7.1 A PORTE S EDIMENTAR EM A LBARDÃO
7.1.1 Proveniência Sedimentar
A mineralogia superficial encontrada neste trabalho para os sedimentos da Depressão do Albardão apresenta quartzo, muscovita, o feldspato sódico albita e calcita. A presença de calcita é associada ao próprio meio (marinho), sendo ela formadora de carapaças de organismos. Quartzo, micas e albita são característicamente detríticos. A presença de micas e feldspatos pode ser indicação da proximidade da área fonte destes sedimentos.
Considerando ainda os sedimentos superficiais, foram quantificados os argilominerais ilita (49%), esmectita (31%), caulinita (11%) e clorita (9%). A presença de clorita juntamente com caulinita é bem definida pelos picos duplos em 7Å e 3,5Å.
Biscaye (1965) em seu trabalho que abrangeu o Atlântico Sul e oceanos adjacentes, para a região sob influência do Rio da Prata determinou na fração argila a predominância de ilita (acima de 50%), com menores teores de esmectita (entre 20 e 30%), e clorita e caulinita. Ainda segundo Biscaye (1965), a importância do aporte detrítico para o Oceano Atlântico Sul supera as possíveis neoformações.
Depetris et al (2003) apresentam a mineralogia do material carreado em suspensão pelo Rio Paraná, que juntamente com o Rio Uruguai formam o Rio da Prata (Figura 4.3). Para as porções do baixo Rio Paraná estes autores determinaram a presença de ilita > esmectita > caulinita > clorita, nesta ordem de abundância na fração argilosa. Para a fração de 2µm a 20µm apresentam feldspato potássico, plagioclásio, micas e quartzo como abundantes.
102 As quantidades dos principais grupos de argilominerais obtidas no presente trabalho, para os sedimentos superficiais da Depressão do Albardão, concordam com os dados de Biscaye (1965) para a plataforma sob influência do Rio da Prata, assim como com a abundância encontrada por Depetris et al (2003) para os sedimentos em suspensão no Rio Paraná.
O mapa de distribuição de argilominerais na plataforma brasileira, apresentado no capítulo 4 (Figura 4.4), assinala na região da Depressão de Albardão a presença de ilita, esmectita (montmorilonita) e caulinita. Registra-se que no presente trabalho é confirmada a presença de clorita na Depressão do Albardão para fração argila dos sedimentos.
Ressalta-se o fato de que mesmo na fração pó total do sedimento siltoargiloso depositado já se detecta a presença de clorita, indicando o caráter detrítico desse argilomineral, encontrado também por outros autores nos sedimentos em suspensão em águas de afluentes do Rio da Prata (DEPETRIS et al., 2003; MINABERRY et al., 2007).
Em relação aos demais minerais presentes na fração total dos sedimentos, também há concordância entre os minerais mais abundantes em suspensão do Rio Paraná com os determinados para a Depressão do Albardão: quartzo, micas e feldspatos.
O material retido em filtros de 0,45µm analisado neste trabalho mostra que os sedimentos em suspensão na água do mar sobre a Depressão do Albardão em diferentes profundidades (5, 17 e 70 m) apresentam mineralogicamente quartzo, e os argilominerais clorita, caulinita e ilita. A identificação de outros minerais nos filtros pode ter sido prejudicada pelo elevado background gerado pelo papel de filtro, conforme apresentado no capítulo anterior. Picos muito intensos gerados pela orientação preferencial de alguns minerais também podem prejudicar a identificação das demais fases (ALBERS et al., 2001).
Quanto aos Elementos Terras Raras, o seu comportamento para os sedimentos da Depressão do Albardão é apresentado na Figura 7.1. O comportamento e variações ao longo do tempo serão avaliados no próximo tópico. O que se observa aqui, de maneira geral, é um leve fracionamento entre os elementos dos grupos de terras raras leves e pesados, ocorrendo leve empobrecimento em ETRP. A razão (La/Yb)N varia de 0,97 a 1,66. Em termos de comportamento relativo entre os ETR individualmente, existem algumas variações principalmente para as concentrações de neodímio.
