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CAPÍTULO IV – DA EXPERIÊNCIA EM PROCESSO EDUCATIVO ÀS

4.2 Reflexões acerca da concepção de educação nos processos

4.2.1 Saberes: fios que tecem trajetórias juvenis no campo

engajados com o desenvolvimento sustentável no campo.

Diante do exposto, percebemos a participação e o modelo de atuação com articulação dos sujeitos em rede tem atendido ao que se coloca como essencial para o desenvolvimento de processos formativos, cujos resultados são percebidos com os saberes e a construção da identidade camponesa, favorecendo práticas dos jovens no campo. Com isso, afirmamos que a concepção de educação libertadora e emancipadora presente nos processos educativos destacados, trata as temáticas ligadas às condições sociais das juventudes sem se restringir aos cronogramas de cursos, oficinas, capacitações ou seminário, nem aos conteúdos programáticos arrolados a um currículo educacional oficial. A conexão entre juventude, educação e formação tem como função possibilitar conhecimentos para transformar o silêncio dos jovens em fala; o invisível em visível, permitindo sua inclusão para que possam se relacionar e criar os fios da tessitura de trajetórias, histórias de vida, que anunciam as mudanças que vem acontecendo no campo, como veremos a seguir.

4.2.1 Saberes: fios que tecem trajetórias juvenis no campo

O saber sobre a história de formação dos assentamentos rurais na região do Brejo Paraibano se alia à valorização das identidades, às práticas e aos desejos dos jovens para tecer trajetórias com uma relação aproxima com o campo. Fomos levados a considerar essa afirmativa por conta da expressão recorrente de que “os jovens não conhecem a história do assentamento”, pronunciada como se conhecer a história local fosse uma condição para que as juventudes pudessem se comprometer com a continuação da história ao invés de se distanciarem do campo.

A história inicia no engenho, passa pela usina, por uma reconversão produtiva e chega à conquista da terra com os projetos de assentamentos, criando um novo paradigma para trabalhar com a terra, de acordo com a lógica da pequena produção rural familiar. A falência da usina Santa Maria promoveu uma nova configuração dos territórios na região, assim como das relações sociais e de produção, como discutimos no segundo capítulo.

Episódios marcantes dessa história de formação dos assentamentos estão registrados na memória dos jovens.

Eu lembro que quando eu era pequena meu pai chegava todo sujo de tirna de cana, eu via meus tios trabalhar praticamente de segunda a sábado, porque

no sábado trabalhava meio dia pra depois pegar o dinheiro, né? E quando a gente começou a plantar, né, a banana que hoje é a principal fonte de renda aqui, o quanto foi difícil porque tinha e tem ainda, digamos assim, pessoas que tem uma condição a mais e fica falando assim, xingamentos, né? Porque a gente mora no sítio, por isso, por aquilo, que não tem nada, que já foi os lulistas que deram, essas coisas, entende? Aí eu sempre digo que a gente tem que buscar. O grupo de jovem que a gente deixou pra traz, eu digo assim, tem que continuar com a gente mais também já incluindo as crianças, e principalmente o que a gente tá vivendo hoje, viu? Meus pais e meus avós conquistaram isso aqui com muito esforço (LIA).

Por outro lado, a trajetória das lutas encampadas na região causa, de certa maneira,

“temor” em quem conta e em quem ouve as narrativas de acontecimentos que descrevem o apogeu e o declínio de um projeto de desenvolvimento econômico na região. O “temor”

favorece o desconhecer da história, tendo em vista o forte estigma que os camponeses, os trabalhadores rurais sofrem, e que gerou um silenciamento desta história nos espaços públicos e na memória das gerações. Ao olhar para o assentamento, sem conhecer sua história, é comum aos jovens compará-lo com outros espaços que passam a ser valorizados porque não identificam os impedimentos, nem faltas, uma vez que buscam o que é aceito nas histórias que lhes é permitido conhecer; o que também justifica, em alguns casos, percursos de distanciamento e desinteresse pela vida no campo.

Os resultados desse silenciamento podem comprometer a construção de uma identidade camponesa e, consequentemente, uma relação com o assentamento que expressa a ausência do sentimento de pertencimento.

[...] No TCC quando eu fiz e conversava com pain, ele dizia que a relação com a terra vai além do ter a terra; aquela questão de pertença, de importância que a terra tem até historicamente pras famílias, pras pessoas. Já não se tem aquele sentimento de pertença, de propriedade, pertença. Até porque a grande maioria não conhece a luta, né? pra se chegar ao que tem hoje. Infelizmente essa parte da história, eles, mesmo o pessoal morando na zona rural não conhecem (PAULO).

Conhecer eles conhecem em pedaços, né? Eu acredito que nunca foi tão valorizado aquela luta em repassar, repassar essa história. Ai que entra a importância de agentes externos em fazer isso, porque na universidade a gente vê a importância disso. A gente estuda. Tá lá na nossa cara a importância de se cultivar e tudo mais; mas no dia a dia dos assentados essa importância não chega até eles. A gente vê que os assentados tem uma memória muito boa de tudo que eles encararam. E é realmente importante esse repasse para a juventude (PEDRO).

