4. DECISÃO JUDICIAL HOJE: MODELOS EXISTENTES
4.3.2. Proxy de Ideologia: Segal-Cover Score.
Especialmente tendo em mente a limitação de que há uma circularidade prejudicial em analisar a ideologia através das decisões dos juízes: “One cannot
demonstrate that atitudes affect votes when the atitudes are operationalized from those same votes” (SEGAL; COVER, 1989, p. 558), um modelo de escore
(pontuação) foi criado por Jeffrey Segal e Albert Cover, a partir de seu artigo “The
American Political Science Review”, publicado em 1989.
É evidente que não é tarefa fácil desenvolver uma medida independente de ideologia dos juízes, principalmente quando não se deseja utilizar suas próprias decisões. Em síntese, o que Segal e Cover estavam buscando era uma metodologia de mensuração de ideologia dos juízes que devesse cumprir os seguintes requisitos: (i.) os dados deveriam possuir conteúdo ideológico; (ii.) os dados deveriam ser comparáveis entre si; (iii.) os dados deveriam ser independentes das sentenças e decisões dos juízes mensurados; (iv.) os dados não deveriam apresentar erros sistêmicos (SEGAL; COVER, 1989, p. 560).
Desse modo, os autores rejeitaram algumas possibilidades, uma vez que elas não se encaixavam dentro dos quatro requisitos. Por exemplo, a mensuração da ideologia presente nas sentenças proferidas enquanto os juízes estavam em instâncias inferiores não era possível, uma vez que muitos dos juízes da Suprema Corte Americana não tiveram experiências em instâncias inferiores (logo, os dados
42 Na verdade, acreditamos que esta preocupação presente no trabalho de Segal e Cover (1989) não seja totalmente relevante. Dependendo do número de decisões disponíveis, é possível que haja uma separação entre conjunto de treinamento e conjunto de teste. Atualmente há mecanismos estatísticos e em machine learning que fazem com que uma mesma amostra possa ser rearranjada várias vezes para que os resultados sejam melhores. Iremos adentrar, em capítulo posterior, em modelos que utilizam a mesma base de dados tanto para treinamento como para testes.
não seriam comparáveis). Da mesma forma, utilizar discursos proferidos e artigos escritos por esses juízes também não era uma boa opção, pois esses discursos muitas vezes eram racionalizações que não indicavam as reais ideologias dos juízes, ou quando indicavam, poderiam referir-se a casos anteriores (os dados possuiriam erros sistêmicos, ou, não eram independentes de suas sentenças e decisões) (SEGAL; COVER, 1989, p. 560).
Segal e Cover chegaram à conclusão que, para que esses requisitos fossem cumpridos, a melhor alternativa para um índice comparável de ideologia para os juízes seria uma análise meticulosamente estruturada de editoriais de grandes jornais que citavam os juízes no período após sua nomeação pelo presidente até sua posse efetiva realizada no senado americano. Ou seja, em linhas simples, o
Segal-Cover score é uma pontuação que reflete a ideologia dos juízes da Suprema
Corte de acordo com o que os grandes jornais americanos acreditavam que fossem suas ideologias.
A metodologia é simples. Quatro grandes jornais foram selecionados: dois com viés mais liberal (NY Times e Washington Post) e dois com viés mais conservador (Chicago Tribune e Los Angeles Times). Cada parágrafo desses jornais que citasse os juízes e que contivesse algum conteúdo ideológico seria classificado como liberal, moderado, conservador ou não aplicável. Para que o conteúdo fosse considerado liberal, era necessário que os trechos demonstrassem apoio aos
direitos humanos de acusados, apoio a mulheres e minorias em casos de igualdade,
apoio ao indivíduo em casos contra o governo em relação a casos sobre privacidade e em relação a casos envolvendo o first amendment da constituição americana43.
Para que se considerasse o parágrafo como conservador, a opinião do juiz sob escrutínio deveria ser justamente oposta a isso. Se houvesse valores conservadores como liberais em um mesmo parágrafo, este deveria ser considerado moderado. A pontuação para cada um dos parágrafos foi estabelecida como 1. A pontuação final era obtida com uma média desses pontos:
𝑆𝑒𝑔𝑎𝑙 𝐶𝑜𝑣𝑒𝑟 𝑆𝑐𝑜𝑟𝑒 = 𝐿𝑖𝑏𝑒𝑟𝑎𝑙 − 𝐶𝑜𝑛𝑠𝑒𝑟𝑣𝑎𝑑𝑜𝑟 𝐿𝑖𝑏𝑒𝑟𝑎𝑙 + 𝐶𝑜𝑛𝑠𝑒𝑟𝑎𝑑𝑜𝑟 + 𝑀𝑜𝑑𝑒𝑟𝑎𝑑𝑜
43 A primeira emenda constitucional americana refere-se a algumas liberdades, tais como liberdade de expressão, liberdade de imprensa, de livre associação e liberdade religiosa.
O resultado do escore estaria sempre dentro de um intervalo de -1 a +1, sendo -1 o resultado mais conservador, e +1 o resultado mais liberal. No estudo de Segal e Cover (1989), esse escore foi considerado a variável independente.
Feito o cálculo do escore de ideologia, o próximo passo para que se “testasse” a relação entre a ideologia e as decisões dos juízes era a codificação dos
votos em decisões judiciais de cada um dos juízes. O resultado dos votos dos juízes
da suprema corte seria então a variável dependente44. A codificação dos votos
individuais dos juízes se deu de acordo com um “percentual liberal” em seus votos. Os votos liberais devem ser (i.) a favor do acusado em um processo penal; (ii.) a favor de liberdades civis; (iii.) a favor de indigentes; (iv.) a favor de indígenas; e (v.) contra o governo em casos sobre devido processo legal e privacidade (SEGAL, JEFFREY A.; COVER, 1989).
Ambos os resultados (da variável independente e dependente) encontram-se na tabela abaixo.
44 Uma variável independente é a medida que não depende de nenhuma outra variável para seu resultado. De forma oposta, uma variável dependente depende do resultado de outras variáveis.
Tabela 2 - Cálculo do índice Segal Cover para juízes da Suprema Corte
Fonte: Segal e Cover (1989)
A correlação final entre as variáveis é de 80 (80%). É um número bem significativo que denota que há uma forte relação entre juízes com escores liberais tendendo a tomar decisões liberais, enquanto juízes com escores mais conservadores, tendem a tomar decisões mais conservadoras.
Os resultados devem ser interpretados de maneira rigorosa, entretanto. O estudo não explica por que em determinados casos um juiz vota de forma liberal e em outros tipos de caso esse mesmo juiz vota de modo conservador. O que o modelo explica de forma bastante relevante é o porquê um juiz X vota de forma mais conservadora do que um juiz Y. O escore Segal-Cover é útil para que sejam feitas comparações entre juízes e análises posteriores de suas decisões. Desse modo, a criação deste índice foi um dos importantes passos que a teoria atitudinal realizou para consolidar-se como uma das mais importantes teorias sobre o comportamento judicial.