III. O universo feminino, o casamento, o amor, o prazer e a sociedade em A Esmeralda Partida.
III.4. Prostitutas, escravas e judias: três casos particulares.
As prostitutas são um caso muito particular entre as personagens femininas popu- lares, exploradas pelas alcoviteiras. Resende, enquanto narrador, adopta em relação às mesmas um discurso amoral, não lhes concedendo, porém, o direito a uma certa dignida- de. Esta obra aborda uma sociedade patriarcal em que à mulher honesta era totalmente ne- gado o direito ao prazer e a castidade era aconselhada durante o casamento. Assim, Re- sende narra como algo de natural e desculpável as primeiras experiências sexuais do Prín- cipe João junto de prostitutas, nunca apelidadas deste modo mas referidas eufemistica- mente. Trata-se apenas de um "folgar em coisas de amores", "escapadelas". Quem não é eufemístico é o Príncipe João que, fria e desprezivamente , ordena à prostituta que ensaia- va uma conversa erótica: "Cala-te, dona, e abre-me a tua carne."5
Estas experiências sexuais indiciam adicionalmente um futuro casamento sem amor e infeliz. Note-se que Filipa não apontara a D. Afonso V quaisquer contactos físicos com outras mulheres a não ser com a sua futura esposa, D. Isabel. Estes nutriam um pelo
outro um amor recíproco59. Os indícios confirmam-se e já depois de casado, o Príncipe
João continua a recorrer às prostitutas, sempre eufemisticamente referidas. Note-se que tais saídas que chafurdavam o Príncipe, aparecem narradas depois de este, em monólogo interior, comparar por aproximação as suas relações com a esposa às relações que manti- nha com as prostitutas: em ambos os casos, trata-se apenas de cumprir um dever, o de fin- gir paixão por dinheiro ou de fingir frigidez por imposição social. A mulher digna não de- ve sentir prazer, mas deve dar herdeiros. Leonor adopta a única reacção socialmente acei- te: sente ciúme, aparta-se do marido momentaneamente, mas resigna-se. Outro ciúme mais forte motivará outras possíveis reacções... Resende, como narrador não-omnisciente, tem a preocupação de justificar este saber tão íntimo: enquanto moço de câmara e escriva-
Cf. Campos, F., A Esm. Part., pp. 105-106. Cf. Campos, F., Idem, pp. 207-209.
ninha do Príncipe, era seu confidente e quase seu confessor . Trata-se de uma longa pas- sagem, reveladora de como a condição feminina motiva o escritor desta obra.
As "mulheres da vida"61 integram igualmente um numeroso bando de marginaliza-
dos que acompanham o exército português no seu rumo a Castela, comendo das suas sobras, numa intertextualidade implícita à figura de Lázaro, comendo das migalhas do banquete do rico. Esta é, pois, também a crónica dos grupos marginalizados pela historio- grafia oficial.
Mulheres do povo também focalizam eufemisticamente as prostitutas, a quem re- correra em desespero de causa Anrique de Castela para provar se era ou não estéril: nas suas bocas, elas são "mulheres solteiras públicas" e "moças corruptas" . Mas não tecem mais comentários.
As escravas representam nesta obra um caso particular e original com grande rele- vo estrutural dentro do universo feminino e não só. Fora as "belas escravas núbias", per- sonagem colectiva exótica, focalizada com notório desejo sexual por Vicente Simões, um
mulherengo a toda a prova,63 as restantes escravas deste romance estão perfeitamente
individualizadas e têm direito a um antropónimo feminino: Amine, escrava moura de Arzila; Glória e Joana, escravas negras residentes em Portugal; Paula Dias e Agostinha Fernandes, escravas brancas postas ao serviço de Santa Joana64. Repare-se que só as es-
cravas brancas têm o privilégio de uma nominação completa. Mas aqui reside a originali- dade: não são elas que usufruem de um maior relevo estrutural. Mais: Amine e Glória, nas sequências narrativas em que actuam, são as verdadeiras protagonistas e a primeira apre- senta ainda uma original densidade psicológica que permite classificá-la, sem qualquer dúvida, como personagem modelada, o que é surpreendente na sua condição de escrava. Pessoa tida por objecto, o leitor estaria mais depressa à espera que o narrador a construís- se como personagem plana. E, no entanto, Amine é uma das personagens mais bem conseguidas não só dentro do universo feminino, como ao nível de toda a diegese.
Amine destaca-se das outras moças de Arzila pela sua beleza física concentrada nuns enfeitiçadores olhos negros que encantam Vicente Simões. O desabrochar do amor é apimentado pelo facto de este ser antes um mulherengo, ter um credo diferente, ser belo mas ver-se obrigado a fingir-se trengo como componente do disfarce de uma missão de
,0 Cf. Campos, F., Idem, p. 275.
'' Cf. Campos, F., Idem, p. 290.
