CAPÍTULO I DIÁLOGO ECUMÊNICO EM SÃO JOSÉ DOS CAMPOS:
1.1 Proximidade territorial das diversas igrejas: um problema
Apesar de o foco de nosso estudo ser as Igrejas históricas do município, faz-se necessário mencionar que uma das primeiras dificuldades encontradas no diálogo intereclesial está na proximidade territorial das Igrejas pentecostais e/ou neopentecostais e a Igreja católica. Os motivos são históricos, atuais e característicos da modernidade.
É importante lembrar que a Igreja Católica Romana está presente nos municípios através de várias paróquias que compõem uma Diocese. Muitas dessas paróquias são instaladas em bairros distantes da região central das cidades, estando, portanto, mais próximas dos fiéis. Nas adjacências das paróquias, estão presentes também as Igrejas pentecostais tradicionais e as neopentecostais.
Antes do crescimento acelerado das demais Igrejas cristãs, o Catolicismo era majoritário, tanto em bairros carentes quanto nos mais nobres. Hoje, podemos visualizar no cotidiano as grandes mudanças pelas quais passou o campo religioso. De uma forma ou de outra, “Como toda instituição social, as igrejas devem adaptar-se aos novos contextos em que vivem seus fiéis, a fim de mantê-los como adeptos.”11 Daí, também, se justifica não só o aumento do número cada vez maior de Igrejas diferentes nos bairros das cidades, bem como a proximidade entre esses e os católicos.
Exemplificamos o caso de uma paróquia do município de São José dos Campos. A Paróquia de Sant’Ana está situada num bairro heterogêneo, mas não central. Nas adjacências dessa paróquia, havia, no período de 1999 a 2001, dez Igrejas evangélicas – entre pentecostais e neopentecostais, mas, Igrejas cristãs históricas não havia – e ainda não há – nenhuma. Várias delas já encerraram suas atividades, outras continuam. Foram elas: Assembléia de Deus, Adventista do Sétimo Dia, Evangelho Quadrangular, Congregação Cristã do Brasil, Deus é Amor, Restauração da Fé, Igreja Unificada Fogo Eterno do Espírito Santo, Cristã Evangélica, Cristã Evangélica Independente e Cristã no Brasil.
De acordo com o sociólogo Ricardo MARIANO, as atuais mudanças do contexto religioso brasileiro – pelo qual a cidade de São José dos Campos recebe influência – são as seguintes:
11 ROSANDO-NUNES, Maria José, O catolicismo sob o escrutínio da modernidade. In: B.M.
(...) a derrocada constante da hegemonia católica concomitante à consolidação institucional e demográfica dos grupos pentecostais, à ampliação e diversificação das religiões de matriz cristã, à pentecostalização do protestantismo e de segmentos do catolicismo e à dessacralização da cultura por meio do desenraizamento dos brasileiros da ‘religião tradicional e da tradição religiosa’, abrindo-os inevitavelmente para a apostasia, para a quebra de lealdade e para a livre escolha religiosa.12
As Igrejas neopentecostais13 estão presentes em nossa sociedade numa variedade de denominações, e se diversificam tanto em doutrina quanto em ritos e práticas; também “estabeleceram inusitadas formas de se relacionar com a sociedade”14. Descendentes das religiões reformadas, essas Igrejas pregam “as benesses do dinheiro e do consumo alcançáveis pela graça divina, nos moldes da (...) teologia da prosperidade (...). que redefine o neopentecostalismo das grandes igrejas-empreendimento para muito longe do universo ideológico protestante.”15
A teologia da prosperidade originou-se nos Estados Unidos na década de 40 e constituiu-se como movimento doutrinário na década de 70, “quando encontrou guarida nos grupos evangélicos carismáticos dos EUA, pelos quais adquiriu visibilidade e se difundiu para outras correntes cristãs.”16 No Brasil, a Teologia da Prosperidade se inicia também na década de 70, valorizando a “fé em Deus como meio de obter saúde, riqueza, felicidade, sucesso e poder terrenos.”17 Assim, a pobreza é entendida como falta de fé da pessoa. “Seus defensores dizem que Jesus veio ao mundo pregar o Evangelho aos pobres justamente para que eles deixassem de ser pobres. (...) Os reais servos de Deus não são nem nunca serão párias sociais.”18
Para o sociólogo Ricardo MARIANO, o grande número de pessoas – os mais marginalizados – que procuram as Igrejas pentecostais, o faz com o propósito de superar inúmeros problemas, desde sentido para a própria vida até prosperidade. Mas, a
