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Combustíveis e Energia Elétrica

QUADRO ATUAL DA REGULAMENTAÇÃO DO SETOR DE ENERGIA

2. TRÂNSITO DE ENERGIA

2.1. O ARTIGO v DO GATT 94

2.3.1. PROTOCOLO SOBRE TRÂNSITO

Conforme visto acima, o Artigo 7 do ECT representa o mais sofisticado conjunto normativo direcionado a regular o fluxo de trânsito energético.

No entanto, após a entrada em vigor do ECT, em 1998, as Partes Contra-tantes vislumbraram a necessidade de elaboração de novas regras e de aprofundamento daquelas já existentes. Foram fatores decisivos para essa percepção, o crescimento da importância estratégica do trânsito energético com base em infraestrutura fixa de transporte no Continente Eurasiático e a necessidade de reduzir os riscos econômicos e políticos associados aos projetos energéticos que envolvam o trânsito transfronteiriço na região153.

O mapa 3 retrata a complexidade das redes de transporte de gás natural no Continente Eurasiático:

152 A não ser que o contrato ou acordo original entre as Partes expressamente permita a adoção de tais medidas ou que sua adoção seja permitida pelo conciliador apontado para resolver a disputa [Artigo 7(7)].

153 KONOPLIANIK, Andrei. Transit Provisions of the Energy Charter Treaty and draft Transit Protocol. In: Energy Charter Secretariat’s Conference - Energy Transit in Eurasia: Challenges and Perspectives. Bruxelas, 19-20 de Outubro de 2004. Disponível em: http://www.encharter.org/

fileadmin/user_upload/Conferences/2004_Oct/Konoplyanik.pdf. Último acesso em 18 de junho de 2013.

Mapa 3 - Redes de Transporte de Gás Natural – UE-Ásia

Fonte: Inogate (EU oil and gas transport co-operation programme). Elaboração: FIESP.

POLÔNIA

As negociações para a criação de um novo instrumento destinado a re-gular de maneira mais aprofundada o trânsito energético tiveram início em 2000 e, até o presente momento, não foram finalizadas. O Protocolo sobre Trânsito, objeto dessas negociações, contém um regime de princí-pios operacionais que abrangem o trânsito de fluxos energéticos (hidro-carbonetos154 e eletricidade) que atravessam ao menos duas fronteiras, com vistas a garantir a segurança e a não interrupção desse trânsito.

As Partes definiram a capacidade disponível de cada Estado como:

154 São hidrocarbonetos o petróleo e o gás natural.

(...) a capacidade física operacional total das Instalações para o Trans-porte de Energia (Energy Transport Facilities) subtraída a capacidade física operacional (a) necessária para o cumprimento das obrigações assu-midas pelo proprietário ou operador das Instalações sob qualquer acordo válido e juridicamente vinculado relacionado ao transporte de Materiais e Produtos Energéticos; (b) necessária para o cumprimento de qualquer ou-tra obrigação vinculante de acordo com leis e regulamentos na medida em que sejam utilizados para garantir o fornecimento de Materiais e Produtos Energéticos dentro do território de uma Parte Contratante; (c) (...) neces-sária para cumprir com todas as condições necesneces-sárias, incluindo as con-dições previstas, para a realização do transporte de Materiais e Produtos Energéticos pertencentes aos proprietários ou operadores/controladores das Instalações ou a seus associados; (d) necessária para a operacionaliza-ção eficiente das Instalações de Transporte, incluindo a margem operacio-nal necessária para garantir a segurança e a confiabilidade do sistema155. Deliberaram também que cada Parte Contratante deve assegurar que os proprietários ou controladores das instalações para o transporte de ener-gia, atuantes sob sua jurisdição, observem os princípios da boa-fé ao ne-gociarem com outras Partes Contratantes ou com suas entidades156 que requisitem o acesso e a utilização da capacidade disponível para o trânsito de bens energéticos.

As Partes devem assegurar que os proprietários ou controladores da in-fraestrutura para o transporte de energia tomem as medidas necessárias para minimizar os riscos de interrupção, redução ou paralisação acidentais do trânsito; que restabeleçam prontamente as operações normais e que no-tifiquem imediatamente as Partes Contratantes interessadas.

155 Vide Artigo 1(2) do Protocolo de Trânsito, Versão Preliminar de Janeiro de 2010. Disponível em: http://www.encharter.org/fileadmin/user_upload/document/TTG_87_ENG.pdf.

