalmente, buscando realizar investigações que abarquem de maneira mais abrangente os recursos expressivos utilizados pelas crianças nos momentos iniciais de seu desenvolvimento, investigadores têm observado a coordenação entre gesto, expressão facial, movimentos corporais e fala nas produções infantis. Autores como Cavalcante (2009), em investigação sobre rotinas interativas entre mãe-bebê, afirmam que a história do desenvolvimento de formas verbais de comunicação tem início a partir de processos que acontecem muito precocemente entre a criança e seus cuidadores. Cavalcante (2009) enfatiza a importância do estabelecimento da atenção conjunta, do toque e da fala dirigida à criança, como elementos característicos da comunicação inicial entre adulto e criança que são fundamentais para o processo de aquisição.

Diferentes autores têm ressaltado a importância e características da coordenação entre gesto e fala nas produções infantis: Balog e Brentari (2008), observando 30 crianças entre 1;0 e 1;11, afirmam que mesmo nestes momentos iniciais do processo de aquisição, as crianças já apresentam tendência à coordenação entre comportamento verbal e não verbal. Ladewig e Bressem (2013) argumentam em favor de uma metodologia de análise gestual baseada em quatro parâmetros – movimento e posição, formato, orientação, e espaço gestual. Segundo as autoras, uma descrição sistemática dos gestos pode possibilitar a identificação de estruturas gestuais e da organização de uma ‘gramática’ gestual a partir da descrição da relação entre gesto e fala. Segundo as autoras, formas gestuais não são improvisações individuais, mas refletem formas convencionalizadas de gestualização de determinados grupos culturais.

Segundo Esteve-Gibert, Prieto e Pons (2015), crianças de apenas nove meses de idade são sensíveis ao alinhamento temporal entre a prosódia e proeminência gestual no que diz respeito ao gesto de apontar. A percepção infantil se constitui de maneira multimodal e mesmo bebês são atentos à combinação entre gesto e fala antes de serem capazes de produzi- la. Adicionalmente observaram que a proeminência gestual (ápice dentro do curso do gesto) ocorre em paralelo com a proeminência prosódica (pico de altura) e que tal alinhamento é percebido pelas crianças que foram capazes de distinguir estímulos em que o destaque acústico/prosódico coincidia com o gesto de estímulos nos quais as proeminências gestuais e

prosódicas não ocorriam de maneira simultânea. De maneira semelhante, Lewkowicz (2010) e Pons e Lewkowicz (2014) dedicaram-se ao estudo da capacidade infantil de detecção de sincronização entre movimento labial e a fala audível correspondente, observando que crianças são capazes de detectar dessincronização entre áudio e movimento labial em sílabas isoladas por volta dos 4 meses e na fala fluente por volta dos oito meses de idade.

Realizando análise comparativa das produções narrativas de crianças francesas de diferentes idades (9 a 11 anos) a partir de uma abordagem multimodal, Colletta (2009) afirma que crianças integram recursos linguísticos, prosódicos e cinésicos (gestos, expressão facial e direção do olhar) em sua organização discursiva. Tais elementos são mobilizados na estruturação, dramatização e avaliação de suas narrações orais. Os resultados mostraram efeito da idade sobre a complexidade linguística, discursiva e gestual, destacando como os gestos desenvolvem-se na narração desempenhando papel crucial especialmente no que diz respeito à coesão discursiva (ALAMILLO; COLLETTA; GUIDETTI, 2013; COLLETTA; PELLENQ; GUIDETTI, 2010). Em estudo adicional, comparando narrativas e explicações produzidas por crianças de 6 e 10 anos, concluíram que a idade afeta o comportamento linguístico e gestual, continuando a desenvolver-se no período escolar (ALAMILLO; COLLETTA; GUIDETTI, 2013).

