2 TRILHANDO MEMÓRIAS
4.1 AS PELEJAS DE SER ESCRITOR E NEGRO E ARENGUEIRO
4.1.1 Os pseudônimos: Outros Afonsos
Era comum, nos tempos de Lima Barreto, a prática de fazer literatura e também escrever em jornais e revistas da época, dentre as quais estavam a revista Careta e a revista Fon-Fon. Os literatos, no entanto, buscavam fazer uma diferenciação entre o trabalho sério de literato ou até de homem público ao de cronista. Advém daí, talvez, o uso de pseudônimos por vários escritores renomados quando cronistas de jornais e revistas (Cf. BROCA, 2004).
Para Corrêa (2016), outro fator que também determinava o uso de pseudônimos é o fato de que alguns diretores de revistas e de jornais e também escritores eram perseguidos pelos governos. E isso os obrigava a se protegerem sob pseudônimos.
Contudo, em se tratando de Lima Barreto, não se pode afirmar que seja um disfarce. Seria uma espécie de jogo com o leitor, pois era comum que o próprio Lima Barreto apontasse seus
pseudônimos. Assim é que em uma de suas crônicas assinadas com o próprio nome, o mesmo se desmascara, pronunciando que “[...] eu mesmo já absolvi um destes matadores de sua própria mulher e contei isto, com o pseudônimo de ‘Doutor Bogólloff’, na A Lanterna, em 28 de janeiro do ano passado” (BARRETO, 1961, p. 168). Amil, Lucas Berredo, I. Caminha, Ingênuo, J. Hurê, Aquele, Leitor, Xim, são alguns dos pseudônimos usados por Lima Barreto.56
A questão já fora discutida em Muniz (2016, p. 86), conforme seu trabalho e a partir de palavras de Coelho Neto, os pseudônimos seriam “[...] um recurso para traçar um perfil de narradores-personagens, construídos cuidadosamente [...]” em que, ao “[...] contrário de esconder a identidade, ajudavam a descobrir a autoria dos textos” (GURGEL apud MUNIZ, 2016, p. 87).
Arrisco ainda cogitar outro aspecto das autorias nas revistas analisadas e também na correspondência de Lima Barreto com outros escritores. Pode-se constatar que, na maioria das vezes, um mesmo escritor podia se expressar no mesmo número de revista mais de uma vez, algo que pode levar a cogitar que alguns autores, por sua importância na revista, ficariam responsáveis por uma página das revistas. Assim tirinhas, anedotas, crônicas, muitas vezes anônimas podem constituir um mesmo sujeito com diferentes autorias numa página da revista.
É uma questão ainda em aberto e incipiente, mas diante das observações de Corrêa (2016, p. 16) em que o uso de pseudônimos “[...] poderia sugerir que cada número da revista contasse com a colaboração de uma variada gama de escritores, quando na verdade havia apenas um limitado grupo produzindo textos sob vários nomes”. E do que observa Muniz (2016) que um mesmo indivíduo poderia ter autorias distintas, inclusive transitando por mais de um campo discursivo. Pode-se trazer essas suposições à baila que pauta-se na possibilidade de ainda existirem crônicas e outros textos de autoria de Lima Barreto ainda não identificados.
Por último, em continuidade à discussão, destaco que os autores funcionavam como pontes de comunicação por todo o Brasil, colaborando para que autores de outros Estados tivessem seus textos publicados ou comentados nas várias revistas que circulavam pelo Brasil. Lima Barreto tinha uma ativa correspondência com outros escritores no Brasil e até algumas cartas endereçadas a escritores de outros países. Mais um indício do revozeamento de outros em suas crônicas. Nas análises de sua correspondência, pode-se apontar Lima Barreto como uma espécie de multiplicador- ponte entre vários escritores do Brasil. Elenco aqui, a título de exemplo dessas, o agradecimento
feito por Jacintho Álvares Filho pela publicação de uma crônica sua na revista Careta por intermédio de Lima Barreto.57
Muniz (2016) identifica um triplo movimento na imprensa de humor: noticiar, poetizar e fazer chacota. A autora apresenta como exemplo, a figura de Lulu Capêta, pseudônimo de Mariano Pinto, que construía seu enunciado a partir de um acontecimento que o poetizava e o encerrava com uma quadrinha.
