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A Análise Institucional é um referencial teórico, não convencional, que se apropria de alguns conceitos e teorias já instituídas para elaborar um novo campo de conhecimento. Na prática, isso significa que:

[...] o institucionalismo vai pegar de cada corpo o que serve para permanente crítica, para proporcionar na concretude que aspira como meta: o incremento da produção de liberdade ou livre fluir das produções – o que, em termos operativos, quer dizer uma proposta autogestiva, isto é que os grupos tenham suas próprias organizações, suas próprias leis, seus próprios objetivos, enfrentar todo tipo de exploração, domesticação e mistificação (BAREMBLITT, 1989, p. 114).

Da AI utilizamos o conceito de implicação, porque este propõe com que o indivíduo fale sempre a partir de si, reconhecendo o lugar de onde fala e analisando sua relação com a(s) instituição(ões), no caso dos cursistas a relação destes com a História e Cultura africana e dos afrodescendentes e os temas de pesquisa escolhidos. Todos nós estamos ligados às instituições, seja a família, nacionalidade, religião, etnia, escola etc. E, de certa forma, tendo consciência ou não, interiorizamos o instituído por estas, e podemos até mesmo resistir ou negar as nossas implicações, mas podemos reconhecê-las, nos apropriarmos deste conhecimento. Nesse sentido,

sentimos que é muito doloroso a análise de nossas implicações; ou melhor, a

análise dos “lugares” que ocupamos, ativamente, neste mundo. Quando

falamos em implicação com uma pesquisa, nos referimos ao conjunto de condições da pesquisa. Condições inclusive materiais, onde o dinheiro tem

uma participação tão “econômica” quanto libidinal (LOURAU, 1993, p. 14- 16).

Por meio do conceito de implicação, a AI convida o/a pesquisador/a a estabelecer um processo de análise dos fatores que interferem na construção das suas reflexões em torno de uma investigação.

69 Evidenciar nossa construção social quanto ao gênero e papel sexual, revelar nosso pertencimento étnico ou apresentar nossos credos religiosos não tem sido algo comum ao tentarmos explicar o que nos impulsiona ou nos leva a manifestar interesse em realizar um trabalho de cunho científico. Comumente, ao expormos os motivos que nos encaminham para uma determinada temática, justificamo-lo a partir de questões amplas e gerais e, assim, ocultamos nossas mais íntimas motivações políticas e pessoais. Deixamos, portanto, de explicitar de que maneira aquilo que buscamos estudar penetra o nosso cotidiano, a nossa vida, o nosso ser. Creio ser necessário explicar em que momento uma referida temática ganha relevância em nosso dia-a-dia ou, ainda, revelar de qual forma aquilo que estudamos está configurado em nossa história de vida, afinal, não nos motivamos a estudar qualquer temática, qualquer assunto.

Esse referencial ainda tenta romper com teorias objetivistas que pressupõem um afastamento entre as condições de produção de conhecimento e o ato de pesquisa, a partir do conceito elaborado pela AI, que é o da implicação, o qual explica:

quase todas as ciências estão baseadas na noção de não implicação ou

desimplicação. As “teorias da objetividade” se baseiam na “teoria” da

neutralidade. A Análise Institucional tenta, timidamente, ser um pouco mais científica. Quer dizer, tenta não fazer um isolamento entre o ato de pesquisar e o momento em que a pesquisa acontece na construção do conhecimento. Sentimos que é muito dolorosa a análise de nossas implicações; ou melhor, a

análise dos “lugares” que ocupamos, ativamente, neste mundo. Quando

falamos em implicação com uma pesquisa, nos referimos ao conjunto de condições da pesquisa. Condições inclusive materiais, onde o dinheiro tem

uma participação tão “econômica” quanto libidinal (LOURAU, 1993, p. 9- 14-16).