Figura 7.1: Comportamento dos ETR para o testemunho ALB06-03
A Figura 7.2, apresenta o grau de fracionamento entre elementos terras raras leves e pesados versus a razão (Eu/Sm)N e versus a concentração de CeN para os sedimentos na Depressão do Albardão. A concentração de cério representa as concentrações absolutas normalizadas de ETR, e a razão entre európio e samário é um bom indicador para proveniência sedimentar (ROLLINSON, 1993). Para fins comparativos foram utilizadas concentrações de ETR em (1) sedimentos em suspensão dos rios Paraná e Uruguai (DEPETRIS et al., 2003); (2) sedimentos eólicos exportados da Patagônia em direção ao Oceano Atlântico Sul (GAIERO et al., 2004); (3) rochas sedimentares mesozóicas que afloram na denominada Depressão Periférica no estado do Rio Grande do Sul (SILVA,J.L.S. D. et al., 2005) e (4) rochas máficas toleíticas da suíte Paulo Lopes na região Sul do Brasil (FLORISBAL et al., 2005).
A razão (Eu/Sm)N para os sedimentos da Depressão do Albardão varia de 0,93 a 1,59. As concentrações de CeN mostram um leve enriquecimento de ETRL em relação à NASC (CeN>1).
Amostras de rochas máficas toleíticas estudadas por Florisbal et al. (2005) possuem razões (Eu/Sm)N que variam de 1,21 a 1,62, sendo superiores à média encontrada para Albardão. O fracionamento entre leves e pesados para este tipo de rocha também é muito maior do que para os sedimentos estudados, dado que se trata de rochas ígneas.
Comparando os sedimentos da Depressão do Albardão com as demais amostras nota-se a maior afinidade com os sedimentos em suspensão dos rios Paraná e Uruguai, tanto em termos de fracionamento de ETR médios como em termos de concentrações absolutas.
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Figura 7.2: Fracionamento entre os REE leves e pesados para o testemunho ALB06-03 e outras amostras (a) em relação aos ETRM (b) em relação às concentrações absolutas.
Depetris (2003): Amostras de sedimento em suspensão dos rios Paraná e Uruguai; Silva(2005): Rochas Sedimentares do estado do Rio Grande do Sul; Gaiero (2004): Sedimentos eólicos da Patagônia.
É interessante a observação de que os sedimentos da Depressão do Albardão, assim como parte das amostras dos rios Paraná e Uruguai, possuem um fracionamento de ETRP e ETRL entre 1 e 1,5. As amostras eólicas, mostrando que processos atuaram em um maior grau sobre o material carreado pela água, provavelmente desde o intemperismo ao transporte. As amostras eólicas possuem padrões semelhantes aos de material de topo de solos patagônicos (GAIERO et al., 2004).
(a)
A estreita relação entre os sedimentos dos rios Paraná e Uruguai e os sedimentos da Depressão do Albardão é confirmada pelo comportamento dos ETR, apresentado na Figura 7.3, muito semelhante ao apresentado na Figura 7.1, com exceção aos valores anômalos de neodímio.
Figura 7.3: Comportamento de ETR para os dados de Depetris (2003)
Quanto aos demais metais, A Figura 7.4 apresenta diagramas multi-elementares para os metais dos sedimentos em suspensão dos Rios Paraná e Uruguai, comparando os com as concentrações encontradas ao longo do testemunho ALB06-03. Em vermelho, no diagrama (b) são ressaltadas algumas diferenças entre eles que dizem respeito aos valores de sódio, bário, neodímio e urânio. Para os outros elementos a concordância entre eles é muito forte.
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Figura 7.4: Diagramas multielementares normalizados para NASC (A) Valores de Depetris (2003) para os Rios Paraná e Uruguai
(B) Diferentes profundidades do Testemunho ALB0603
Os dados apresentados para ETR e multi-elementos associados às observações mineralógicas, mostram a alta afinidade dos sedimentos silto-argilosos depositados na Depressão do Albardão com os sedimentos do Rio da Prata, confirmando sua proveniência e sugerindo ainda a continuidade da deposição nos dias atuais, visto que além das fortes afinidades geoquímicas as quantidades determinadas para os argilominerais em superfície concordam com a ordem de abundância com que são encontrados nos sedimentos dos rios Uruguai e Paraná atualmente.
(A)