156 O Protocolo define, em seu Artigo 1.3, o que são Entidades para o futuro tratado: “Entity”

means: (a) with respect to a Contracting Party: (i) a natural person having the citizenship or nationality of or who is permanently residing in that Contracting Party in accordance with its applicable law; (ii) a company or other organization organized in accordance with the law appli-cable in that Contracting Party; (b) with respect to a “third state”, a natural person, company or other organization which fulfils, mutatis mutandis, the conditions specified in subparagraph (a) for a Contracting Party.

Com o intuito de solucionar a questão da regulamentação do acesso à infraestrutura e à capacidade de trânsito disponível, as Partes do ECT desenvolveram, paralelamente ao Protocolo, modelos juridicamente não vinculantes relacionados ao trânsito de energia. O Modelo de Acordos In-tergovernamentais e para Governos Receptores de Investimentos desti-nados a Dutos Transfronteiriços, em seu Artigo 25, recomenda a adoção de medidas que incentivem investidores, transportadores e operadores a negociarem o acesso a seu sistema de dutos de transmissão com terceiros interessados, caso haja capacidade disponível nesses dutos157.

A nota explicativa do Artigo supracitado ressalta que a concessão de aces-so ao sistema de transmissão de energia nem sempre é possível, o que re-vela a não obrigatoriedade da norma sugerida. Em todo caso, o Artigo não é um fim em si mesmo. Ele serve como instrumento para que se obtenha o resultado pretendido e somente garante aos investidores o direito à nego-ciação do acesso à capacidade de trânsito disponível em outros Estados158.

No mesmo sentido, tem-se o Modelo de Acordos Intergovernamentais e para Governos Receptores de Investimentos para Projetos Transfrontei-riços de Energia Elétrica. Ao abordar o acesso à infraestrutura de trans-missão de energia elétrica e a sua capacidade disponível, o Modelo propõe um texto adaptável a três situações diferentes em relação aos direitos do investidor: (i) direito de negociar o acesso de terceiros à capacidade dis-ponível na infraestrutura de transmissão de eletricidade; (ii) caso exista regulamentação, acesso garantido à infraestrutura adequada, de acordo com os termos definidos naquela; e (iii) no caso de o acesso à capacidade disponível ser administrado pelas entidades responsáveis pela operação dos sistemas elétricos e dos mercados de eletricidade, direito a receber re-muneração de acordo com a regulamentação nacional159.

157 Energy Charter Secretariat. Model Intergovernmental and Host Government Agreements for Cross-Border Pipelines. 2a edição, 2008, p.67.

158 Explanatory note: The Legal Advisory Task Force (LATF) is aware that an obligation to nego-tiate access to available capacity is not suitable for all projects. For this reason, no such obligation has been provided here. Nevertheless, it seems to the LATF important that the Parties (particularly the Host Government) should be aware of the issue and of the various options. As an alternative, some Project Investors may wish to ensure that they have the right to negotiate access to available capacity with third parties. This is reflected in the Model Host Government Agreement (HGA).

159 Energy Charter Secretariat. Model Intergovernmental and Host Government Agreements for Cross-Border Pipelines. 2aEdição. 2008. p.74.

Em relação às situações de sobrecarga do sistema, o Artigo 10 bis do Pro-tocolo de Trânsito propõe mecanismos para auxiliar sua administração, que incluem os princípios First Come – First Served160 e Pro Rata161, além da realização de leilões, todos destinados à distribuição da capacidade de trânsito. O Artigo propõe também a criação de tarifas aplicadas somente às seções congestionadas, desde que sejam justas, transparentes e não dis-criminatórias. Caso a situação de sobrecarga no sistema se prolongue no tempo, é recomendado, ainda, o investimento em construção, expansão, extensão e/ou reconstrução de instalações para o transporte de energia.

O Protocolo possui também dispositivos relativos à proibição de retirada não autorizada de Materiais e Produtos Energéticos em trânsito (Art. 6), um mecanismo de solução de controvérsias análogo ao previsto pelo Artigo 27 do ECT (Artigo 21) e um sistema reforçado de medição de energia nas fronteiras (Artigo 14), além de prever a proteção de acordos internacionais de troca de energia (international energy swap agreements).

O Protocolo conta também com um mecanismo de solução de disputas análogo ao previsto no Artigo 27 do ECT, que oferece aos Estados em litígio a possibilidade de recorrerem à arbitragem interestatal.