Partindo dessa concepção, podemos afirmar que:

[...] todo projeto de pesquisa tem a marca indelével das motivações do pesquisador, declaradas ou não [...] tem uma história cuja gênese frequentemente situa-se muito antes do próprio processo de pesquisa, tendendo a determinar algumas de suas feições e contradições ulteriores. Devido a nossa formação objetivista, raramente a mencionamos, até porque nem sempre temos a clareza dela e de seus efeitos sobre a pesquisa (PETIT, 2001, p. 126).

A Análise Institucional acredita que a neutralidade científica inexiste e que a objetividade da produção de conhecimentos dá-se de maneira relativa, pois, desde a escolha pelo tema a ser investigado até os procedimentos estabelecidos, envolvem-se pressupostos teóricos e práticos que de antemão são influenciados pelos interesses sociopolíticos de quem os elabora.

70 O conceito de implicação relaciona-se sobremaneira com a ideia da porteira pra dentro, criada pela Mãe Senhora do Ilê Axé Opó Afonjá ao referir-se àqueles que se dirigiam ao seu terreiro de Candomblé com o desejo de apenasolhar, ou seja, sem nenhum sentimento de pertença ou mesmo de comprometimento. Desta feita, Mãe Senhora advertia sobre aqueles que desejam se aproximar de algo ou de alguém com uma atitude de estrangeiro ou um mero visitante.

Por sua vez, Narcimária Luz (1998) veio a inspirar-se nesse modo de pensar de Mãe Senhora para tratar da existência, modo de agir e pensar da pesquisadora, que se utiliza de uma metodologia desde fora e desde dentro. Luz (2000) explica:

[...] a metodologia “desde fora” refere-se aos procedimentos utilizados pelo

pesquisador, cujas impressões limitam-se a atender apenas ao seu próprio

quadro de referências. A metodologia “desde dentro” procura estabelecer

entre o pesquisador e o grupo social, do qual ele se aproxima, experiências em nível bipessoal, intergrupal, em que o universo simbólico e os elementos que o integram, só podem ser absorvidos num contexto dinâmico, ancorado na realidade própria do grupo social que constitui o núcleo da pesquisa (LUZ, 2000, p. 21-22 Apud SOUZA, 2005, p. 28).

Como trabalhei com um tema que envolve relações e conflitos étnicos raciais também utilizei da AI o conceito de analisador, pois este é representado por uma pessoa, fato ou acontecimento que deixa vir à tona o não dito, evidencia a face oculta da instituição, caracteriza-se como sendo “aquele elemento que introduzindo contradições na lógica da organização, enuncia a sua determinação” (COIMBRA, 1995, p. 64).

No caso particular dessa pesquisa, ainda lancei mão do conceito de restituição, pois este me permitiu, ao longo dessa investigação, apresentar às participantes os achados, sejam parciais ou finais. Para a AI essa etapa constitui-se como parte integrante e de fundamental importância, pois refere-se à socialização de um saber produzido de forma coletiva, assim:

[...] faz considerar a pesquisa para além dos limites de sua redação final; (...) a pesquisa continua após a redação final do texto, podendo mesmo ser interminável. Não é um ato caridoso, gentil; é uma atividade intrínseca à pesquisa, feedback tão importante quanto os dados contidos em artigo e livros científicos ou especializados (LOURAU, 1993, p. 56).

A Análise Institucional dialoga de forma direta com a Sociopoética, que é um método de pesquisa e aprendizagem que advoga:

[...] pesquisar com o corpo todo significa desencadear as potências criadoras das pessoas e descobrir o imaginário, muitas vezes esterilizado, pela rotina massacrante do cotidiano. A liberação das capacidades artísticas adormecidas é geralmente vivido pelo grupo [...] como um fluxo de auto-

71 liberação muito importante, ao descobrir ou reativar suas potencialidades abafadas no dia a dia (PETIT, 2009, p.17).

Esse referencial propõe uma outra forma de fazer pesquisa, dessa feita aponta “então um método de pesquisa que tem o mérito de valorizar o prazer e a criatividade na construção coletiva do conhecimento” (SOARES; PETIT, 2001, p. 1).