4 A DEFESA
4.4 REQUISITOS PARA PRATICAR A EUTANÁSIA NÃO
4.4.2 Protocolo para eutanasiar ativamente adultos incapazes
Tendo em vista que nesta dissertação estamos tratando de um problema moral que faz parte do cotidiano de alguns médicos e profissionais da saúde, entendemos que nosso papel como filósofas e filósofos da área não necessita se restringir apenas à parte teórica. Por esse motivo, nada mais justo do que procurar proporcionar algumas orientações de ordem prática. O Protolo de Groningem é um excelente guia para a prática da eutanásia em crianças, mas também consideramos que ele pode muito bem ser aplicado
aos adultos em situações semelhantes, pois diz respeito a uma decisão que deve ser tomada por terceiros. Sendo assim, acrescentaremos apenas algumas novas condições que nos parecem necessárias para que ele seja completo. Vale destacar que não temos nenhuma pretensão de originalidade, mas de valorizar o que já existe a respeito e colaborar para melhorá-lo. Para facilitar a leitura, os itens que foram acrescentados estão em itálico.
Requerimentos que devem ser preenchidos para a prática de eutanásia não voluntária ativa em adultos
O diagnóstico e prognóstico devem ser seguros;
Sofrimento irremediável e insuportável pode24 estar
presente, quando não estiver deverá constar qual a
expectativa de vida do paciente que o faz elegível para a eutanásia;
O diagnóstico, o prognóstico e o sofrimento insuportável (quando houver) devem ser confirmados por pelo menos um médico independente;
Os pais devem receber acompanhamento psicológico; Ambos os pais ou tutores legais devem dar seu
consentimento informado;
O procedimento deve ser feito de acordo com as normas médicas reconhecidas;
Informação necessária para ajudar e esclarecer a decisão acerca da eutanásia
Diagnóstico e prognóstico
Descrever todos os dados médicos relevantes e os resultados das investigações diagnósticas utilizadas para estabelecer o diagnóstico;
Descrever porque segundo o prognóstico o paciente não
terá condições de viver após a retirada dos tratamentos e cuidados;
24 Modificamos o termo “deve” por “pode” porque dentro do pequeno grupo de
casos de indivíduos incapazes de dar seu consentimento há outro grupo pequeno de indivíduos que não apresenta sofrimento irremediável e insuportável, como, por exemplo, de indivíduos em estado vegetativo persistente.
Listar todos os participantes no processo de tomada de decisão, todas as opiniões expressadas e o consenso final; Descrever como o prognóstico calculado em longo prazo foi
avaliado;
Descrever como o grau de sofrimento e a expectativa de vida foi avaliada;
Descrever a disponibilidade de tratamentos alternativos, meios alternativos para aliviar o sofrimento ou ambos; Descrever tratamentos e os resultados dos tratamentos que
precederam a decisão sobre a eutanásia; Decidindo pela eutanásia
Descrever quem iniciou a discussão acerca da possibilidade de realizar a eutanásia e em que momento;
A decisão deverá ser feita com base em todas as
informações disponíveis acerca do prognóstico;
Deverá ser tomada sem pressões externas;
Informar os dois métodos em que a eutanásia poderá ser
praticada, se passiva ou ativa;
Descrever qual método foi escolhido e os motivos; Listar as considerações que levaram à decisão;
Listar todos os participantes no processo de tomada de decisão, todas as opiniões expressas e o consenso final; Descrever a maneira em que cada um dos pais ou tutores
legais foi informado e quais foram suas opiniões;
Consulta
Descrever o médico ou os médicos que deram a segunda opinião (nome e qualificação);
Listar os resultados dos exames e as recomendações feitas pelo médico ou médicos consultados;
Descrever a opinião do psicólogo a respeito da decisão
tomada pelos pais ou tutores legais;
Implementação
Descrever o procedimento da eutanásia (tempo, lugar, participantes e drogas administradas);
Passos para seguir após a morte
Descrever as descobertas do médico legista;
Descrever como a eutanásia foi reportada às autoridades judiciárias;
Descrever como os pais receberam suporte e foram consolados;
Descrever o acompanhamento previsto, incluindo revisão do caso, exame pós-morte e orientação genética.
Como podemos ver, nos dois Protocolos assume-se que é o profissional da área médica quem deverá pôr em prática a eutanásia caso se decida por ela. Há controvérsia em relação a este aspecto, principalmente no que diz respeito à função da medicina que é a de promover a recuperação da saúde dos indivíduos e também no que diz respeito ao juramento hipocrático. Não nos aprofundaremos nesta discussão, pois ela exige que sejam analisados aspectos que vão além do escopo do nosso trabalho. No entanto, pretendemos apresentar a seguir algumas razões que nos levam a assumir que os profissionais da área médica deveriam praticar a eutanásia.
A medicina possui conhecimento sobre anatomia, reações do organismo aos medicamentos, consegue fazer prognósticos e diagnósticos, conhecimento acerca de medicamentos e seus componentes, entre outros. Portanto, pode-se dizer que ela, mais do que outra área, sabe como e quando é bom intervir para melhorar a saúde do indivíduo. Sendo assim, entendemos que um profissional formado na grande área denominada medicina é ideal para trabalhar com casos relacionados à eutanásia e fim da vida. Nossa sugestão, ainda sem muito embasamento, é a de que se crie uma especialização, assim como há a geriatria, a ginecologia, dermatologia, que tenha como objeto de estudo a morte. Este profissional seria exposto aos conhecimentos de outras grandes áreas como, por exemplo, a psicologia, assistência social e filosofia, ademais daqueles esperados como farmacologia e meios adequados para pôr fim às vidas que têm baixo prognóstico.
Como pode ser observado, acrescentamos a necessidade de haver acompanhamento psicológico para os pais ou tutores legais, pois entendemos que nessas circunstâncias essas pessoas ficam ou podem ficar emocionalmente instáveis, sem rumo, inseguras, entre outras formas de manifestação dos sentimentos. Conversar com alguém que não está emocionalmente envolvido com o paciente é importante para desabafar, esclarecer os pensamentos, encontrar suporte e até mesmo conseguir tomar a melhor decisão. Psicólogos cumprem essa função nos hospitais e clínicas e sentimos a falta deles no Protocolo de Groningen e decidimos colocar sua atuação no nosso Protocolo.
Ressaltamos novamente que este Protocolo pode ser incompleto, mas é um passo adiante e pode contribuir com o debate acerca do que fazer e
como fazer em casos de indivíduos incapazes de dar seu consentimento e que nunca informaram ou nunca poderão informar o que gostariam que fosse feito nesse tipo de situação.