Quadro 20: Temas em Negociação

Alguns pontos do Protocolo sobre Trânsito ainda estão em negociação, difi-cultando, assim, sua adoção. Os temas mais controversos dizem respeito: (i) ao método de tarifação do trânsito energético; (ii) à garantia do direito de preferên-cia (right of first refusal) aos Estados que possuam contratos de longo prazo no setor energético; e (iii) à cláusula que insere as Organizações Regionais de

Inte-160 O princípio First Come – First Served refere-se à alocação da capacidade disponível na ordem de recebimento de pedidos pelo proprietário ou operador da referida infraestrutura de transporte de energia.

161 O princípio Pro Rata refere-se à alocação da capacidade disponível entre os possíveis usuários na proporção do volume de transporte por eles requisitado. AZARIA, D. Energy Transit under the Energy Charter Treaty and the General Agreement on Tariffs as Trade. In: Journal of Energy &

Natural Resources Law. Vol. 27 (4), 2009, pp. 559-596, p. 564. Sobre o princípio Pro Rata, vide Artigo 1(6) do Protocolo de Trânsito, Versão Preliminar, Janeiro de 2010. Disponível em: http://

www.encharter.org/fileadmin/user_upload/document/TTG_87_ENG.pdf.

gração Econômica (Regional Economic Integration Organisations - REIOs)162 no ordenamento.

As tarifas de trânsito (transit tariffs) são os pagamentos requisitados pelos proprietários ou operadores/controladores das instalações para o transporte de energia (Energy Transport Facilities) para permitir o trânsito de materiais e produtos energéticos163. É ponto pacífico nas negociações que as tarifas devem ser cobradas de maneira objetiva, razoável, transparente e não discriminatória, de modo a não serem afetadas pelas distorções de mercado. Devem também ser baseadas em custos operacionais e de investimento, incluindo uma taxa de re-torno razoável. Discute-se, no entanto, o método a ser utilizado na determinação tarifária incidente sobre o trânsito energético.

A inclusão do direito de preferência para produtores de energia que tenham de cumprir obrigações de longo prazo também é objeto de polêmica. Os contratos de fornecimento e de trânsito de energia são documentos diferentes que geram obrigações distintas, geralmente de longa duração, e que não necessariamente expiram na mesma data. No intuito de evitar a limitação de fornecimento energé-tico em casos de déficit de capacidade de trânsito, a Rússia mostrou-se favorável à criação de um direito de preferência, caso os contratos de suprimento ener-gético não coincidam com os contratos de trânsito de energia. A UE, de modo diverso, é a favor de contratos de curta duração que favoreçam a concorrência.

Esse impasse entre as Partes é uma das causas do adiamento da assinatura do Protocolo sobre Trânsito164.

O Artigo 20 proposto no Protocolo trata sobre as REIOs e determina o que se deve entender por “área” no tocante às Partes Contratantes que sejam também Membros de determinada REIO: área em que o acordo constitutivo da Orga-nização Regional seja aplicado. Essa determinação representa, para alguns dos Estados em negociação, relativa dificuldade na distinção entre os conceitos de trânsito internacional e de trânsito doméstico, conduzindo à já mencionada difi-culdade de determinação tarifária. Ademais, há certa insegurança por parte dos proprietários e operadores de infraestrutura de transporte de energia quanto à aplicação do ECT e do Protocolo na abrangência sugerida.

162 AZARIA, D. Energy Transit under the Energy Charter Treaty and the General Agreement on Tariffs as Trade. In: Journal of Energy & Natural Resources Law. Vol. 27 (4), 2009, pp. 559-596, p. 564.

163 Vide Artigo 1(6) do Protocolo de Trânsito, Versão Preliminar, Janeiro de 2010. Disponível em:

http://www.encharter.org/fileadmin/user_upload/document/TTG_87_ENG.pdf.

164 BELYI, A. V. A Russian Perspective on the Energy Charter Treaty. Analysis of the Real Ins-tituto Elcano, International Economy and Trade, ARI 98/2009, 16 de Junho de 2009, pp. 3-4.

Disponível em: http://www.realinstitutoelcano.org/wps/wcm/connect/e6e3e5004f018b7db7c- 6f73170baead1/ARI98-2009_Belyi_Russian_Perspective_Energy_Charter_Treaty.pdf?MOD=A-JPERES&CACHEID=e6e3e5004f018b7db7c6f73170baead1.

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3. SUBSÍDIOS

O Acordo sobre Subsídios e Medidas Compensatórias (Agreement on Subsidies and Countervailing Measures – SCM) da OMC considera que subsídios podem ser entendidos como a concessão de um benefício basea-da em duas hipóteses: (i) existência, no país exportador, de alguma forma de sustentação de renda ou de preços que possa contribuir, direta ou in-diretamente, para aumentar as exportações ou reduzir as importações de qualquer produto; ou (ii) existência de contribuição financeira concedida por um governo ou órgão público no território de um Membro, sendo que esta pode ser realizada por meio de empréstimos, doações, financiamen-tos, incentivos tributários, fornecimento de bens ou serviços além daqueles destinados à infraestrutura, entre outros (Artigo 1, SCM).