Em alguns espaços públicos o silenciamento tem se perpetua ao invés de negá-lo, contribuindo para a falta de autonomia dos jovens, como é o caso da instituição escolar, que

deveria aproximar os saberes escolares das realidades locais, mas não o faz. Ao contrário, a escola tem representado um espaço que reforça uma educação descontextualizada que torna a história das populações do campo desconhecida e inviabiliza a representação de suas juventudes.

Quando se trata de escola todo sistema que o Brasil constrói a gente sabe que não é direcionado pra quem vem do campo, quem vem do assentamento; não é direcionado, e acaba que a gente consume uma experiência que é de outra realidade. A gente aprende a vivenciar outras situações que não são do nosso dia a dia. Isso em parte é uma coisa boa e em outra a gente acaba deixando de construir algo que tenha mais haver com a nossa realidade lá, né? Tem dois lados, um lado bom e um lado ruim dessa situação... (PEDRO).

Como abordamos a educação para os jovens no campo é considerada como um meio para ajudar a superar a precariedade nas condições de vida e a falta de oportunidades, segundo declarou uma jovem educadora:

[...] Na verdade eu acho que é um dos únicos meios (Educação) que existe pra puder ajudar, porque à medida que você vai tendo formação, de que você vai tendo mais acesso a educação você também vai criando as suas oportunidades. Você vai aprendendo a viver de outras formas e que não vão te obrigar necessariamente a ter que deixar o campo pra sobreviver. Eu acho que os projetos educacionais eles vêm justamente pra reforçar a sua capacidade de buscar meios de vida e de não necessariamente você sair de onde você gosta de estar pra puder sobreviver (JOANA).

Deste modo, o conhecimento da história local pelos jovens e crianças representa um passo para mudanças nas relações no e com o campo, porque possibilita a valorização das lutas, para que as conquistas sejam mantidas e renovadas através das gerações, desfazendo os conflitos causados tanto pelo que os jovens desconhecem como pelo suposto desinteresse que marca sua existência no campo.

Quanto aos conflitos, alguns emergem de impasses nos saberes das gerações, criando conflitos geracionais que pedem o compartilhamento de responsabilidades e a inclusão de novos saberes elaborados, principalmente, pelos jovens.

A gente vai buscar alguma experiência fora, né? Aí a gente chega empolgado, porque jovem tem essa empolgação de querer fazer, quer ver acontecer, e quando a gente chega empolgado pra colocar em prática ai diz tá tudo errado. Ser jovem no campo hoje em dia tem essa dificuldade de ser aceitada as suas ideias, a sua forma de lhe dá com agroecologia... (TALITA)

Nesse cenário o diálogo desponta como um saber fundamental e necessário para resolver conflitos relacionados à realização de atividades produtivas, onde os jovens recorrem aos aprendizados adquiridos nas formações para transformarem suas relações e práticas no lugar da produção e nos espaços de decisão. Assim, no momento do conflito o diálogo representa uma ferramenta indispensável para a (res)significação da dimensão produtiva, por exemplo, criando possibilidades, sendo promovido de forma ampla por todos que atuam nos territórios como procedimento que favorece relações mais colaborativas.

A busca dos jovens por um diálogo que gere esses resultados acontece graças a uma consciência que os faz reconhecer o imperativo de constituir consensos para que seja possível a realização de práticas participativas. Patrícia Souza (2011) aborda o diálogo sob a perspectiva intergeracional, como resposta às demandas das juventudes no contexto das políticas públicas no Brasil, que se constrói numa expectativa relacional, com a convivência mais participativa dos jovens nas dinâmicas sociais. Portanto, expandido por toda a extensão dessa convivência, o diálogo intergeracional, permite o reconhecimento e organização de um lugar de representação política das juventudes.

Saber dialogar é mais um desafio enfrentado pelos jovens que em relação com outros sujeitos, compreendem seu papel para minimizar ou eliminar os conflitos; por isso, se empenham para tornar o diálogo um recurso para a escuta atenciosa e a fala qualificada, estruturadas como caminhos que o caracteriza como uma resposta às problemáticas de sua juventude, que precisavam ser discutidas coletivamente para encontrar soluções que possam beneficiar a todos em suas comunidades. Assim, os jovens buscam incidir nos espaços da organização não só produtiva, mas também social e política, o diálogo para superar problemas comuns, como a falta de participação nos processos de decisão.

De outra maneira, o diálogo favorece a consciência dos princípios democráticos que afirmam a condição cidadã dos jovens, cuja ausência fragiliza as discussões coletivas pertinentes, como estamos enfatizando. Consequentemente, nossa análise do saber dialogar se pauta na perspectiva intergeracional como resultado de aprendizados que beneficiam a organização dos grupos, a participação dos jovens, a mudança na representação da juventude nos territórios e na sua relação com os outros, formando fios que projetam as trajetórias dos jovens.

Da mesma forma, o saber gerado com a participação é direcionado para a atuação e engajamento em espaços pertencentes ao cotidiano da produção e do emprego. Com isso, a participação se tornou um procedimento que assegura uma atuação e identidade dos jovens

que ocupam os espaços para denunciar, propor e acompanhar as ações que lhes garante o acesso aos direitos da juventude.

