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Prudência: virtude codominante para o cuidar

CONSEQUÊNCIAS NO PROCESSO EDUCATIVO

3. A ÉTICA DO CUIDADO É UMA NOVA PROMESSA?

3.1 O CUIDADO E A QUALIDADE DO CARÁTER MORAL

1.1.1. Prudência: virtude codominante para o cuidar

Em geral, podemos dizer que estamos lidando com a dimensão prudencial na medida em que avaliamos uma questão em relação a outra, ponderando os ―prós‖ e os ―contras‖, bem como os riscos de cada uma para decidir o que seria inteligente fazer. Mas, vejamos isso de uma maneira mais aprofundada.

A ―sabedoria prática‖, também chamada de prudência, ―[...] é a habilidade de adaptar meios apropriados de modo sensato a fim de alcançar um objetivo BOM ou benéfico, especialmente por meio do exercício da previsão‖. (GRENZ, 2005, p. 145).

Aristóteles considerava que a prudência (phronésis) era a principal virtude adionoética (intelectual), uma vez que tinha a ver com o conhecimento e a razão. (MARQUES, 2001; CORTINA; MARTÍNEZ, 2005). As virtudes intelectuais são diferentes das virtudes de caráter. Estas últimas ―[...] são disposições para viver bem, que são adquiridas pelo treinamento e atividades habituais que nos permitem fazer a coisa certa na hora certa e do modo certo‖. (FURROW, 2007 p. 152). Entretanto, para que as virtudes de caráter sejam adquiridas é mister fazer julgamentos diante de situações, por vezes difíceis; o que implica uma compreensão do que realmente tem valor genuíno.

É a prudência que ―[...] proporciona critérios racionais para averiguar que tipo de comportamentos, quais virtudes, em suma, que tipo de caráter moral é adequado

[...]‖ para alcançar o fim último de todas as atividades humanas: a felicidade19

. A sabedoria prática é uma virtude que nos permite deliberar corretamente, mostrando- nos o que é mais conveniente em cada momento da nossa vida.

A prudência facilita-nos o discernimento na tomada de decisões, guiando- nos para a obtenção de um equilíbrio entre o excesso e a falta, é um guia das outras virtudes; a fortaleza ou coragem será, por exemplo, o termo médio entre a covardia e a temeridade; ser generoso será o termo médio entre esbanjamento e mesquinhez etc. Mas, o termo médio [, conforme a doutrina aristotélica,] não é uma opção pela mediocridade, e sim pela perfeição [...], a posse de uma virtude qualquer significa que, nesse aspecto de nosso comportamento, não há melhora possível, mas que alcançamos o hábito mais elevado. (CORTINA; MARTÍNEZ, 2005, p. 59).

Como é perceptível, a prudência anda estritamente vinculada ao bom senso, à moderação e à ponderação. Etimologicamente, prudência vem do latim prudentia, que por sua vez é derivada de providere, a qual pode significar prever e prover. (MARQUES, 2001). Ao levarmos em conta os dois significados apresentados pela etimologia do vocábulo, é possível compreender que a prudência é uma qualidade que nos permite detectar os perigos e evitar os erros, bem como prover a perfeição necessária para bem se comportar relativamente aos meios a se adotar. A prudência é um saber-fazer e pressupõe atenção, circunspecção e cautela.

[...] os franceses utilizavam a palavra sagasse para a designar, mostrando que a boa deliberação anda sempre associada à inteligência. Santo Agostinho dizia que a prudência é um amor que escolhe com sagacidade [...] o que lhe é útil e o que lhe é nocivo. (MARQUES, 2001, p. 192-195).

Aristóteles aponta que sabedoria e prudência não são termos correlatos. A primeira ―[...] tem por objeto aquilo que existe por demonstração e que é sempre da mesma maneira‖. (MARQUES, 2001, p. 191).

[...] a prudência refere-se a coisas que estão em mudança e que podem ser de várias maneiras. A prudência se refere a coisas uteis, as quais não tem a propriedade de serem imutáveis. Uma coisa útil hoje pode torna-se inútil amanhã. Ora, a prudência permite determinar a utilidade das coisas tendo em consideração circunstâncias particulares e o momento. (MARQUES, 2001, p. 191).

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Conforme, a concepção aristotélica, a felicidade ―[...] consiste em dominar as paixões e conseguir uma relação amável e satisfatória com o mundo natural e social em que estamos integrados para essa finalidade‖. (CORTINA; MARTÍNEZ, 2005, p. 60).

