Considerando a história da humanidade, o conceito de adolescência é recente, tendo surgido, segundo Ariès (1981), no Século XX. Entretanto, Petersen (1988) afirma que desde a Antigüidade grega, filósofos e pensadores, como Aristóteles, já haviam identificado características diferenciadas relativas a esse momento do desenvolvimento humano. A autora relata que Aristóteles definia os jovens como seres apaixonados, irascíveis e impulsivos, características que continuam a lhes ser atribuídas, na ciência e no senso comum, até os tempos atuais.
Embora exista esse reconhecimento de características diferenciadas de uma determinada população, o termo adolescente advém do latim adolescere (“ad”= para + “olescere” = crescer), que significa de forma geral “crescer para” ou “crescer em direção a” e remete à idéia de desenvolvimento, de preparação para o que está por vir. Essa fase, conforme descrição de Ariès (1981), não tinha lugar na idade média, pois, até então, nem mesmo a infância era reconhecida na sociedade européia ocidental. As crianças, como o autor constatou em obras de arte da época, eram vistas como adultos em miniatura e partilhavam das atividades da comunidade, excetuando apenas as crianças de tenra idade, que dependiam de um cuidado diferenciado, uma vez que não sobreviveriam se deixadas sozinhas.
A educação formal não estava instituída e a aprendizagem se dava por meio da imitação do papel do adulto. Por volta do século XVII, a escola passou a exercer um papel no processo de aprendizagem. Contudo, inicialmente, a escola era para poucos e não havia diferenciação de séries divididas de acordo com as idades. Apenas os jovens nobres tinham a
possibilidade de serem educados com tutores na própria casa, em instituições militares, ou pela igreja.
A adolescência, tal como hoje é conhecida, pode ser considerada uma construção histórico-cultural estruturada ao longo do Século XX e em grande parte formada a partir da revolução industrial e da necessidade de uma maior escolarização para a entrada no mercado de trabalho.
Mas como é visto o jovem em um contexto mais atual?
“Enquanto escrevemos, estamos no final do ‘‘século da criança,’’ mas a preocupação com as crianças e adolescentes como guardadores da integridade do futuro vai, indubitavelmente, permanecer através do novo milênio” (Dubas, Miller & Petersen, 2003, p. 376).
Definir a adolescência à luz da psicologia não é uma tarefa fácil, uma vez que não há consenso entre os autores. A Organização Mundial de Saúde (OMS, http://www.who.int/topics/adolescent_health/en/) define a adolescência como o período da vida a partir do qual surgem características sexuais secundárias e em que se desenvolvem processos psicológicos e padrões de identificação que permitem ao jovem evoluir do estado de dependência da infância para o estado de autonomia da vida adulta (Newcombe, 1999).
A definição da OMS engloba a puberdade, período da vida em que ocorrem transformações profundas na fisiologia e na biologia corporal, dentre outras mudanças dessa fase (Vitalle, Tomioka, Juliano & Amancio, 2003).
A crença popular apresenta a adolescência como sendo um problema. Não é incomum os adultos se referirem a essa fase como “aborrecência”. A cultura ocidental reproduz a idéia do jovem rebelde, tal como na novela mexicana “Rebelde” apresentada pelo Sistema Brasileiro de Televisão (Abril.com, http://www.abril.com.br/rebelde_rbd/) e, muitas vezes, restringe a compreensão do adolescer à puberdade. Isto faz parecer que somente as mudanças
fisiológicas determinam esse momento da vida e tornam cada indivíduo como parte de uma massa, que responde de maneira idêntica às situações sociais.
Não há concordância quanto ao conceito de adolescência nem mesmo quanto aos limites etários, levando em conta a legislação brasileira ou as organizações públicas. Segundo a OMS, a adolescência abrange o período dos 10 aos 19 anos. No Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA (Brasil, 1990), tem início aos 12 anos e se estende até os 18 anos, inclusive em termos legais, mudança já atualizada no novo Código Civil Brasileiro. Por sua vez, as propostas para o futuro Estatuto da Juventude consideram que o indivíduo é jovem até os 29 anos de idade e demonstra que o conceito de Adolescência e Juventude varia de acordo com o contexto histórico e cultural.
Nesse sentido, Dubas, Miller e Petersen (2003) discorrem sobre as mudanças desse conceito ao longo da história da psicologia e consideram que a adolescência inicialmente era vista apenas como um período de transição entre a infância e a vida adulta, mas que atualmente os psicólogos tentam compreendê-la como um período de mudanças nas mais variadas áreas do desenvolvimento. Mudanças biológicas, fisiológicas, afetivas, cognitivas e psicológicas possibilitam ao jovem uma maior consciência de questões morais e sociais (Newcombe, 1999).
A partir de uma análise metateórica do conceito de adolescência, Dubas, Miller e Petersen (2003) reafirmaram ser Granville Stanley Hall (1844 – 1924) o primeiro autor a descrever a adolescência como uma etapa da vida. De acordo com essa análise o conceito passou por inúmeras mudanças ao longo do Século XX, se transformou de um conceito simples em um conceito complexo, trazendo implicações no método, ampliando o foco para estudos multivariados, multiníveis e interdisciplinares, que devem ser investigados por meio de trabalhos longitudinais.
Hall, influenciado pela teoria Darwiniana, via o desenvolvimento como uma recapitulação dos períodos da evolução humana, equiparando-a a um dos períodos turbulentos da emergência da civilização. Descreveu a adolescência como uma fase de “tempestade e tensão”, um período de estresse, de conflitos e confusão entre a inércia, o narcisismo e as dúvidas sobre si mesmo.
