Neste capítulo analisaremos o provérbio como texto peculiar e também como uma parte do texto. Primeiro, apresentaremos alguns paremiologistas que tentam sugerir definições nos termos da estrutura nomeadamente propostas de Milner, Dundes e Kuusi. Segundo, dedicaremos a nossa atenção aos linguistas Norrick e Mukarovsky que também estudam estrutura e propriedades do provérbio mas em relação ao contexto em que se encontra.
Autor George Milner estabelece a teoria de “quadripartite structure” e afirma que a propriedade mais importante do provérbio é a sua estrutura simétrica. Ele vê esta simetria não só na sua forma, do ponto de vista formal mas também no seu conteúdo, ou seja, do ponto de vista semântico. A seguinte, popularidade da frase proverbial depende da correspondência entre a simetria de forma e de significado. Acrescenta a sua teoria que a forma mais frequente do provérbio é que possui quatro termos ou «quarters» e a cada um destes termos é atribuído valor negativo (-) ou positivo (+). Autor, depois, divide o provérbio em duas partes que formam «cabeça» e «cauda» da frase. A «cabeça« e «cauda» podem ser interpretadas como positivas se os constituintes da frase tiverem signos idênticos ( - e - ou + e +) ou podem ganhar o valor negativo se os constituintes forem diferentes (+ e - ). Artigos, preposições e verbos são simplesmente ignorados. 74
As boas contas (fazem) bons amigos. + + + +
Bocado comido não faz amigo. + -
74 Parafraseando: MILNER, George. In. Trends in linguistics – How proverbs mean: Semantic studies
in English proverbs. NORRICK, Neal R. Mouton. Berlin. 1985. p. 51-54. Disponível em:
<http://books.google.com/books?printsec=frontcover&vid=ISBN0899250378&vid=ISBN3110101963#v =onepage&q=&f=false>.
- 33 -
Esta análise provoca muitas questões. O autor próprio admite que se trata da forma arbitrária de estudo e assim, subjectiva e não controlada. É evidente que cada um pode dividir um provérbio em termos e grupos diferentes, atribuindo-lhes outras valores segundo a sua opinião particular. Por cima, Neal R. Norrick nota que não é possível avaliar elementos individuais e, principalmente, isolados do contexto sintagmático e temático do provérbio. Assim, concordamos com a opinião de Ana Macário Lopes que esta estrutura quadripartida não pode ser apresentada como uma característica decisiva e mais importante dos provérbios o que mais tarde o autor próprio confirmou. Milner denunciou que a maioria dos provérbios pode ser analisada como os provérbios quadripartidos na sua estrutura superficial. Nos achamos esta teoria interessante, podendo mostrar as opiniões divergentes que podem aparecer na área de linguística.
Outro linguista Alan Dundes defende a sua teoria «topic-comment structure». Por outras palavras, os provérbios são construídos por «tópico» que representa aquilo do que se fala e «comentário» que retrata o que se refere sobre o tópico. Nesta teoria cada provérbio possui estes constituintes que formam um «elemento descritivo». Para o autor existem os provérbios com um só elemento descritivo e aqueles, mais frequentes, que possuem vários elementos descritivos dentro de si.
Nestes parâmetros, Dundes distingue os provérbios «equacionais» e «oposicionais». Os primeiros acentuam uma certa equação entre os elementos relacionados em que o traço A corresponde ao B (1). Os segundos implicam os elementos que estabelecem entre si uma relação contraditória em que A não corresponde a B (2) ou uma relação de exclusão de dois estados-de-coisas em que se tem A não pode ter B (3).75
1. Tal pai, tal filho / A fome é um bom tempero.
2. O olho azul em português não é sinal de boa rês / Nem tudo o que luz é ouro.
75 Parafraseando: DUNDES, Alan. In. Trends in linguistics – How proverbs mean: Semantic studies in
English proverbs. NORRICK, Neal R. Mouton. Berlin. 1985. p. 55-57. Disponível em:
<http://books.google.com/books?printsec=frontcover&vid=ISBN0899250378&vid=ISBN3110101963#v =onepage&q=&f=false>.