Desse modo, perseguindo trilhas discursivas do autor, adentrei num mundo fluido e dinâmico de um escritor que não pode ser marcado pela inércia58. Observei que o mesmo mantinha uma ativa correspondência por todo o Brasil, levando a cabo sua ideia de ser a literatura “[...] meio de comunicação entre os homens [...]” (BARRETO, 2017, p. 239).
Retomando a questão das autorias nas revistas, gostaria de especular, sob o viés de Corrêa e Muniz, a produção coletiva nas revistas. Além dos pseudônimos, um único autor poderia participar de várias formas na constituição de um número de jornal ou revista. Ou seja, um mesmo autor poderia participar de mais de uma forma na produção daquela revista.59
Na leitura de crônicas da revista Careta (vide figura 7), identifiquei na mesma página textos de Lima Barreto: um assinado pelo próprio e outro assinado por seu pseudônimo Jonathan. A partir dessa reflexão também merece atenção que um mesmo sujeito possa vir a colaborar não apenas com a crônica, mas com outros usos da linguagem como quadrinhas, trovas.
57 O documento encontra-se digitalizado na Hemeroteca digital da Biblioteca Nacional sob o código I-6,28,120. Também o documento pode ser encontrado na Biblioteca luso-brasileira pelo link. Disponível em: <http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_manuscritos/mss1448740/mss1448740.pdf>.
58Um de seus primeiros pseudônimos de quando ainda escrevia n’A lanterna, era mais uma de suas formas de ironizar ser trabalho de amanuense, com horas a fio passadas na inércia. Cf. Barbosa (2002); Schwarcz (2017).
59 As revistas ilustradas do início do século XX tinham grande circulação por todo o Brasil, ditavam modas e tendências entre seus leitores. Seguiam os moldes das revistas europeias, em destaque as revistas parisienses, e expressavam o clima de novidades que o processo modernizador e urbanístico imprimia ao novo século. Nessas revistas era possível acompanhar as transformações sociais e a circulação de ideias por todo o Brasil. Para Corrêa(2016) a tiragem das revistas ilustradas alcançou um nível que as coloca como primeiros meios de comunicação de massa superando, inclusive os jornais diários de grande tiragem. O caráter eclético das informações contidas nessas revistas desde seções de humor, crônicas, poesias, reportagens, caricaturas colaborava para que as revistas Ilustradas fossem grandes irradiadoras de informações para os que vivam fora dos grandes centros urbanos.
Figura 7: Revista Careta
Logo, minhas conjecturas não estão soltas, mas se associam a ritos de comunidades discursivas que realizavam movimentos condizentes com o observado nas autorias, pseudônimos e escritas anônimas nas revistas analisadas.
Nesse movimento entre anônimos, pseudônimos e autorias numa produção coletiva das revistas ilustradas, a ação de uma produção coletiva com trocas e contribuições entre tais sujeitos, coloca em destaque a possibilidade das marcações históricas de suas participações nas revistas serem mais fluidas do que se imagina.
Como exemplo, trago uma crônica60 publicada na revista Fon-fon em 05/02/1910. A crônica intitulada Carnaval Político apresenta três aspectos que – dentro das questões aqui discutidas – pode ser de autoria de Lima Barreto:
• A interação entre os sujeitos escritores.
• O uso do termo Beldroegas para referir a um personagem em sua crônica.
• O caráter memorialista e de uma literatura em trânsito em suas incursões pela cidade em bondes ou trens.
A questão é trazida à discussão para explicitar a importância de pesquisas sobre tais aspectos e que abordagens futuras possam contribuir à investigação dessas autorias que circulam anonimamente por período tão ímpar da história do Brasil.