Furrow acrescenta que ―[...] um componente essencial da sabedoria prática é a habilidade de ser sensível às demandas de circunstâncias particulares e a habilidade de modificar os nossos fins para acomodar tudo aquilo que nos é caro‖ (FURROW, 2007, p. 152), tendo em vista que, como deliberação sobre viver uma vida boa, a prudência está preocupada em fazer com que diversos aspectos de nossa vida estejam articulados em um todo coerente. E mais: é a prudência ―[...] que nos permite saber quando a generosidade é apropriada em vista dos recursos limitados, a saber: quando mostrar gratidão sem parecer obsequioso, saber quando a interferência na vida de uma pessoa pode causar mais dano do que bem‖. (FURROW, 200, p. 152-153).

Dwight Furrow (2007) considera que a sabedoria prática requer, além de uma apreensão cognitiva de conceitos morais e um entendimento refletido de sua experiência, uma conexão emocional e sensibilidade. A sabedoria prática pode envolver uma compreensão de regras morais e princípios, como meios de resumir a experiência do passado. No entanto, essas regras não substituem a necessidade de que a ação seja guiada por julgamentos sensíveis ao contexto. (FURROW, 2007, p. 153).

Furrow (2007), a partir de uma perspectiva do cuidado, declara que, diante da inevitabilidade do conflito de comprometimentos e da exigência da integridade, a prudência deve ser encarada como uma virtude codeterminante. Igualmente, tendo em conta a perspectiva do cuidado, esse autor avalia que a doutrina do meio é ponto de partida para nos auxiliar a pensar quais os componentes da sabedoria prática; é, portanto, necessário avançar em nossa compreensão sobre essa virtude e seus componentes. Como falamos anteriormente, a prudência como ―[...] a capacidade de dar forma às emoções para que se possa adequadamente responder ao mundo é essencial para que se viva bem‖. (2007, p. 153).

A doutrina aristotélica aponta que o autocontrole é um componente da sabedoria prática: uma ―[...] pessoa sábia não sabe só o que deve ser feito, mas sabe utilizar tal compreensão para dar forma a seus impulsos, a fim de que suas ações estejam em conformidade com a sua compreensão.‖. (FURROW, 2007, p. 153). No entanto, embora útil, a perspectiva aristotélica não consegue tornar visível uma gama de habilidades que compõe a prudência. De igual modo, por buscar a

moderação, a doutrina do justo meio torna-se incompatível com as fortes paixões e tipos de excessos que, frequentemente, fazem com que a criatividade aflore, sendo essa, de acordo com Furrow (2007), um componente essencial para a felicidade como ―cuidado voluptuoso‖.

Ora, uma vez salientada a necessidade de um entendimento mais abrangente sobre a sabedoria prática, para além da que nos oferece Aristóteles, Furrow apresenta algumas capacidades que estão envolvidas com a prudência, a saber: habilidade de raciocínio; conhecimento de como o mundo funciona; atenção moral e percepção; capacidade para a autorreflexão; imaginação prática e inteligência emocional.

3.2.1.1 Habilidade de raciocínio

Para que se possa agir bem, é necessário que o agente moral esteja cônscio do propósito ou resultado final de sua ação, de o porquê ela é desejável e quais estratégias são necessárias para a consecução das intenções propostas — o que, por consequência, abrange a capacidade de julgar a efetividade de tais estratégias ponderando os aspectos positivos e negativos, os riscos de cada uma para decidir o que seria mais ―inteligente‖ a fazer. A prudência e o cuidado ―[...] requer[em] todas as habilidades que comumente associamos com a inteligência; a habilidade de fazer inferências lógicas, sintetizar e interpretar a informação, reconhecer similaridades e diferenças, etc.‖. (FURROW, 2007, p. 153).Em nossos dias, diversas vozes estão de acordo e insistem na compreensão de que o nosso contato com a realidade se dá, também, de modo afetivo. Blaise Pascal (1623-1662) já havia dito que ―Conhecemos a verdade, não só pela razão, senão também pelo coração‖. Uma racionalidade que abdica o vínculo com as emoções, dá margens para a banalização do mal. (CORTINA, 2007).

3.2.1.2 Conhecimento de como o mundo funciona

Furrow (2007) assinala que para que o agente tenha condições de empreender julgamentos acertados sobre o que vale a pena e empenhar-se na

manutenção dos relacionamentos de cuidado, ele carece de conhecimento sobre as necessidades humanas, do como elas se inserem no mundo, dos modos efetivos para satisfazê-la e da utilização de tais informações para realizar avaliações acuradas. Nesse sentido, os conhecimentos provenientes da psicologia, das ciências sociais e naturais são essenciais.