É preciso recordar que historicamente as populações das áreas rurais na região do Brejo Paraibano têm buscado com organização e participação, acessar direitos básicos e essenciais ao seu bem viver, que devem ser assistidos pelos poderes públicos através de políticas voltadas ao campo. No caso das populações dos assentamentos rurais no município de Pilões, apresentam uma série de demandas – sintetizadas no segundo capítulo nesta tese –, que vêm sendo discutidas e reivindicadas por seus representantes.

Os jovens compreendem a participação nas políticas públicas como uma oportunidade para se organizar, para a qual demandam formação e capacitação para uma intervenção cada vez mais qualificada, resultando na reivindicação e no debate público de medidas e proposição de ações para a juventude. O tema das políticas públicas exerce uma função articuladora, mobilizadora, dos sujeitos nos territórios, por representarem diretrizes e regras que regulam as relações entre os poderes, constituindo um conjunto de ações políticas, econômicas, sociais e ambientais a serem implantadas pelos governos com características variadas, em conjunto ou não com a sociedade civil. Desse modo, resultam do processo de mudança no sistema político que produziu uma verdadeira reorganização da função social da administração pública para atender às demandas sociais como garantia dos direitos do cidadão, e para isto estruturou um marco legal21 regulador das ações do Estado.

Embora os jovens tenham adquirido os aprendizados para potencializar o saber da participação, e busquem fazê-la da melhor maneira possível, a inoperância de alguns espaços públicos locais, agrava ainda mais situações que os tornam invisíveis. Ressaltamos que as dificuldades que enfrentam se acentuam quando não podem aprender e usufruir o direito à participação. Contudo, os esforços empregados pelos sujeitos nos territórios têm buscado superar essas dificuldades, tornando acessíveis aos jovens formações que os empodere acerca de seus direitos e da participação.

Como afirma Gohn (2005), a participação indica os caminhos para uma nova cultura política, como observamos na citação a seguir:

21 A Constituição Federal de 1988, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, as Leis Orçamentárias, entre outros, são instrumentos que contribuíram no processo de instalação do Estado democrático que estabeleceu relação com a sociedade civil para o diálogo em torno da coisa pública, constituindo uma esfera de poder que é partilhado para o bem comum. O Estado, por sua vez, deve fomentar o debate público sobre as políticas públicas, com vista à participação cidadã na elaboração, à execução e à fiscalização de suas ações.

Entendemos participação como um processo de vivência que imprime sentido e significado a um grupo ou movimento social, tornando-o protagonista de sua história, desenvolvendo uma consciência crítica desalienadora agregando força sociopolítica a esse grupo ou ação coletiva, e agregando novos valores e uma cultura política nova (GOHN, 2005, p. 30).

O saber da participação para as juventudes no campo é aprendizado que motiva transformações individuais, reverberando em várias dimensões da vida coletiva, pois está aliado à leitura e à interpretação da realidade de forma consciente, e, por isso, cria caminhos e introduzir com autonomia práticas diferenciadas que favorecem mudanças no cotidiano do fazer da profissão e na relação com a produção no campo. Assim, conhecendo e se envolvendo com esses aspectos de seu contexto, os jovens dialogam para pautar questões que impactam sua existência, reafirmando que o saber da participação vem se consolidando como prática comum em seu cotidiano, definindo-se na capacidade para avaliar, intervir, relacionar-se, mediada por princípios democráticos que os conduzem para a mudança.

As demandas referentes à educação estimulam com vigor os saberes indicados, para o enfrentamento dos problemas estruturais que têm prejudicado o acesso e a qualidade da educação pública para as juventudes no campo. Nesse contexto, a educação tem se apresentado ainda mais precarizada com a crise educacional instalada na pandemia quando os jovens passaram a encarar a necessidade de adequação ao ensino remoto, para o qual têm apresentado grandes dificuldades de acompanhamento e aprendizagem, como tratamos na última seção do terceiro capítulo.

No histórico de lutas nos territórios, a participação de jovens nos processos de decisão pode ser considerada também como uma questão de justiça social, indispensável para que seus interesses sejam representados. Em suas experiências, a participação e ganha sentido, e tem caráter construtivo, libertador, apresentando como resultados a partilha de responsabilidades, o fortalecimento dos sujeitos para a preparação de mudanças que levam a uma nova realidade no campo. No mesmo sentido, sua organização tem feito com que se representem como ator que desempenha uma prática social e política que desconstrói situações de invisibilidade e assegura sua importância nesse contexto, como dissemos.

Dessa forma, o saber da participação vem se constituindo com a promoção de um diálogo intergeracional que garante fala e escuta, representando um instrumento que favorece o conhecimento das gerações acerca da história local, e a consolidação de espaços para a atuação dos jovens. Nas narrativas os saberes dessas experiências constituem os fios que tecem as trajetórias em movimento em um campo em movimento, fortalecendo uma

identidade camponesa para os jovens, forjada na luta e resistência dos sujeitos, na representação do campo como lugar de vivências essenciais.