No que diz respeito à relação gesto e fala especificamente no desenvolvimento da negação, Pea (1980) investiga a gênese de diferentes usos de marcadores de negação (don’t, not, no e gone) por crianças e observa que as primeiras negações realizadas por elas estavam relacionadas ao modo como os adultos realizavam suas negações. Conclui que contenções físicas, aliadas ao meneio de cabeça e à enunciação da palavra não (ações frequentemente realizadas pelos adultos) compuseram o modo como as crianças inicialmente se apropriaram, e posteriormente fizeram uso destes gestos. Em direção semelhante, Freitas (2012) propõe que o uso de determinadas expressões faciais, contenção física (como segurar a criança ou impedir a movimentação infantil) e de características prosódicas específicas da fala materna criam um contexto de repreensão que possibilita a apreensão pela criança do sentido do ‘não’. O referido estudo sugere que variações de altura, aumento na intensidade e na duração da pronúncia de determinadas palavras são características prosódicas que devem ser mais bem analisadas.

Ainda no que diz respeito à negação, Dodane, Beaupoil, Del Ré, Boutet e Morgenstern (2014) realizaram estudo focalizando a relação gesto-prosódia nas negações (‘non’ isolados e em repetição) produzidas por uma criança francesa entre 12 e 48 meses, observando as ações

produzidas pela criança (gestos, direção do olhar, movimento corporal e expressões faciais) em relação com as alterações prosódicas de sua fala a procura de padrões de sincronização direcionais e temporais. As autoras observaram alguns paralelos interessantes como, por exemplo, o fato de que contornos ascendentes eram acompanhados por um movimento de abdução e extensão do braço. Entretanto, o mesmo não foi observado nos momentos de descida entonacional. Adicionalmente, as autoras destacam como entre 19 e 22 meses a criança realizou uma maior quantidade de gestos, apresentando sincronia entre gesto e fala, entretanto, após este período, houve redução da produção gestual, bem como da sincronização entre gesto e fala, talvez como resultado do desenvolvimento linguístico diminuindo a necessidade de uso deste recurso (DODANE; BEAUPOIL; DEL RÉ; BOUTET; MORGENSTERN, 2014).

É importante destacar aqui a necessidade de estudo da relação entre movimentos prosódicos e gestuais no processo de aquisição, visto que, como destacado anteriormente, a prosódia constitui-se enquanto porta de entrada privilegiada para a linguagem por ser menos discreta e rigidamente estruturada quando comparada aos sistemas gramaticais. Do mesmo modo, o gesto, aliado às vocalizações infantis, auxilia na delimitação de um todo significativo e no estabelecimento da ponte entre som e sentido, sendo utilizado de maneira ampla inicialmente pela criança. Como destacado por Scarpa (2003) os elementos a dispor da criança no primeiro ano de vida parecem caracterizar-se por certa indiferenciação entre gesto e voz ou gesto e prosódia/elementos paralinguísticos/segmentais, nesse sentido a autora caracteriza as produções iniciais da criança da seguinte maneira:

...vocalizações em que se salientam variações de frequência fundamental, ritmo, volume, velocidade de fala e qualidades diversas de voz. Ora, as possibilidades expressivas ao dispor da criança no primeiro ano de vida exibem indiferenciação entre gesto e voz ou gesto e prosódia/elementos paralinguísticos/segmentais. Voz (cadência e melodia) emitida com sílabas balbuciadas acoplada a gesto dão a impressão de primitivismo rítmico/melódico. Logo no balbucio tardio começa o que se chama de “padronização do balbucio”: formas prosodicamente indissociáveis (isto é, um todo segmental e suprassegmental) com privilégios de ocorrência mais ou menos recorrentes. Nos primeiros fragmentos “semelhantes a palavra”, tal princípio de padronização continua, mas ainda com grandes possibilidades de um todo prosódico (SCARPA, 2003, pp. 536-537).

Deste modo, parece não haver lugar para uma separação estrita entre segmento/prosódia/gesto principalmente no que diz respeito às primeiras produções infantis.

O presente estudo caracteriza-se pelo acompanhamento longitudinal de uma criança monolíngue brasileira (falante de português), bem como dados de uma criança monolíngue francesa (falante de francês), deste modo segue a relevância de refletir brevemente sobre as especificidades e semelhanças destas duas línguas.