3.2.1.3 Atenção moral e percepção

O ato do espírito se ocupar de algo que lhe é exterior, bem como utilizar a capacidade intuitiva para ampliar o julgamento moral é postura básica para quem quer agir prudentemente. Furrow (2007) utiliza a acepção percepção moral de maneira muito metafórica, razão pela qual nos explica que:

A identificação de traços moralmente relevantes de uma situação não é uma questão se pura experiência sensorial como observar uma mancha de cor. [...] envolve um tipo de compreensão intuitiva por meio da qual se apreende, tanto uma forma detalhada quanto sintética, os vários fatores aos quais se deve prestar atenção em uma situação, para que seja moralmente responsável. (FURROW, 2007, p. 154).

A percepção moral, portanto, não se trata de um processo de análise e compreensão de deliberações alternativas, mas de uma habilidade para o uso de intuições finamente treinadas (FURROW, 2007) — especialmente porque nos relacionamos com pessoas concretas e singulares e não com personagens abstratos, e que só podem ser tidas desse modo se levarmos em estima o quanto elas são distintas.

Os traços moralmente relevantes de uma pessoa não se dão a conhecer por meio de uma descrição exaustiva de um papel particular que elas ocupam — como, por exemplo, ser um amigo —, mas pelas interações que mantemos com ela. Tais interações são capazes de incluir detalhes sutis em nosso julgamento ao ponto de nos levar a agir em consideração especial pela pessoa em questão em uma situação concreta. Nel Noddings (2003, p. 26), a respeito das situações de cuidado, irá declarar que o comportamento moral de quem cuida não depende ―[...] de regras, ou pelo menos não totalmente de regras [...], mas de uma constelação de condições

que são consideradas pelos olhos da cuidadora tanto pelos olhos do objeto do cuidado.‖.

Furrow (2007, p. 155) aponta que as situações com as quais nos confrontamos no dia a dia estão incrustadas em costumes sociais, histórias pessoais e relacionais, que se voltam, por vezes, a valores conflitantes e irreconciliáveis. Até mesmo os julgamentos éticos dos indivíduos estão fundamentados na trajetória de interações que teceu ao longo de sua existência e construiu sua cosmovisão. Por consequência, o resultado da capacidade de percepção moral dos indivíduos não será uniforme, mesmo em circunstâncias similares. Nesse sentido,

[...] Regras e princípios não podem funcionar como guias confiáveis aqui. Isto não quer dizer que nunca usemos princípios. Pessoas no processo de aquisição de excelência moral aprenderão, à semelhança dos jogadores de xadrez, os movimentos padrão e as movimentações estratégicas de sua comunidade e desenvolverão modos cada vez mais sofisticados de aplicar tais regras nos devidos contextos. No entanto, a excelência genuína verá as regras como resumos toscos do que parece funcionar na maioria das vezes, e desenvolverá percepções para dirigir ações, cada vez mais sofisticadas. (FURROW, 2007, p. 155).

A percepção moral requer a atenção moral. É por intermédio dela que temos a perspectiva de reconhecer as pessoas em seu contexto, bem como construir continuamente atitudes e padrões de resposta às demandas dos outros. Furrow se vale de uma explicação instrutiva do que é atenção moral, realizada pela filósofa e novelista Íris Murdoch, que é assim apresentada por ele:

[...] Uma mãe, [a quem denominaremos de M,] [...] é hostil à sua nora D, porque ela age de forma imatura, tem um pouco de sotaque em sua fala, e não é refinada. Na sociedade britânica da metade do século XX, que tem consciência de classe social, M vê o seu filho como alguém que se casou com uma pessoa abaixo de sua condição social — ele poderia ter feito melhor. Mas com o passar do tempo, M se critica por haver saltado a tais julgamentos e com [...] ―atenção justa e cuidadosa‖ altera gradativamente seu ponto de vista sobre D. Ela começa a ver D não como carente de polidez e de maturidade, mas como espontânea, sem complicações e cheia de jovial exuberância. Em vez de ser distante e desdenhosa, M se atém a D, e mantém com alguma luta e frustração uma posição de cuidado em relação a ela, o que lhe dá novos insights sobre a natureza de D. Ao manter a atenção moral, M talvez tenha mudado suas atitudes em relação a diferenças de classe social também. (FURROW, 2007, p. 157).