Lewin (1965), um dos pioneiros da psicologia social, organizacional e aplicada, precursor da psicologia ecológica, iniciou uma mudança de visão do conceito de adolescência ao descrevê-la como uma fase em que os limites do espaço vital se tornam ambíguos e dificultam tanto a percepção do jovem em relação ao que dele se espera quanto à previsibilidade dos seus atos. Lewin considerou que os aspectos biológicos e psicológicos influenciam no desenvolvimento e propôs uma interdependência entre a pessoa e o ambiente, denominando a soma da interação entre os fatores ambientais e pessoais de espaço vital.
Mais recentemente, Lewis (1995) concebeu a adolescência como uma etapa de individualização, que culmina com uma representação mais objetiva do “eu”, com a consolidação da identidade. Nesse momento, segundo o autor, o indivíduo abandona as atividades consideradas infantis e passa a assumir atividades e comportamentos mais condizentes com o mundo adulto, fator relacionado à constituição do seu futuro. Ao procurar se definir como pessoa o jovem se experimenta, se testa, a todo o momento. Essa posição está de acordo com a teorização de Erikson (1972) que afirma que a formação da identidade e a definição de si mesmo como pessoa são tarefas centrais para se tornar adulto.
Assim, por ser a adolescência período de preparação para a idade adulta, Lerner (1993) chama a atenção para os desafios relacionados às mudanças e enfatiza a possibilidade de uma adolescência sadia e positiva, ao contrário da crença popular (Lerner, Lerner, Almerigi, & Theokas, 2005). Contudo, como destaca Lerner (1993) “adolescência é uma espada de dois gumes” (p. xiii), é uma fase de grandes possibilidades com o surgimento de novas
habilidades, capacidades e da compreensão de si e, por sua vez, é um período de mudanças psicobiológicas e de risco social.
Prevenção de fatores de risco é tema recorrente nos textos relacionados à adolescência, seja em termos de mortalidade (Lolio, Santo & Buchalla, 1990), gravidez (Simões et al., 2006), doenças sexualmente transmissíveis (Taquette, Vilhena & Paula, 2004), tabagismo (Malcon, Menezes & Chatkin, 2003), drogadição (Ribeiro, Pergher & Torossian, 1998), acidentes do trabalho (Fischer et al., 2003) apesar da legislação, dentre outros.
Lerner, Lerner, Almerigi e Theokas (2005) trataram da prevenção de risco a partir da perspectiva da psicologia ambiental, do conceito de participação e afirmam que a atuação do jovem no seu ambiente possibilitaria o desenvolvimento positivo nessa fase da vida. Por essa razão, pesquisadores da área procuram compreender a relação dos jovens com o ambiente no qual estão inseridos, verificando as características dos lugares que eles escolhem para os seus momentos de lazer e para os momentos em que desejam estar sozinhos (Owens, 1988), as relações desses com os ambientes naturais (Kaplan & Kaplan, 2002) e com a identidade ecológica (Thomashow, 2002).
Lerner (1993) aponta a primeira fase da adolescência, a chamada adolescência inicial, como a mais importante para o desenvolvimento positivo e incentiva ações preventivas no campo político e social para diminuir possíveis riscos. O autor afirma que o significado específico dessa fase pode se concentrar em dois pontos; o primeiro relativo às variações sociais decorrentes do contexto histórico-social e o segundo relativo às "experiências com pessoas significativas" (Günther, 1993, pp. 45).
Como afirmaram Dubas, Miller e Petersen (2003) a preocupação com os adolescentes se deve a uma visão de que eles e as crianças são os guardadores do futuro da humanidade, fator que indica a importância social dos jovens. Partindo de uma visão do sistema dinâmico, as mudanças dos jovens influenciam e são influenciadas pelos diversos níveis do sistema, do
sistema familiar ao social (Preto, 1995). Nesse sentido, para um futuro melhor é necessário que existam iniciativas de cuidado com os adolescentes no sentido de promoção de saúde nos vários níveis individual, familiar e social.
Harris (1995) pesquisou as relações familiares e a importância dos amigos na adolescência e demonstrou que a influência dos pais pode não ter efeito determinante para esse desenvolvimento e para as escolhas realizadas pelos jovens. Segundo a autora, os pares também são responsáveis pelas escolhas dos adolescentes, a partir da transmissão cultural.
Steinberg (1987) demonstra no seu artigo Bound to Bicker a influência entre os sistemas, como a adolescência atua na vida familiar dos seres humanos e aponta que o mesmo ocorre com outros mamíferos, como os macacos. O autor afirma que é muito comum os pais sofrerem uma série de sintomas emocionais durante a adolescência dos filhos, incluindo baixa satisfação, dificuldades no casamento, maior irritabilidade. Aponta que, de maneira geral, pais e filhos consideram que a relação é boa, mas confirmam dificuldades durante essa fase. Relata que em estudos com macacos constatou-se que o desenvolvimento puberal dos filhotes é retardado se esse permanece ligado ao bando, existindo uma pressão para que os macacos púberes deixem a família para formar sua própria família nuclear.
No caso do ser humano, como descreve Roussel (1995), ao longo da adolescência o jovem não é considerado adulto, mas a proteção por parte dos adultos se apresenta diminuída e há um aumento das suas possibilidades de inserção em vários contextos, um aumento na autonomia para a qual o indivíduo nem sempre está preparado. Essa busca de autonomia e o acesso a vários contextos permitem uma participação em ambientes variados, facultando ao jovem oportunidades de contato com ambientes até então não explorados. É essa inter-relação de jovens com o seu ambiente físico que constituí o tema de interface entre a psicologia ambiental e a psicologia do desenvolvimento.