12 Cf. Campos, F., Idem, p. 299.
'3 Cf. Campos, F., Idem, p. 212.
espionagem a Arzila e contar com oponentes, desde uma velha observadora até ao dono de Amine, que lhe inflige maus tratos. Mas Amine não é uma personagem feminina passi- va. Por um lado, torna-se adjuvante de Vicente, não revelando o seu disfarce, avisando-o de que suspeitavam dele e despistando os homens do seu dono, com risco para a própria vida65. Por outro lado, esta personagem não-referencial revela uma forte personalidade,
prefigurando inclusive a condição feminina e o seu desejo de libertação. Senão, vejamos: na tomada de Arzila, Vicente defende Amine após esta ter sido violada por um soldado português e faz uma declaração de amor onde mistura uma grande expressão de posse. É neste momento que ela se insurge contra o belo salvador. Admira-se com a declaração de posse ("«Sou tua? (...) Eu não sou do teu rei»"66) e tem consciência da sua individualida-
de. Recusa a condição de escrava que a submeteria a um novo amo. Se ele forçar, só terá o seu corpo, não a sua alma. E pede-lhe então a liberdade, não tendo receio de enfrentar toda uma série de dificuldades, desde a extensão e secura de desertos até animais perigo- sos, para regressar ao seu país. Numa real prova de amor, Vicente liberta-a e ela afasta-se. Mais uma vez, inesperadamente, quando Vicente se prepara para abandonar Arzila, a últi- ma palavra pertence a Amine: decide acompanhá-lo, o "Figos do Gharbe", alcunha por que o nomeia. Assim, Amine é das raras personagens femininas que tem a felicidade do amor como livre escolha. A profundidade das suas palavras torna esta passagem uma das
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mais belas sequências narrativas do romance .
A escrava Glória detém mais relevo estrutural do que aparenta a uma primeira lei- tura. Fisicamente caracterizada com duas pinceladas que a apresentam desde logo como a típica escrava africana volumosa, apercebe-se da traição do amo ao Rei e tem coragem para denunciar os maus tratos infligidos pelo patrão, mostrando as marcas no corpo, sem qualquer pudor, num misto de comicidade e dramatismo. Só não tem a sorte de salvar a vida das garras assassinas do patrão. Mais importante ainda, talvez o aspecto verdadeira- mente relevante: o português macarrónico desta escrava, foneticamente transcrito por aproximação, é alvo de um comentário linguístico emotivo por parte de Resende, tendo por base afirmações anteriores de elevado alcance político de tia Filipa. Aquela escrava não fala incorrectamente, mas num correctíssimo novo português que se espalhará, fruto da mestiçagem, pelos quatro cantos do mundo. Através das escravas negras, a portugali- dade nunca morrerá. Glória é o ponto de origem do novo espaço da lusofonia, questão
Cf. Campos, F., Idem, pp. 210-220. Cf. Campos, F., Idem, p. 236. Cf. Campos, F., Idem, pp. 226-237.
talvez mais do que nunca de uma actualíssima importância. Consideramos, por conse- guinte, motivado o seu antropónimo .
A sorte das mulheres judias é, finalmente, o derradeiro caso particular da condição feminina do terceiro estado em A Esm. Part.. Como personagens, a sua actuação circunscreve-se ao último capítulo, mas a condição destas merece do narrador um grande enfoque, com um duplo objectivo narrativo.
Primeiro, salienta o dramatismo da condição daquelas mulheres, numa época que será particularmente dura com elas: o início da actividade inquisitorial espanhola, com o aval de Isabel e Fernando, e a perseguição anti-semita em Portugal. As judias sofrem então duplamente: como mulheres, porque são alvo de violações em frente dos maridos, e como mães, vendo os filhos mais pequenos apartados, as moças violadas e os moços so- domizados. "Aquelas mães", "as pobres mães", humilham-se perante os oficiais pedindo misericórdia pelas crianças e os seus gestos, que vão até à auto-flagelação, são de um de- sespero humanamente bem conseguido. Como? Uma das estratégias, já que a individuali- dade se perde no colectivo, consiste em o narrador individualizar valorativamente uma mãe judia, Melca. Vendo "aproximarem-se os algozes", suicida-se, levando para a morte consigo o filho. As judias são, por conseguinte, focadas na condição de vítimas, car- regando o duplo estigma do género e da etnia a que pertencem .
O segundo objectivo do enfoque destas mulheres sofredoras é a condenação dos algozes, entre os quais Resende não tem pejo de colocar o seu senhor, em última análise, o responsável por toda esta abominação ao tê-la permitido. As palavras do narrador são duras, donde A Esm. Part, se demarcar do discurso oficial. A sua condição é universali- zada então num contundente protesto: "Não devias permitir o que Álvaro de Caminha fez.
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Nada pode justificar, nada, que se tire um filho a sua mãe."