No campo filosófico, as teorias racionalistas intelectualistas fazem objeções contra as percepções, em geral, uma vez que as considera como não confiáveis, porque dependem de condições particulares de quem percebe e estão sujeitas às

ilusões. (Cf. CHAUÍ, 1995). É fato que a percepção não é amplamente partilhada de igual modo: ―[...] a percepção envolve toda a nossa personalidade, nossa trajetória pessoal, nossa afetividade, nossos desejos e paixões‖; ―[...] a percepção é uma maneira fundamental de os seres humanos estarem no mundo‖. (Cf. CHAUÍ, 1995, p. 123).

Fica difícil não admitirmos a pertinência dessa crítica. Em relação às percepções morais: ―Ligações fortes frequentemente nos impedem de ver as coisas com clareza. A intensidade de nossa preocupação com pessoas íntimas pode nos cegar à dor de estranhos, patriotismo pode nos cegar quanto aos efeitos da guerra, etc.‖. (FURROW, 2007, p. 156). Entretanto, ao acolhermos essa crítica, a questão da confiança que podemos ter em nossa intuição é posta em xeque: como podemos estar seguros de que nossas intuições não são exclusivamente arbitrárias? A consideração dos julgamentos subjetivos não nos predisporia a uma presunção moral? Furrow (2007) pondera que, evidentemente, os resultados da percepção não podem ser justificados e nem serem o fundamento dos nossos julgamentos éticos. Não obstante, elas nos oferecem boas razões para deliberarmos com sabedoria prática. Vale aqui mencionar o autor em suas próprias palavras:

Julgamentos intuitivos ou perceptuais não são corretos porque são intuitivos — eles são corretos porque têm suporte de boas razões. Precisamos de algum modo distinguir julgamentos intuitivos sólidos, daqueles baseados na ignorância ou preconceito, e a melhor forma de determinar tal distinção é ver se as intuições estão baseadas em princípios teóricos sólidos.

Pelo fragmento supracitado, está evidente que as percepções ou intuições morais devem estar suscetíveis a escrutínios que verifiquem a sua solidez, mas, sobretudo, podemos depreender que a sabedoria prática não é um método filosófico. Essas considerações estão estritamente vinculadas a outro traço da sabedoria prática delineada por Dwight Furrow, a saber: capacidade de autorreflexão.

3.2.1.4 Capacidade de autorreflexão

A tomada de decisões éticas ponderadas e sensatas, ou melhor, orientadas pelo saber prudencial, como advoga uma ética do cuidado, demanda uma concentração do espírito sobre si próprio, suas representações, sentimentos etc., em

constante diálogo consigo e com os outros, com vista a uma revitalização ou reencaminhamento do próprio ser e dos seus julgamentos morais. Essa via de formação da consciência ética impulsiona a questionar as fórmulas, os pensamentos e desejos pré-fabricados, e nesse sentido a sua virtude consiste em evitar a precipitação nos juízos, a imprudência, a impulsividade na conduta. (CAMARGO, 2011).

É fato que as nossas percepções são produtos de experiências construídas ao longo do tempo, e nesse processo acabam estabelecendo um sistema de crenças, hábitos e convicções pessoais das quais retiramos alguma segurança na avaliação de determinadas situações. Evidentemente, é provável que essa determinada segurança acabe protegendo esse sistema de crenças e convicções, bem como nossa compreensão, de uma reavaliação e também os erros e ilusões nele contido. A esse respeito, Edgar Morin nos lembra de que cada ―[...] mente é dotada também de potencial de mentira para si próprio (self-deception) que é fonte permanente de erros e ilusões‖. (MORIN, 2011, p. 20).

Morin (2011) adverte-nos de que o conhecimento que temos não corresponde ao que de fato constitui a realidade, posto que seja sempre uma tradução/reconstrução de percepções por meio da linguagem e do pensamento, suscetíveis ao erro e à ilusão. Esses, por sua vez, sempre pairam sobre a mente humana e o máximo que podemos fazer é impedir que eles se instalem e façam ninhos em nossas cabeças por meio de um combate vital rumo à lucidez, no reconhecimento das disposições tanto psíquicas quanto culturais, que nos conduz ao erro e à ilusão e aos riscos permanentes que eles nos impõem.

Para o antropólogo, sociólogo e filósofo francês, a ―[...] prática mental do autoexame permanente é necessária, já que a compreensão de nossas fraquezas ou faltas é a via para a compreensão dos outros‖. (MORIN, 2011, p. 87). Quem é incapaz de se reconhecer como suscetível ao erro é absolutamente capaz de ser juiz de tudo e de todos, de acusar e punir peremptória e implacavelmente, excomungando e anatematizando o outro. Por isso, a compreensão como um caminho de humanização das relações humanas se torna uma exigência de nosso estágio civilizatório.

