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A religiosidade, o catolicismo e a devoção a Santa Bárbara, padroeira dos mineiros, estão presentes na mentalidade e no cotidiano dos trabalhadores das Minas do Camaquã. Santa Bárbara tem uma simbologia muito importante para mineiros, pois ela, no entendimento deles, é que permitia a manutenção da vida, da saúde e do trabalho no interior das galerias subterrâneas.

Santa Bárbara também podia ser chamada de Iansã, já que existe um sincretismo religioso do catolicismo com o candomblé, sendo que essas crenças se mantêm indissociáveis desde o período colonial, quando era necessário submeter o culto africano ao catolicismo da elite branca. Em sinal de progresso, a Igreja atual demonstra tolerância com os cultos afros, ainda que eles já consigam caminhar com as próprias pernas. Mas a devoção à Santa Bárbara ou Iansã no catolicismo popular está ligada à proteção contra tempestades, trovões e raios em

ambas as religiões e isso explica o porquê de Santa Barbara ser padroeira de profissionais ligados a fogo e explosões (esta é a padroeira dos artilheiros do exército, bombeiros e dos mineiros).

Em cada entrada de galeria que ia sendo inaugurada, havia um local apropriado para a colocação de uma imagem da santa e cada grupo de mineiros que entrava para realizar o seu trabalho a ela fazia reverência, simbolizando, desta maneira, o pedido de proteção.

Figura 29 - Santa Bárbara. Fonte: Arquivo do pesquisador.

Anualmente, é dedicada a ela uma festa, sempre no primeiro domingo de dezembro, de acordo com as informações obtidas através das entrevistas realizadas com os mineiros.

Nós, da comunidade, éramos muito religiosos e acreditávamos fielmente na Santa Barbara. Inclusive tinha uma festa anual para ela na igreja. Almoço e depois baile. Antes tinha a procissão e a “benção do capacete”, sendo que os mineiros somente iniciavam a jornada anual de trabalho com a benção do padre e da Santa Bárbara. A religiosidade era muito grande porque a gente tinha que ter fé em alguma coisa, alguma esperança de melhoria na nossa vida nós tínhamos que ter. Então depositávamos a nossa perseverança e pedido de proteção na santa bárbara, pois a

vida lá era muito difícil, porque você estava sujeito a morrer em uma detonação, silicose ou de tédio. (DIAS, 16 de abr, 2009).

Essa devoção à padroeira dos mineiros se perpetua até os dias de hoje. O dia quatro de dezembro é marcante na vida de cada mineiro, sendo que as festividades nas Minas do Camaquã são traços que se perpetuam de geração para geração. Indagou-se os trabalhadores sobre o porquê da escolha de Santa Bárbara para ser a padroeira dos mineiros das Minas do Camaquã - já que existem outras santidades destinadas a serem protetoras dos mineiros - e obteve-se como justificativa o fato de que a tradição e a devoção a Santa Bárbara vêm dos mais antigos moradores da comunidade, que passaram aos seus descendentes e esses mantiveram o respeito e o culto à padroeira (o que é confirmado com as festividades destinadas a Santa Bárbara ocorridas até os dias de hoje, como já foi citado anteriormente).

Muitos mineiros, quando visitam as Minas do Camaquã e relembram suas antigas galerias, continuam mantendo a devoção à Santa Bárbara da forma tradicional, executando o ritual diário que faziam sempre antes de entrar na galeria da mina, como uma forma de respeito, gratidão e fé.

José Emilio Rodrigues conta que foi sozinho visitar a mina abandonada. E como um ritual, usou mais uma vez o velho capacete para entrar na galeria. Retirou-o, com respeito como todos os mineiros faziam diante da imagem de Santa Bárbara, a protetora sempre presente em cada entrada da mina (MACEDO, 2006, p.134).

A religiosidade na comunidade é marcante também por influência do proprietário e “paizão” dos mineiros, Baby Pignatari. Como um sinal de devoção e fé, e como um ato de benção aos moradores das Minas do Camaquã, o proprietário decidiu cravar uma cruz no alto de um morro no entorno da comunidade. Baby Pignatari, inclusive, comprou a região onde está localizado o morro, especialmente para colocar a cruz.

Pignatari compra do Sr. Oscarino Rodrigues Martins uma extensa área que engloba o local onde planeja colocar o cruzeiro. Troca uma gleba de terras nas Minas do Seival por estas no Camaquã (MACEDO, 2006, p.134).

Após conseguir o local que irá simbolizar o reduto religioso (que hoje funciona como ponto turístico, por ser uma das vistas mais belas da região), o proprietário da mina crava a cruz na pedra mais alta da região, que passa a ser denominada, a partir de então (1968), de “Pedra da cruz”.

Assim que o sol se põe atrás dos morros, Pignatari deu por iniciada a cerimônia. Discursou o advogado José Galeano Teixeira, enaltecendo a sensibilidade do

empresário. Durante a missa, na hora da consagração, o bispo Dom Luiz Vitor Sartório aciona a chave que ilumina a cruz no alto da pedra. A imagem emociona a todos, que se ajoelham e rezam (MACEDO, 2006, p.134).

Pode-se afirmar, por exemplo, que a religiosidade promove, de certa forma, uma coesão social dos trabalhadores oprimidos economicamente e culturalmente. A fé faz com que tenham uma esperança na superação das injustiças sociais e até mesmo na realização de uma ação retaliativa a seus opressores, mesmo que ela seja em uma “outra vida” - uma punição aplicada por Deus aos que usufruem do mundo explorando o labor dos desfavorecidos.

Porém, o catolicismo devoto à Santa Bárbara também funcionou como um alicerce de controle dos mineiros pelo patrão Baby Pignatari e demais funcionários que estavam na gerência da empresa. Nos encontros dominicais, na Igreja Católica da comunidade, a cruz cravada por Pignatari no alto do morro representava e “relembrava” a comunidade da força do catolicismo e da vigília de Deus às suas atitudes no local. O respeito, crença e devoção dos mineiros para com sua padroeira, colocada na entrada de cada galeria, servia como uma forma de observação e controle moral dos mineiros superior ao controle dos patrões - a religiosidade e o temor de cometer pecados e desrespeitar a Deus e/ou a Santa Bárbara proporcionavam um controle “sobrenatural” que os patrões não tinham como exercer. É possível assinalar aqui que a religiosidade católica e a crença na padroeira dos mineiros impuseram regras morais na comunidade das Minas do Camaquã e, principalmente, impuseram uma disciplina aos trabalhadores. Uma vida desregrada e ociosa seria prejudicial aos interesses dos patrões, de sua família e de Deus.

Lembro sim, era gente boa. Ele só não gostava que o destratasse e o contrariasse no trabalho, mas no mais, pra turma dos peões era 100%. A mina começou a fracassar depois que ele morreu. Mas era muito bom e dava cada festa. Uma vez eles deram uma festa, com umas dez vacas carneadas, e fizeram um churrascão de campanha. Ele era muito bom. Pelo menos para aqueles que eram mais pobres, que ganhavam menos, aí que ele era bom. (PORTO, 17 de abr. 2009).

O relato acima retoma novamente a construção da imagem e simbologia do “bom patrão” ligado a Baby Pignatari. Esse sentimento de proteção, na visão dos mineiros, é tão forte que se desenvolve uma memória da história das Minas do Camaquã, sendo que quando o empresário sai das Minas, elas começam a decair. E isso tem coerência com esse discurso quase mítico que o vê como o criador da abundância e prosperidade da comunidade.