2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
2.1. PROJETO DE FUNDAÇÕES POR ESTACAS
2.1.3. PROVA DE CARGA ESTÁTICA
2.1.3.2. Prova de carga estática instrumentada em profundidade
as parcelas de resistência por atrito lateral ao longo do fuste e, ou apenas, separar a resistência por atrito lateral da resistência de ponta.
A quantidade, arranjo e tipo de instrumentação dependem do propósito da mesma. Como instrumentação ao longo do fuste podem ser utilizados:
extensômetros (strain-gages) elétricos de resistência, extensômetros de corda vibrante e hastes medidoras de deslocamentos (tell-tales).
Recentemente, fibra ótica tem sido utilizada, no entanto, é comparativamente mais cara, especialmente o equipamento de aquisição de dados, e muito cuidado é necessário no manuseio dos cabos durante sua instalação (HAYES & SIMMONDS, 2002).
Outra opção é executar uma prova de carga bidirecional com célula expansiva hidrodinâmica. Instalada, geralmente, próxima à ponta da estaca, essa célula é capaz de expandir nas duas direções: para cima, mobilizando o atrito lateral e para baixo, mobilizando a resistência de ponta, o que permite medir essas parcelas de carga separadamente (SCHMERTMANN et al., 1998).
Brown & Shi (2001) relatam o uso de células em vários níveis do fuste da estaca, de forma a promover testes em diferentes porções do mesmo.
Segundo Hayes & Simmonds (2002), a distribuição de carga ao longo de uma estaca, normalmente, é medida por strain-gages incorporados à mesma.
Especificamente em provas de carga estática, os autores afirmam que os strain-gages de corda vibrante são geralmente utilizados por serem robustos, de rápida e simples instalação. Outra vantagem é que o sinal de saída em frequência, dada em Hertz ( ), não é afetado por umidade, alongamento ou encurtamento dos cabos, quedas de tensão causadas por corrosão dos terminais de contato ou efeitos de temperatura nos cabos.
No presente trabalho é apresentado o resultado de uma prova de carga instrumentada na qual foram utilizados extensômetros elétricos de corda vibrante (extensômetros recuperáveis modelo A-9 fabricados pela Geokon).
Em estacas moldadas in loco a instalação desse tipo de extensômetro em seções de interesse ao longo do fuste da estaca é feita no interior de um tubo guia de aço, o qual é introduzido na estaca durante sua execução.
Os extensômetros são ancorados no tubo através de ventosas de aço expansíveis a gás (ar comprimido, dióxido de carbono ou nitrogênio) e ligados uns aos outros, em série, através de hastes de aço, fibra de vidro ou carbono (GEOKON, 2011).
A leitura dos dados dos extensômetros é realizada por meio de uma unidade leitora do tipo GK-404, ou similares. A unidade de saída dos dados de vibração é o digit, cujo cálculo é baseado na seguinte equação:
(2.3)
A unidade leitora ainda fornece dados de temperatura em graus centígrados.
Figura 3 - Extensômetro do tipo A-9 de fabricação da Geokon: Peça para ancoragem (à frente), dois extensômetros completos (centro) e haste
conectora (ao fundo).
Fonte Geokon (2014).
Os dados de vibração em digit são convertidos em deslocamento por meio da seguinte equação:
(2.4)
Onde:
é o deslocamento calculado (mm);
é a leitura em um dado tempo (digit);
é a leitura inicial (digit);
é o fator de calibração (mm/digit).
Os valores de deformação específica ( ) são obtidos da divisão do deslocamento calculado pela distância entre ancoragens.
Tipicamente, a carga em cada seção instrumentada ( ) é estimada através da deformação medida e do módulo de elasticidade da estaca (HAYES
& SIMMONDS, 2002). Considerando-se a relação entre carga (carga de topo) e deformação específica através da teoria da elasticidade (Lei de Hooke), tem-se:
(2.5)
Onde:
é a deformação específica medida na seção instrumentada;
é o módulo de elasticidade da estaca na seção instrumentada;
é a área da seção transversal da estaca na seção instrumentada.
O módulo de elasticidade de estacas metálicas é constante e conhecido com bastante precisão e é, aproximadamente, igual a 205 GPa (FELLENIUS, 2006).
No caso de estacas de concreto, moldadas in loco ou pré-moldadas, o módulo de elasticidade ( ) pode ser calculado a partir da resistência à compressão de corpos de prova, por meio da Equação (2.6). Baseada na resistência à compressão de um corpo de prova de concreto ( ), a equação proporciona valores razoáveis de , porém há discussões acerca da variação da constante conforme o traço e da diferença entre a resistência do concreto à compressão desconfinada e a resistência à compressão do concreto do fuste da estaca (HAYES & SIMMONDS, 2002).
(2.6)
Fellenius (2001) também discute o fato de que o módulo de elasticidade do concreto, ao contrário do aço, não é constante e sim função do carregamento imposto, ou melhor, da deformação imposta.
O autor explica que em uma prova de carga, normalmente, o módulo diminui com o aumento da carga ou tensão aplicada. Isso significa que, quando
a carga é aplicada a uma estaca a relação tensão-deformação segue uma curva, não uma reta.
Fellenius (2001) afirma que a curva “tensão versus deformação” pode, com acurácia suficiente, ser definida por uma equação de segundo grau, na qual a variável dependente é a tensão e a independente a deformação. Essa abordagem se baseia no fato de que a tensão pode ser tomada como o módulo secante multiplicado pela deformação.
Segundo o autor, essa relação pode ser determinada diretamente a partir dos dados de carga-deformação de uma seção próxima ao topo da estaca (livre de atrito lateral) na qual são locados strain-gages. É possível também determinar o módulo de elasticidade com dados das demais seções instrumentadas. Nesse caso, o módulo é calculado a partir da deformação medida resultante de incrementos de carga subsequentes ao esgotamento do atrito lateral, na seção em que se deseja obter o parâmetro.
Sabendo a relação tensão-deformação definida pela equação de segundo grau, a deformação medida pode ser convertida em tensão em cada seção instrumentada. A carga é obtida multiplicando a tensão pela seção transversal da estaca.
A Figura 4 mostra o resultado de uma prova de carga instrumentada, onde se observa uma distribuição esquemática do atrito lateral e da resistência de ponta para os diversos incrementos de carga.
Figura 4 - Transferência de carga em estaca raiz em solo de diabásio.
Fonte: Garcia et al. (2012).