A arte de aprender a reaprender incessantemente é o que permite tratar o erro e a ilusão do conhecimento de modo adequado, pois o ―[...] maior erro seria

subestimar o problema do erro; a maior ilusão seria subestimar o problema da ilusão‖. Igualmente, o ―[...] reconhecimento do erro e da ilusão é ainda mais difícil, porque o erro e a ilusão não se reconhecem, em absoluto, como tais.‖ (MORIN, 2011, p. 19). O nosso passado, inclusive o presente, está marcado por incontáveis erros. Até o saber que se propõe a elaborar conceitos pretensamente universais e neutros não escapa dos filtros históricos e culturais, pelo que é possível recolher, da longa tradição do pensamento filosófico, pérolas misóginas, sexistas e racistas.

Furrow declara que ―[...] a insistência na correção de nossas percepções morais não é suficiente uma vez que elas podem ter sido arbitrárias, preconceituosas, mal informadas, ou simplesmente o resultado de hábitos não apropriados ao contexto‖. (FURROW, 2007, p. 157). A via mais acertada, então, é uma melhor compreensão da situação para enfrentar o desafio da discórdia ou correção dos erros.

Entretanto, o caminho que envolve a proteção contra argumentos arbitrários, subjetivos, não deve estar ancorado em um princípio filosófico imparcial — dado que se a imparcialidade significa manter-se livre de concepções particulares, tal empreitada é completamente indefensável.

A sabedoria prática envolve certo engajamento, um mergulho na situação para que algo de novo possa emergir. A imparcialidade, conforme Furrow, deve ser encarada como o ―[...] tornar-se consciente de como os nossos preconceitos podem adentrar nossos julgamentos, e tentar eliminá-los, na medida do possível.‖ (FURROW, 2007, p. 161). E isso só é possível graças as virtudes do cuidado, integridade e sabedoria prática. A imparcialidade, como a concebe a perspectiva do cuidado, é um produto das interações que mantemos com os outros, ou melhor, é resultado de colaboração intersubjetiva. Essa é razão pela qual Furrow entende que a autorreflexão se desenvolve não apenas por um diálogo interno, mas, sobretudo, externo com o outro — ainda que não possamos chegar a um acordo satisfatório sobre a melhor maneira de deliberar em determinadas situações. Como nos explica:

[...] O diálogo entre pessoas que estão em desacordo pode produzir novos insights sobre outros meios de conceituar a situação, especialmente se puderem articular o processo que as levaram a ver a situação de tal modo. A motivação para tal auto-reflexão, que frequentemente pode ser dolorosa e difícil, é simplesmente o desejo de relacionamentos e o reconhecimento da importância dele para o nosso crescimento. [...] A deliberação é, ao menos até certo ponto, um processo de colaboração no qual os agentes

esclarecem seus pontos de vista e alargam seus horizontes somente à condição de ficarem abertos às perspectivas dos outros. (FURROW, 2007, p. 158,161).

É certo que as tendências preconceituosas e arbitrárias são minimizadas ao permitirmos que ―[...] uma variedade de ligações e comprometimentos, sustentados pela atenção moral, guie nossos julgamentos‖. (FURROW, 2007, p. 158, 161), mas isso não é garantia de sucesso e nem uma ―receita de bolo‖. A autorreflexão e o diálogo podem ser insuficientes para exterminar os preconceitos arraigados, mas a imaginação prática pode ser somada para fomentar uma compreensão mais extensão das nossas experiências e das experiências dos outros. (FURROW, 2007, p. 158).

3.2.1.5 Imaginação prática

A ética que se funda no cuidado entende que a imaginação é um elemento que amplia o pensamento ético e a gama de possibilidades de ação e julgamento moral, uma vez que problemas e propostas de solução adquirem um significado peculiar a partir dos contextos que os constitui e os condiciona.

Adela Cortina fala de imaginação criadora que é ―[...] aquela que se nutre da realidade e procura ampliá-la, projetando a partir dela‖. (2003, p. 77). Para se tomar decisões acertadas, é preciso ter mente aberta, ―[...] informa-se sobre a realidade, recorrer às contribuições de saberes diversos, e lançar mão da experiência alheia por meio da literatura, do cinema, das artes plásticas e de alguns meios de comunicação ‗bem administrados‖. (CORTINA, 2003, p. 77). Ronald Howard e Cliton Korver (2011) afirmam que a criatividade na vida ética depende disso, e nos aconselham que devemos chegar a várias alternativas, pelo menos três ou quatro. Em sua concepção, às vezes, uma alternativa criativa elimina completamente a sensibilidade ética.

Furrow denomina esse elemento do saber prudencial de imaginação prática e