12 Ricardo MARIANO, Neopentecostais, p. 15.
13 O sociólogo Ricardo Mariano explica que ‘neopentecostais’ são igrejas de “vertente
pentecostal mais recente e dinâmica, responsável pelas principais transformações teológicas, axiológicas, estéticas e comportamentais por que vem passando o movimento pentecostal”. De acordo com este autor, são características dos neopentecostais: dessectarização, ruptura com o ascetismo contracultural e a progressiva acomodação destes religiosos e suas denominações à sociedade e à cultura de consumo. Ibidem.
14 Ricardo MARIANO, Neopentecostais, p. 8.
15 Reginaldo PRANDI, Religião paga, conversão e serviço In: Ricardo MARIANO, A realidade
social das religiões no Brasil, p. 258, parágrafo 1.
16 MARIANO, Ricardo. Neopentecostais, p. 151. 17 MARIANO, Ricardo. Neopentecostais, p. 158. 18 Ibid., p. 159.
correlação entre pobreza e pentecostalismo não justifica, por si só, a expansão destas igrejas.
Com o propósito de superar precárias condições de existência, organizar a vida, encontrar sentido, alento e esperança diante de situação tão desesperadora, os estratos mais pobres, mais sofridos, mais escuros e menos escolarizados da população, isto é, os mais marginalizados – distantes do catolicismo oficial, (...) têm optado voluntária e preferencialmente pelas igrejas pentecostais. Nelas encontram receptividade, apoio terapêutico- espiritual e, em alguns casos, solidariedade material. A correlação existente entre pobreza e pentecostalismo, entretanto, não explica os motivos da expansão desta religião, nem muito menos as razões do crescimento desigual das diferentes igrejas. Pesquisas aprofundadas a esse respeito ainda estão por se fazer.
Pela quantidade de Igrejas evangélicas atualmente presentes no município e região, cada vez mais as paróquias da Igreja católica ficam mais próximas – territorialmente – das Igrejas ou templos evangélicos; ou vice-versa.
Pelo que constatamos em São José dos Campos-SP, as Igrejas Cristãs Históricas estão instaladas em regiões centrais ou em bairros com população heterogênea, no que diz respeito à classe social; com algumas exceções, as Igrejas pentecostais e, principalmente as neopentecostais, estão dentro dos bairros mais carentes de infraestrutura.
Apesar de estarem próximas umas das outras, a aproximação entre essas Igrejas e a católica é mais difícil, mas não impossível. Como já foi dito anteriormente, Igrejas cristãs históricas têm uma caminhada ecumênica mais visível, facilitando o contato, a aproximação e o respeito; já nas demais – pentecostais e neopentecostais – percebemos um entrave maior para que participem de alguma atividade ecumênica, pois não querem quaisquer envolvimentos e/ou atividades com a Igreja Católica.
De acordo com o sociólogo Ricardo Mariano, “O crescimento pentecostal parece ter feito a diplomacia ecumênica perder terreno. Até porque, como é que se pode enfrentar em pé de igualdade e na ‘base da conversa’ um adversário radicalmente antiecumênico, indisposto ao diálogo e, em geral, sectário?.”19
Essa foi uma das primeiras dificuldades detectadas no município pesquisado; e está longe de ser uma exceção se comparada com outras regiões do Brasil.