- 34 -
3. Não se ganha boa fama em cama de penas.
Por um lado, Dundes oferece-nos uma divisão, usando termos de tópico e comentário nos provérbios que pode ser aplicada para diferir os provérbios das outras frases fixas. Por outro lado, Neal R. Norrick e Ana Macário Lopes opõem nas suas afirmações que se trata: “duma definição demasiado ampla para captar a especificidade do texto proverbial, já que todas as asserções podem ser analisadas à luz da oposição tópico/comentário ou tema/rema.”76
Nas teorias anteriores podemos observar que é muito complicado tentar estudar o provérbio como uma frase isolada, esquecendo que sempre surge como um componente num contexto. Seria apropriado mencionar uma síntese que Neal R. Norrick introduz na sua conclusão das propriedades de provérbio que é colocado num texto ou numa interacção conversacional. Esta síntese é baseada em parte nos estudos abordados por Barley (1974) e na necessidade de diferir o provérbio das outras unidades fixas tradicionais. O autor próprio afirma que a sua intenção é: “uma síntese orientada para uma criação de significado nos provérbios como textos.”77
1. “potentional free conversational turn” – o provérbio é sempre de carácter fundamentalmente conversacional e funciona como uma unidade semântica e pragmática autónoma independente de contexto.
2. “traditional”- o provérbio é um texto que o povo consagrou com o seu uso durante as gerações cujo grau preciso de antiguidade é difícil definir. Não se podem confundir com os clichés e slogans que frequentemente funcionam como as unidades de moda usadas por um grupo particular da sociedade e, principalmente, durante um período curto.
3. “spoken”- O provérbio pertence, indubitavelmente, à literatura tradicional de transmissão oral e assim, podemos afirmar que se trata dum
76 LOPES, Ana Macário. Texto proverbial português. Contributos para uma análise semântica e
pragmática. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. 1992. p. 40.
77 NORRICK, Neal R. Trends in linguistics – How proverbs mean: Semantic studies in English
proverbs. Mouton. Berlin. p. 30. Disponível em:
<http://books.google.com/books?printsec=frontcover&vid=ISBN0899250378&vid=ISBN3110101963#v =onepage&q=&f=false>.
- 35 -
texto de carácter oral. Ao contrário, existem unidades fixadas pela sua origem na escrita como os aforismos, apotegmas ou epigramas.
4. “fixed form”- O provérbio difere com este traço das outras unidades tradicionais que se assinalam por uma maior flexibilidade na sua composição como anedota ou conto. Seria apropriado mencionar que temos que ter em conta as variações possíveis que podem ocorrer na estrutura do provérbio. Estas variações já foram abordadas e ainda ganharão espaço no capítulo seguinte.
5. “didactic”- O provérbio possui sempre um carácter didáctico o que já abordámos como o traço decisivo na comparação entre expressão idiomática e proverbial.
6. “general”- Para Norrick, cada interpretação do provérbio é sempre genérica embora o provérbio seja utilizado numa situação específica.
7. “figurative”- O carácter figurativo é considerado relevante para autor somente para estabelecer distinção entre o provérbio e a locução proverbial (modismo ou expressão idiomática) e afirma que existem os provérbios cuja significação pode ser literalmente transmitida. Ao contrário, expressão idiomática sempre requere uma leitura figurada.
8. “prosodic”- Este traço prosódico (vocalização das palavras segundo as leis do acento e da quantidade) não é considerado decisivo, podendo variar nos provérbios.
9. “entertaining and humorous”- Norrick enquadra estas propriedades facultativas para confrontar o provérbio com a anedota, canção ou conto.
A seguir, apresentaremos uma imagem que corresponde às definições da síntese de Norrick. O sinal de + marca que uma propriedade particular está presente, o sinal – indica a ausência de uma propriedade e, finalmente, 0 significa o seu carácter facultativo.
- 36 -