Apesar de o termo subsídio ser definido de forma abrangente, cobrin-do uma ampla lista de suportes governamentais, é importante notar que nem todos os subsídios podem ser objeto de questionamentos no âmbito da OMC. Para tanto, ele deve cumprir o critério da especificidade.

Um subsídio é considerado específico quando a autoridade outorgante, ou a legislação vigente, explicitamente limitar seu acesso a apenas uma empresa ou a um grupo de empresas, ou quando o subsídio for delimitado regionalmente ou setorialmente (Artigo 2, SCM)165.

Para o SCM, os subsídios distinguem-se entre proibidos, acionáveis e não-acionáveis.

Os subsídios proibidos são sempre considerados específicos. Eles geralmente se apresentam de duas formas: (i) subsídios às exportações;

e (ii) subsídios vinculados ao uso de produtos nacionais – conteúdo lo-cal (Artigo 3, SCM). Os primeiros consistem em subsídios vinculados, de

165 Quando a autoridade ou a legislação estabelecerem critérios ou condições objetivas regulando a qualificação para o subsídio e seu montante, desde que a escolha seja automática, com estrita observância dos critérios e condições previstos, não há que se falar em especificidade.

fato166 ou de direito167, ao desempenho exportador. Os segundos são aque-les vinculados ao uso preferencial de produtos nacionais em detrimento dos importados. Deve-se ressaltar que a condição de uso preferencial de produtos nacionais comumente assume a forma de exigências de conteúdo local, ou seja, de determinada parcela de bens e serviços adquiridos junto a fornecedores nacionais para realização das atividades da empresa ou in-dústria, utilizadas geralmente com o objetivo de proteger ou estimular a indústria doméstica.

Os subsídios proibidos são analisados pelo DSB sob um prazo mais curto (fast track) e, caso sejam confirmados, devem ser removidos, ensejando o direito ao Membro prejudicado de aplicar retaliações. Ainda, contramedi-das podem ser aplicacontramedi-das ao dano causado aos produtores nacionais pela importação dos produtos subsidiados.

Os subsídios acionáveis são os subsídios específicos cuja aplicação cau-sa efeitos adversos168 aos interesses de outros Membros (Artigo 5, SCM).

Nesse caso, se esses efeitos forem comprovados pelo Membro(s) reclaman-te(s), o Membro reclamado deverá excluir os efeitos negativos advindos da medida adotada ou retirar o subsídio.

A categoria de subsídios não acionáveis era dividida entre subsídios não específicos e específicos, que preenchessem as condições previstas

166 Especificidade de fato: é possível que um subsídio, à primeira vista, não seja específico, mas funcione, de fato, como específico. Se existem razões para crer que este seja o caso, outros fato-res podem ser considerados, incluindo o uso de programa de subsídios por um número limitado de empresas, o uso predominante por certas empresas, a concessão desproporcional de grandes montantes de subsídios para certas empresas, a maneira pela qual a discricionariedade tenha sido utilizada pela autoridade concessora na decisão de se conceder o subsídio, entre outras.

167 Especificidade de direito: quando um subsídio for explicitamente delimitado regional ou seto-rialmente, quer pela autoridade concessora, quer pela legislação.

168 Entende-se por “efeitos adversos”: (i) dano causado à indústria doméstica de outro Membro;

(ii) anulação ou redução de vantagens percebidas direta ou indiretamente por outro Membro; ou (iii) grave prejuízo aos interesses de outro Membro.

no Artigo 8.2(a)(b)(c)169. No entanto, essa categoria tinha validade pre-vista até o ano 2000, quando deveria ser repre-vista pelos Membros da OMC.

Os Membros não chegaram a uma conclusão em relação à renovação ou alteração dos subsídios não acionáveis e, dessa forma, seus efeitos expi-raram.

No setor de energia, há dois principais programas de subsídios utiliza-dos atualmente pelos governos e que serão abordautiliza-dos no presente capí-tulo: (i) dupla fixação de preços (dual pricing), aplicado principalmente para gás e petróleo; e (ii) subsídios a energias renováveis, cuja maior ex-pressão é o programa feed-in tariffs (FIT).

O AoA prevê regras específicas para subsídios destinados ao setor agrí-cola. A regulamentação aplicável a esse setor será analisada a seguir.